Violência recua, mas estelionatos, feminicídios e crimes contra crianças seguem em alta
Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 indica que a redução dos homicídios, embora relevante, não significa uma diminuição generalizada da violência no país
23 JUL 2026 - 10H26 • Por Wilson LopesO 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostra que o Brasil manteve a tendência de redução dos homicídios em 2025 e atingiu a menor taxa de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica, em 2012.
Apesar desse avanço, o estudo alerta para a persistência da violência letal contra jovens negros, o crescimento dos estelionatos, da violência doméstica, dos crimes contra crianças e adolescentes e da letalidade policial.
Conforme o relatório, em 2025, o país contabilizou 40.775 Mortes Violentas Intencionais (MVI) — homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial. O total representa uma queda de 8,2% em relação a 2024, reduzindo a taxa nacional para 19,1 mortes por 100 mil habitantes, a menor desde 2012. Na prática, desde 2012, 737.883 pessoas foram assassinadas no Brasil.
Entre os estados, as maiores taxas de MVI estão no Amapá (42,5/100), Bahia (36,8) e Ceará (34,7). As menores taxas foram alcançadas por Santa Catarina (7,6), São Paulo (7,8) e o Distrito Federal (9,6).
Apenas sete unidades da federação registraram aumento das mortes violentas em 2025. Os maiores crescimentos ocorreram no Rio Grande do Norte (+19,6%), Rondônia (+7,5%), Acre (+6,3%), Roraima (+5,8%), Distrito Federal (+5,8%), Mato Grosso do Sul (+4,9%) e Rio de Janeiro (+2,1%).
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Cidades mais violentas
Entre os municípios com mais de 100 mil habitantes, os maiores índices de mortes violentas foram registrados na região Nordeste: Maranguape (CE), Eunápolis (BA), Maracanaú (CE), Porto Seguro (BA), Simões Filho (BA), Jequié (BA), Caucaia (CE), Cabo de Santo Agostinho (PE), Santa Rita (PB) e Juazeiro (BA). A lista evidencia forte concentração da violência, especialmente na Bahia e no Ceará.
Com relação ao perfil das vítimas, as mortes violentas continuam atingindo principalmente os homens (90,8%), jovens entre 18 e 29 anos (41,6%) e pessoas negras (79,7%).
Segundo o levantamento, a taxa de mortes violentas entre negros é 3,5 vezes maior do que entre brancos, demonstrando a permanência da desigualdade racial na violência letal brasileira.
Letalidade policial aumenta
As intervenções policiais provocaram 6.602 mortes em 2025, com alta de 5,4%. Ao mesmo tempo, 139 policiais foram vítimas de mortes violentas (-3,5%). Além disso, os suicídios de policiais caíram 12,7% em relação a 2024, mas acumulam crescimento de 37,8% desde 2017, indicando agravamento dos problemas relacionados à saúde mental das corporações.
Estelionato é o principal crime patrimonial
O estudo aponta uma mudança importante no perfil da criminalidade brasileira e o estelionato se consolida como principal crime patrimonial. Segundo o relatório, foram registrados 2.261.055 boletins de ocorrência por estelionato, um crescimento de 2,7% em um ano e um aumento acumulado de 429,8% desde 2018.
Na prática, são 258 golpes por hora, mas apenas 63.771 processos penais foram instaurados. Ao final do ano, havia 4.819 presos pelo crime. O Fórum conclui que o estelionato se tornou “o crime que compensa”, diante da enorme diferença entre registros policiais e responsabilização criminal.
Furtos de celular continuam elevados
Os roubos apresentaram queda em praticamente todas as modalidades: veículos (-20,6%); residências (-19,9%); transeuntes (-19,8%); instituições financeiras (-23,4%); e carga (-35,5%). Já os furtos de veículos cresceram discretamente (+0,9%).
No entanto, foram 830.890 celulares roubados ou furtados em 2025 — média de 95 aparelhos por hora. O roubo caiu 18,6%, enquanto o furto aumentou 0,9%.
Nesse contexto, a cidade de São Paulo concentra um dado expressivo, pois abriga 5,6% da população brasileira, mas responde por 20% de todos os roubos e furtos de celulares do país.
As maiores taxas ocorreram em São Luís (MA), Belém (PA), São Paulo (SP), Salvador (BA), Lauro de Freitas (BA), Porto Velho (RO), Manaus (AM), Olinda (PE), Ananindeua (PA) e Teresina (PI).
Violência contra mulheres permanece elevada
Em 2025, o Brasil registrou 1.571 vítimas de feminicídio, um aumento de 4% em relação ao ano anterior. No período, também foram cometidas 4.189 tentativas de feminicídio (+5,9%).
O perfil das vítimas mostra que 65,1% eram negras, 56,5% tinham entre 25 e 44 anos, e 56,5% foram assassinadas dentro da própria residência.
Entre os feminicídios com autoria conhecida, 96,4% foram cometidos por homens, 60,9% dos autores eram parceiros íntimos, 18,9% ex-companheiros e 12,1% familiares.
Já os estupros apresentam a primeira redução após a pandemia. O levantamento registra 84.388 vítimas de estupro e estupro de vulnerável, com queda de 5,4%. Mesmo assim, os números permanecem elevados. Entre as vítimas, 87,8% são mulheres, 57,1% são negras e 77% têm até 13 anos.
Nos casos envolvendo crianças, os autores são predominantemente pessoas conhecidas da vítima, especialmente familiares.
Crimes contra crianças e adolescentes preocupam
O estudo identifica crescimento em praticamente todos os indicadores de violência contra crianças. Os maus-tratos cresceram 106,1% entre 2021 e 2025, as lesões corporais em ambiente doméstico aumentaram 5,5%, o abandono de incapaz cresceu 18,5%, a subtração de crianças aumentou 33,7%, o bullying cresceu 68,2% e o cyberbullying avançou 61,4%.
Outro dado preocupante é o aumento de 25,3% dos registros de produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil. Em 34,2% dos casos, havia adolescentes entre os autores.
Tráfico de drogas
Os registros de tráfico de drogas cresceram para 207.058 ocorrências, alta de 18,5%. Em sentido oposto, os registros de posse e uso caíram 18,3%, comportamento associado pelo Anuário aos efeitos da decisão do Supremo Tribunal Federal que descriminalizou o porte de maconha para consumo pessoal.
Sistema prisional
O Anuário relatou que o Brasil encerrou 2025 com 964.668 pessoas privadas de liberdade, acumulando déficit de 281.213 vagas. Houve 3.318 mortes em unidades prisionais, e apenas 21,6% dos presos estavam exercendo atividade laboral.
A população carcerária segue majoritariamente formada por homens (94%) e pessoas negras (69,6%).
Redução consistente da violência letal
O Anuário conclui que o Brasil vive um cenário de redução consistente da violência letal, com a menor taxa de homicídios desde 2012, resultado atribuído à combinação de fatores demográficos, políticas estaduais e mudanças nas dinâmicas do crime organizado.
No entanto, o relatório alerta que essa melhora convive com desafios estruturais: aumento da letalidade policial, persistência da desigualdade racial nas mortes violentas, fortalecimento dos estelionatos como principal crime patrimonial, crescimento da violência doméstica e dos crimes contra crianças e adolescentes, além da superlotação do sistema prisional e da necessidade de maior coordenação federativa no financiamento da segurança pública.
Esses fatores indicam que a redução dos homicídios, embora relevante, não significa uma diminuição generalizada da violência no país.
Com informações do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
@forumseguranca