Buriticupu, no Maranhão, está sendo engolida pelas voçorocas
Combinação inadequada entre mau uso do solo, falta de drenagem, desmatamento e ocupação desordenada 'rasga a terra' e coloca população urbana em risco iminente
13 MAR 2026 - 10H18 • Por Wilson LopesBuriticupu, distante 415 quilômetros (km) de São Luís, é uma cidade cercada por buracos que têm provocado o colapso de ruas, a perda de moradias e colocado milhares de famílias em situação permanente de risco.
Algumas das voçorocas, termo correto para o fenômeno que atinge a cidade, chegam a medir mais de 30 metros de profundidade e engolem casas, ruas e, a cada período chuvoso, tiram a paz dos 55.499 moradores do município (Censo/22). A situação vem se agravando há pelo menos quatro décadas e fica mais evidente no período de chuvas.
Na avaliação do professor doutor do Departamento de Geociências da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Marcelino Farias, a situação do município serve de alerta para o que acontece quando diferentes fatores entram em cena, a exemplo de um terreno frágil, do desmatamento ilegal e da ausência de projetos de drenagem de águas pluviais, entre outros.
“Buriticupu é um caso típico de mau uso do solo, especialmente urbano, que deve ser utilizado como um exemplo a ser evitado em outras realidades, tanto do Maranhão quanto do restante do país”, disse o pesquisador à Agência Brasil.
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Originado do tupi-guarani, o termo é conhecido como “boçoroca”, “Ibi-Çoroc” e significa “terra rasgada”. As voçorocas são um fenômeno que, embora natural, pode ser intensificado pela combinação entre chuvas intensas, topografia local, desmatamento de encostas e falta de drenagem adequada, que agravam a situação das regiões propícias as erosões.
O professor explica que Buriticupu tem uma confluência de fatores naturais que contribuem muito para a erosão, mas que o desmatamento ilegal acabou incrementando bastante os processos erosivos.
“Muitas áreas foram desmatadas sem autorização, sem controle, para a implantação da pecuária, e a pecuária hoje é uma das principais causas da erosão na zona rural.”
Calamidade pública
Nos últimos três anos, a situação vem se intensificando, com inúmeras ruas sendo tomadas pelas crateras. Em agosto de 2024, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) repassou R$ 32,9 milhões para Buriticupu para ações de defesa civil, projetos e obras de drenagem. Na época, o município maranhense registrava 26 crateras, algumas com 600 metros de extensão e 70 metros de profundidade. Contudo, as medidas não reverteram o problema. Em fevereiro de 2025, a prefeitura de Buriticupu decretou estado de calamidade pública devido ao agravamento das erosões, que atingem casas e ruas.
Segundo Farias, o desmatamento no entorno do município, a pavimentação sem rede de drenagem e a falta de obra de contenção dentro dos parâmetros técnicos fazem com que a situação se agrave e dificulte a solução do problema. O especialista ressalta que nada de concreto foi feito para combater a erosão.
“As áreas continuam sendo urbanizadas próximo à encosta, as ruas continuam drenando para essas encostas e não há nenhuma obra de drenagem, de contenção da velocidade ou do fluxo de água para resolver o problema”, aponta o professor.
Marcelino Farias explica que a geomorfologia da região, com o relevo ondulado, a cidade cercada por vales e a concentração de chuvas, durante determinado período do ano, contribuem para agravar a situação. A cidade vem crescendo muito, de acordo com Farias, o que piora a situação.
“Isso faz com que mais ruas surjam, mais ruas sejam pavimentadas e mais água de esgoto e água pluvial sejam coletadas e direcionadas para a encosta, sem o devido cuidado com o fluxo dessa água para não causar erosão. Isso vai incrementar, então, os processos erosivos já existentes e fazer com que novos processos erosivos surjam”, reiterou.
Colapso urbano
Caso medidas urgentes e estruturais não sejam adotadas, o cenário aponta para risco de colapso urbano. Entre as medidas apontadas estão soluções baseadas em diagnóstico com uso de geotecnologias, em bioengenharia, como retaludamento, revegetação e implantação de sistemas eficientes de drenagem das águas pluviais e do esgoto.
O professor chama atenção para a necessidade de o poder público municipal tomar a frente do processo, inclusive debatendo o crescimento urbano, planejando a ocupação do solo e impedindo que áreas vulneráveis sejam ocupadas.
