Em 12 anos, elétricos e híbridos serão maioria nas frotas de aplicativos
Brasil vira principal mercado dos carros chineses e os elétricos e híbridos respondem por 87% do valor importado
8 AGO 2026 - 10H08 • Por Wilson LopesO avanço dos veículos elétricos e híbridos está redesenhando o mercado automotivo brasileiro e abrindo espaço para uma expansão sem precedentes das fabricantes chinesas. Entre janeiro e maio, o Brasil tornou-se o maior comprador mundial de veículos produzidos na China, com US$ 5,2 bilhões em importações, crescimento de 146,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O movimento ocorre simultaneamente à rápida eletrificação da frota nacional e já alcança segmentos de uso intensivo dos automóveis, como o transporte de passageiros por aplicativos.
Dos US$ 5,2 bilhões em veículos chineses adquiridos pelo Brasil no período, US$ 4,5 bilhões correspondem a modelos eletrificados. Isso significa que aproximadamente 87% do valor importado esteve associado a elétricos e híbridos.
A mudança foi acelerada: a participação dos eletrificados nas compras brasileiras de automóveis chineses, que era de 33% em 2021, chegou a 87% em 2025. O desempenho evidencia a vantagem conquistada pela indústria chinesa em áreas estratégicas da nova geração automotiva, especialmente baterias, tecnologia, capacidade produtiva e custos.
A transformação também já aparece nas vendas internas. No acumulado do ano, os veículos eletrificados chegaram a 167.444 unidades comercializadas no Brasil, equivalentes a 15,2% das vendas de veículos leves. O percentual mostra que elétricos e híbridos começam a ocupar uma parcela relevante de um mercado historicamente estruturado em torno dos motores a combustão.
Um dos sinais mais expressivos dessa mudança aparece entre os veículos utilizados para transporte por aplicativo. Estudo realizado pela Machine com informações operacionais de aproximadamente 250 mil veículos que integraram frotas de aplicativos regionais entre 2024 e março de 2026 conclui que a eletrificação já começou e deverá se consolidar durante a próxima década. A projeção indica que carros híbridos e elétricos poderão representar a maioria das frotas de mobilidade por aplicativo no Brasil até 2038.
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A pesquisa analisou 220 modelos diferentes. Quando também é considerado o ano de fabricação, a amostra chega a 1.150 combinações de modelo e ano. Para assegurar comparabilidade, o levantamento considerou veículos com até dez anos de fabricação e utilizou, nas comparações entre 2024, 2025 e 2026, períodos equivalentes de janeiro a março.
Os números mostram uma aceleração particularmente forte. Entre janeiro e março de 2024, a base analisada reunia 45.589 veículos ativos, dos quais 937 eram eletrificados, participação de 2,1%. No mesmo período de 2025, a frota analisada aumentou para 53.049 automóveis e o número de híbridos e elétricos praticamente dobrou, chegando a 1.792, ou 3,4% do total. Já nos três primeiros meses de 2026, foram identificados 3.270 eletrificados entre 53.721 veículos ativos, elevando a participação para 6,1%. Os dados constam da tabela de resultados apresentada na página 7 do relatório.
Em apenas dois anos, portanto, a participação dos eletrificados nas frotas pesquisadas passou de 2,1% para 6,1%, praticamente triplicando. Em números absolutos, o contingente aumentou de 937 para 3.270 veículos, avanço de aproximadamente 249%.
A velocidade da mudança é ainda maior quando são observados somente os automóveis que estão entrando nas plataformas. Em 2025, dos 12.338 novos veículos incorporados à frota analisada, 7% eram eletrificados. Nos primeiros três meses de 2026, foram identificados 7.077 novos veículos e a participação de híbridos e elétricos alcançou 21,3%. Ou seja, mais de um em cada cinco automóveis recém-incorporados às operações pesquisadas já utilizava algum tipo de motorização eletrificada.
