Crescimento das cidades é influenciado pelo sistema financeiro
Imóveis deixam de ser vistos apenas como locais para morar e passam a ser tratados também como ativos financeiros, capazes de gerar lucro, renda ou valorização patrimonial
18 JUL 2026 - 09H06 • Por Wilson LopesAs transformações da economia brasileira nas últimas cinco décadas alteraram profundamente a maneira como as cidades crescem e como a moradia é produzida no país. A conclusão está no livro ‘A produção da casa e da cidade no Brasil contemporâneo: novos estudos sobre autoconstrução, Estado e imobiliário’, organizado por pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Produção da Casa e da Cidade, que analisa os impactos da desindustrialização, da expansão do setor financeiro e das mudanças nas políticas públicas sobre o espaço urbano brasileiro.
Segundo o estudo, o modelo urbano que predominou durante o ciclo de industrialização do século XX, marcado pela autoconstrução de moradias em áreas periféricas por trabalhadores da indústria, deu lugar a uma dinâmica mais complexa.
Hoje, o crescimento das cidades é influenciado pela financeirização do mercado imobiliário, pela expansão dos serviços, do agronegócio e das plataformas digitais, além da maior precarização das relações de trabalho.
Os pesquisadores destacam que a participação da indústria na economia brasileira encolheu significativamente nas últimas décadas. Enquanto o setor respondia por cerca de 46% do Produto Interno Bruto (PIB) no início dos anos 1980, essa fatia caiu para aproximadamente 25% em 2023. Paralelamente, aumentou o peso das atividades financeiras, dos serviços e da exportação de commodities, modificando os mecanismos que orientam a expansão urbana.
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O levantamento também mostra que o Brasil se tornou majoritariamente urbano. Se em 1950 cerca de 70% da população vivia no campo, o Censo de 2022 indica que aproximadamente 85% dos brasileiros residem em áreas urbanas. Esse crescimento, porém, não se concentrou apenas nas grandes metrópoles, alcançando também cidades médias e polos ligados ao agronegócio, à mineração e à logística.
Apesar dos avanços em infraestrutura e das políticas habitacionais implementadas nas últimas décadas, os autores afirmam que a desigualdade permanece como uma característica estrutural das cidades brasileiras. A diferença, segundo a pesquisa, é que os mecanismos de produção dessas desigualdades mudaram: a informalidade continua presente, muitas vezes coexistindo com empreendimentos públicos e privados, enquanto a valorização imobiliária e a financeirização impulsionam processos como verticalização, aumento do preço da terra e reconfiguração de áreas urbanas.
Outro ponto destacado é a mudança no perfil do trabalhador urbano. O emprego industrial relativamente estável foi, em grande medida, substituído por ocupações mais precárias, como trabalho por aplicativos, terceirização e autoemprego. Essa nova realidade também influencia a forma de acesso à moradia e a produção do espaço urbano.
Para os pesquisadores, compreender as cidades brasileiras contemporâneas exige considerar não apenas as transformações econômicas, mas também o papel crescente do mercado imobiliário, das finanças e das políticas públicas na organização do território. O livro reúne estudos realizados em diferentes regiões do país, ampliando a análise para além das grandes metrópoles e oferecendo um panorama atualizado sobre os desafios da urbanização brasileira.
Com informações de José Tadeu Arantes, Agência FAPESP.
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Acesse o livro ‘A produção da casa e da cidade no Brasil contemporâneo: novos estudos sobre autoconstrução, Estado e imobiliário’