Apenas 5% da população acredita que a cidade onde mora não é violenta
Mesmo assim, 60% da população é contrária à posse de armas e 82% acreditam que as câmeras corporais são tecnologias que protegem os bons policiais e produzem provas contra criminosos
20 MAI 2026 - 10H28 • Por Wilson LopesA sensação de insegurança está amplamente disseminada no Brasil e pouco depende de recortes clássicos como renda, idade ou experiência direta com a violência. Essa é uma das principais constatações do estudo ‘O que pensa a população brasileira sobre segurança pública?’, publicado pelo Instituto Sou da Paz.
A pesquisa revela que a percepção de que “a cidade é violenta” aparece de forma consistente em praticamente todos os perfis, com destaque para as capitais do Sudeste, onde 61% classificam suas cidades como “muito” ou “superviolentas”.
No total, apenas 5% da população acredita que a cidade onde mora não é violenta e 23% a consideram “um pouco violenta”.
Segundo a pesquisa, a insegurança diminui à medida que o território se aproxima da vida cotidiana. Apenas 32% dizem se sentir seguros na cidade onde moram, mas esse número sobe para 47% no bairro e chega a 59% na própria rua.
Os especialistas acreditam que esse dado reforça a centralidade da percepção comunitária e aponta, de forma clara, para o valor de políticas de policiamento de proximidade, presença territorial qualificada e vínculos locais como estratégias eficazes de redução do medo.
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Roubo de celular e violência contra mulheres
O estudo mostra que os roubos e furtos aparecem como os crimes mais frequentes, mais visíveis e mais vividos pela população, tanto na cidade quanto no bairro e na rua.
“Para o cidadão comum, a distinção jurídica entre roubo, furto ou assalto é irrelevante: o que importa é a experiência direta de vulnerabilidade, quase sempre associada à presença de armas.”
Lideram a preocupação da população o roubo de celular e o tráfico de drogas (89%), os assassinatos, mortes violentas e violência contra mulheres (83%), além da violência sexual (77%).
Mudança de hábitos
Diante dessa insegurança, 57% da população mudaram de hábitos ou rotinas por medo da violência.
“Evitar sair à noite, alterar trajetos, deixar de frequentar espaços públicos e ‘ficar mais em casa’ tornaram-se estratégias comuns, especialmente entre mulheres e moradores de capitais.”
Por conta disso, quase toda a população (96%) consome notícias sobre violência, e 77% o fazem diariamente, principalmente por meio da TV e das redes sociais.
“Mais do que informar, esse ciclo contínuo de exposição prolonga o impacto emocional da violência, estica a ‘cauda’ das notícias e mantém o medo ativo no cotidiano. A insegurança, portanto, não nasce apenas do que acontece, mas do quanto aquilo reverbera e se repete no ambiente informacional.”
Contra arma de fogo
A pesquisa alerta que a maioria da população (60%) é contrária à posse de armas. Para os especialistas, o medo está menos associado a crimes letais isolados e mais à sensação da presença armada, especialmente nos espaços públicos, uma vez que assaltos com arma de fogo são apontados como a principal fonte de insegurança.
A confiança nas instituições de segurança pública é moderada e varia conforme renda, escolaridade, território e experiência direta com a violência. A pesquisa revela um padrão importante: quanto maior for a vulnerabilidade social, maior a confiança nas instituições; quanto maior for a renda e escolaridade, maior o nível de crítica.
Instituições federais apresentam níveis de confiança superiores às forças estaduais e municipais. A Polícia Federal tem o maior nível de confiança (68%) e a Guarda Civil Municipal (55%) a menor.
Disputa de narrativas
O estudo indica que, embora narrativas punitivistas ainda tenham força simbólica, a maioria da população brasileira já expressa posições pragmáticas e menos violentas sobre segurança pública.
“A ideia de que ‘a polícia prende e a Justiça solta’ segue majoritária, mas convive com consensos claros em outros pontos centrais do debate. Há amplo apoio à aplicação das penas que já existem, em vez de seu aumento contínuo; rejeição expressiva à lógica do armamento da população; forte concordância de que mais armas significam mais mortes; ampla defesa do uso de câmeras corporais como instrumento de proteção ao bom policial e de produção de provas; e maioria consistente contrária à execução sumária, afirmando que crimes devem ser julgados e punidos dentro da lei.”
A pesquisa conclui que esses dados mostram que o imaginário social não é homogêneo nem totalmente capturado pelo punitivismo. Ao contrário: existe uma base majoritária aberta a argumentos de inteligência, legalidade, controle e eficácia — desde que a comunicação parta de problemas reais, fale de proteção concreta e evite a armadilha do confronto ideológico abstrato.
É nesse espaço que se abre a possibilidade de disputar o debate público sobre segurança com legitimidade social. Nesse contexto, 82% acreditam que as câmeras corporais são tecnologias que protegem os bons policiais e produzem provas contra criminosos, e 77% alegam que armas legais são compradas, roubadas e viram violência nas mãos dos bandidos. E apenas para 20%, “bandido bom é bandido morto.”
Com informações do Instituto Sou da Paz.
@instituto.soudapaz @mjspgov @iza.mundim
Acesse a pesquisa ‘O que pensa a população brasileira sobre segurança pública?’>