Faculdade não garante igualdade salarial ao jovem negro
Pesquisa revela que jovens negros chegam à universidade, mas no mercado de trabalho ainda enfrentam segregação ocupacional, que os mantém em cargos de baixa hierarquia e remuneração
29 NOV 2025 - 12H27 • Por Wilson LopesEmbora o acesso de jovens negros à educação tenha crescido, esse aumento não tem se refletido, na mesma proporção, na inclusão profissional. Esta é uma das principais constatações da pesquisa ‘Juventudes Negras e Empregabilidade - Desafios estruturais e caminhos para a equidade no mercado de trabalho no Brasil’, realizada pela Fundação Itaú, em parceria com o Pacto de Promoção da Equidade Racial.
Para mensurar e monitorar objetivamente essas desigualdades, o estudo desenvolveu o Índice ESG de Equidade Racial da Juventude Negra (IEERJN). Os resultados do IEERJN foram calculados a partir dos dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) entre 2012 e 2023, considerando cinco grupos de escolaridade: pós-graduação, graduação, ensino médio, fundamental e fundamental incompleto; além do resultado ponderado que é a média das cinco escolaridades. O índice calcula a distribuição racial das 627 famílias de profissões da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) de acordo com os níveis de escolaridade selecionados, entre jovens profissionais de 15 a 29 anos.
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Segundo o estudo, o IEERJN em 2023 era de -0,38 para Pós-Graduação e -0,29 para Ensino Superior. Quanto menor for o índice, maior o descolamento entre educação e inclusão profissional. Já o Ensino Fundamental Completo registrava -0,01 (próximo à equidade) e o Fundamental Incompleto, cerca de +0,15.
“O Brasil está formando uma geração de jovens negros altamente qualificados, mas o mercado ainda não os absorve com equidade. Isso representa não apenas uma injustiça social, mas também uma perda econômica: estamos desperdiçando produtividade e inovação”, afirmou Gilberto Costa, diretor-executivo do Pacto de Promoção da Equidade Racial.
Segundo a pesquisa, a exclusão racial é mais acentuada nas profissões de maior remuneração, especialmente em engenharia, direito e tecnologia. Os dados mostram que jovens negros com ensino fundamental incompleto ou completo permanecem mais próximos da equidade racial ao longo dos anos, enquanto aqueles com maior escolaridade enfrentam barreiras maiores. O padrão detectado reforça a segregação ocupacional, que mantém pessoas negras predominantemente em cargos de baixa hierarquia e remuneração.
“O acesso à educação é fundamental para reduzir desigualdades. Porém, ainda que um profissional negro tenha a mesma formação de um profissional branco, esbarra em barreiras como o racismo no ambiente corporativo. A educação, sozinha, não é suficiente para promover equidade racial. É necessário enfrentar o racismo estrutural”, acrescentou Costa.
Jovens negras
O estudo mostra que a desigualdade é ainda maior sob a perspectiva de gênero. Mulheres jovens negras ocupam a base da hierarquia dos salários, e estão entre as que mais realizam trabalho doméstico não remunerado e são mais expostas à gravidez em idade precoce.
O IEERJN das mulheres jovens negras por escolaridade (RAIS) era, em 2023, -0,33 na Pós-Graduação; -0,31 no Ensino Superior; e -0,37 no Ensino Médio. No entanto, o índice aponta que, quando superam as barreiras de acesso à universidade, as jovens negras com ensino superior completo possuem melhores resultados em relação aos outros níveis analisados, com um histórico mais consistente de crescimento.
“Historicamente, as mulheres negras recorrem ao empreendedorismo como forma de sustentar as suas famílias, diante das dificuldades encontradas no mercado formal. Mesmo quando elas conseguem concluir o ensino superior e conquistar maior mobilidade social, não necessariamente estão em uma situação favorável. Muitas vezes, ainda precisam lidar com salários menores e dificuldade de acesso a cargos de liderança”, destacou Costa.
Disparidades em números
Os dados estatísticos do estudo reforçam a urgência da questão:
• Desemprego e Informalidade: A taxa de desemprego dos jovens negros (13%) é superior à dos brancos (10%). A informalidade atinge 48% das juventudes negras, em contraste com 37% das juventudes brancas. As jovens mulheres negras estão no grupo de maior representação entre os desempregados e ocupam a base da hierarquia salarial no setor formal.
• Escolaridade e Segregação: A desigualdade racial torna-se mais evidente à medida que os níveis de escolaridade aumentam. Jovens negros com ensino superior completo e pós-graduação estão em situação de maior exclusão, enquanto a maioria está concentrada em ocupações de baixa hierarquia e remuneração, geralmente associadas a menores níveis de escolaridade.
• Disparidades Regionais: Estados do Sudeste e Sul (como São Paulo) apresentam maior exclusão dos jovens negros no mercado formal (que conta com maior presença de jovens brancos), mesmo oferecendo melhores salários e oportunidades, enquanto as regiões Norte e Nordeste mostram maior presença de jovens negros, mas com menor renda média.
Com informações de Bruno Bocchini, Agência Brasil.
@fundacaoitau @prefeituradefeira @ministerioigualdaderacial
Acesse a pesquisa Juventudes Negras e Empregabilidade>>
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