“O poder público municipal tem que agir imediatamente para conter os processos erosivos. Isso só vai ser possível com a atualização do plano diretor, que vai proibir e controlar o uso de áreas que são vulneráveis à erosão e que não podem ser ocupadas. Também é preciso haver obras de drenagem efetivas que controlem o fluxo de água nas áreas de encosta, que o esgoto tenha uma destinação correta, não sendo jogado nessas encostas, favorecendo a erosão”, defende o professor.
Prefeitura
A Agência Brasil tentou contato com a prefeitura de Buriticupu e aguarda posicionamento. Nos últimos dias, há uma referência indireta ao problema das voçorocas no município. Em uma rede social, a prefeitura publicou um alerta diante do recente grande volume de chuva.
Em 72h, iniciadas no dia 4/03/26, foram registrados aproximadamente 114 mm de chuva e a previsão é de que elas intensas continuem.
A nota diz que o município está sob alerta moderado para ocorrências de movimento de massa, emitido pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O comunicado chama atenção para o fato de que as constantes chuvas no município podem provocar deslizamentos de barrancos e encostas.
“A orientação do Corpo de Bombeiros é para que a população que reside em área de risco fique atenta a qualquer sinal de perigo, como alagamentos, enxurradas, deslizamentos, desabamentos, trincas em paredes, árvores ou postes inclinados. Caso perceba qualquer sinal, abandone o local imediatamente e procure abrigo fora da área de risco.”
Justiça condenou Buriticupu
A Justiça do Maranhão, por meio da 1ª Vara de Buriticupu, condenou o município a implementar diversas medidas com o objetivo de conter o avanço das voçorocas. Em 2023, a Justiça já havia determinado que o município realizasse intervenções emergenciais no prazo de 90 dias para conter as erosões e executasse ações de recuperação ambiental nas áreas afetadas dentro do período de um ano. Em caso de descumprimento, foi estipulada uma multa diária de R$ 10.000,00.
Na sentença, o juiz Flávio Gurgel destacou que o fenômeno tem causado um impacto irreversível na paisagem e no ecossistema local, exigindo medidas imediatas do ente municipal. Além disso, enfatizou que as provas reunidas no processo demonstram que as voçorocas têm se expandido sem uma contenção eficaz, o que expõe famílias ao risco de desmoronamentos, colocando vidas em perigo.
“O perigo do dano se revela evidente diante dos relatos de desmoronamentos progressivos e da falta de ações efetivas para solucionar a problemática de forma definitiva. Dessa forma, está configurado o dever do município de atuar urgentemente na mitigação e resolução dos impactos negativos decorrentes do fenômeno erosivo”, detalhou o magistrado.
Diante disso, a Justiça condenou o município a delimitar e isolar áreas de risco no prazo de 30 dias; atualizar o cadastro de todas as famílias residentes nas proximidades das áreas afetadas, providenciando aluguel social para aquelas expostas a risco iminente; apresentar, dentro de 120 dias, um plano detalhado para a execução de obras de contenção das voçorocas, com cronograma físico-financeiro; implementar medidas de mitigação dos impactos ambientais; e realizar a recuperação ambiental das áreas degradadas no prazo máximo de quatro anos.
Em caso de descumprimento, foi estipulada uma multa diária de R$ 50.000,00, limitada ao valor de R$ 2.000.000,00, cujo montante deverá ser revertido ao Fundo Estadual de Proteção dos Direitos Difusos.
Soluções eficientes
Um grupo de professores da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão (Uemasul), está desenvolvendo, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pesquisadores do exterior, um projeto de mapeamento detalhado que tem como objetivos diagnosticar com uso de geotecnologias, propor soluções eficientes e monitorar as áreas afetadas, além de mitigar o surgimento de novas erosões.
A ação conta com recursos dos governos Federal e Estadual. O projeto será dividido em três etapas: planejamento integrado aos órgãos federais, estaduais e municipais; proposta de mapeamento diagnóstico, indicação de intervenção e monitoramento contínuo, uma vez que a cidade está localizada em um local sensível em termos de fatores geográficos locais (topografia).
Segundo o Corpo de Bombeiros Militar do Maranhão (CBMMA), o avanço das voçorocas também levou outras cidades a decretarem Situação de Emergência no ano passado. Além de Buriticupu, as cidades de Porto Franco, Carolina, Barra do Corda e Bom Jesus das Selvas foram afetadas por esse fenômeno, caracterizado pela formação de grandes buracos de erosão provocados pela água da chuva e pelas intempéries do solo.
Com informações de Luciano Nascimento, Agência Brasil; Uemasul; MIDR; Corregedoria Geral da Justiça do Maranhão.
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