Renovação da frota pode levar aproximadamente dez anos
O crescimento dos eletrificados entre os novos veículos é fundamental para entender a projeção de longo prazo. Segundo o estudo, a renovação da frota pode levar aproximadamente dez anos. Por isso, existe uma diferença entre o momento em que híbridos e elétricos deverão se tornar maioria entre os veículos que entram nas plataformas e aquele em que superarão os automóveis a combustão no conjunto da frota. A estimativa é que os eletrificados passem a dominar as novas incorporações por volta de 2031; posteriormente, com a substituição gradual dos veículos antigos, deverão ultrapassar 50% da frota total até 2038.
A projeção foi construída combinando três fatores: a participação atual dos eletrificados, a evolução observada entre os novos veículos incorporados às operações e o ciclo médio de renovação da frota, estimado em cerca de uma década. O modelo busca, assim, distinguir o ritmo de mudança das novas aquisições daquele observado no estoque total de automóveis em circulação.
Para Júlia Camossa, estatística responsável pela plataforma, a mudança não se limita à substituição da tecnologia dos automóveis.
“A aceleração da eletrificação exige que aplicativos e motoristas se adaptem não apenas à tecnologia, mas também a novos modelos de operação e custos, que envolvem manutenção, recarga e gestão de frota. A transformação, portanto, envolve tanto a oferta de veículos quanto a adaptação da operação e do mercado de trabalho associado”, afirma.
A ascensão dos eletrificados ocorre paralelamente ao fortalecimento das montadoras chinesas. Entre os modelos 100% elétricos, a BYD lidera, com o Dolphin Mini como o elétrico mais vendido em maio, seguido pelo Dolphin e pelo Geely EX2. O desempenho ilustra uma estratégia baseada em escala de produção, preços competitivos, domínio tecnológico e ampliação da variedade de modelos oferecidos ao consumidor brasileiro.
Parte da recente expansão das importações foi estimulada pela antecipação de compras diante do aumento das tarifas brasileiras aplicadas aos veículos eletrificados. A estratégia chinesa, porém, começa a ultrapassar a simples exportação. Pelo menos oito marcas chinesas, segundo o texto fornecido, anunciaram planos para produzir veículos no Brasil, seja por meio de unidades próprias, seja em parceria com empresas que já possuem estrutura industrial no país.
Transformações tecnológica, industrial e geoeconômica
A principal conclusão dos dados é que duas transformações estão ocorrendo simultaneamente no Brasil. A primeira é tecnológica: elétricos e híbridos ganham participação rapidamente, sobretudo entre os veículos novos. A segunda é industrial e geoeconômica: a China utiliza sua liderança na cadeia de eletrificação para conquistar participação em um mercado brasileiro tradicionalmente dominado por fabricantes europeus, americanos e japoneses.
No segmento de aplicativos, o salto de 2,1% para 6,1% da frota eletrificada em dois anos e, principalmente, a chegada dos eletrificados a 21,3% dos novos veículos em 2026 sugerem que a transformação pode ganhar escala conforme a frota for renovada. O próprio estudo ressalta, entretanto, que seus resultados refletem exclusivamente os aplicativos parceiros que utilizam a tecnologia da Machine, com operações em diferentes regiões brasileiras, não devendo ser interpretados como um retrato estatístico de toda a frota de aplicativos existente no país.
Nesse cenário, a disputa da indústria automobilística brasileira deixa de ser definida apenas por tradição de marca, rede de concessionárias ou capacidade industrial instalada. Tecnologia de baterias, preço, autonomia, infraestrutura de recarga, custos de operação e capacidade de produzir localmente passam a determinar a competitividade. Mais do que medir quantos carros chineses o Brasil importará nos próximos anos, os números indicam que a questão central será o espaço que essas fabricantes ocuparão na estrutura industrial e na próxima geração da mobilidade brasileira.
Com informações da Machine.
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