Indicadores de desigualdade melhoram, mas concentração de renda aumenta no Brasil
País alcança avanços importantes em áreas sociais, econômicas e ambientais em 2025, mas continua convivendo com profundas desigualdades de renda, raça, gênero e território
13 AGO 2026 - 10H35 • Por Wilson LopesO Brasil apresentou avanços importantes em áreas sociais, econômicas e ambientais em 2025, mas continua convivendo com profundas desigualdades de renda, raça, gênero e território. Essa é a principal conclusão do Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026, elaborado pelo DIEESE no âmbito do Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades, que reúne indicadores de renda, trabalho, segurança alimentar, educação, saúde, meio ambiente, acesso a serviços básicos, representação política e segurança pública.
Dos indicadores que puderam ser atualizados, 71% apresentaram melhora, enquanto 16% pioraram e 13% permaneceram praticamente estáveis.
O mercado de trabalho está entre os principais avanços. A taxa de desocupação caiu para 5,6% em 2025, ante 6,6% em 2024, enquanto o rendimento médio real aumentou 5,3%, chegando a R$ 3.376. A melhora, porém, não foi distribuída de maneira uniforme. O rendimento médio das mulheres cresceu 4,8%, contra 5,8% entre os homens, e as mulheres passaram a receber, em média, 72,2% do rendimento masculino. O quadro é ainda mais desigual quando raça e gênero são combinados: mulheres negras tiveram rendimento médio de R$ 2.184, enquanto homens não negros alcançaram R$ 5.172. Em 2025, as mulheres negras recebiam apenas 42% do rendimento dos homens não negros, percentual inferior aos 43,5% registrados em 2024.
A concentração de renda é apontada como um dos principais retrocessos. O rendimento médio do 1% mais rico da população passou a ser 31,5 vezes maior que o dos 50% mais pobres, contra uma diferença de 30,2 vezes em 2024. Em números absolutos, aproximadamente 2,1 milhões de pessoas no topo da distribuição concentram renda muito superior à de cerca de 106,4 milhões de brasileiros que compõem a metade mais pobre. A maior desigualdade aparece no Sudeste, onde a renda do 1% mais rico é 30,3 vezes superior à dos 50% mais pobres; a menor razão está no Sul, com 21,8 vezes. O relatório também aponta que a tributação da renda continua regressiva: acima da faixa de 15 a 20 salários mínimos, contribuintes com rendimentos maiores passam a pagar proporcionalmente menos imposto.
A pobreza monetária também recuou. Em 2025, cerca de 16,8 milhões de pessoas viviam em domicílios com renda familiar per capita de até um quarto do salário mínimo. Desse total, 12,3 milhões eram pessoas negras, incluindo 6,7 milhões de mulheres negras. Na faixa de até meio salário mínimo per capita, a proporção nacional caiu de 25,4% para 24,7%. O Nordeste, entretanto, permaneceu como a região com maior parcela da população nessa condição, com 41,7%, seguido pelo Norte, com 37,5%, e pelo Centro-Oeste, com 17%.
Na segurança alimentar, o país também apresentou melhora expressiva. A proporção da população vivendo em domicílios com insegurança alimentar moderada ou grave caiu de 9,5% em 2023 para 7,7% em 2024. Apesar do avanço, a desigualdade territorial permanece acentuada: no Norte, 14,9% da população estava nessa situação, quase quatro vezes o percentual do Sul, de 3,7%. A desigualdade racial também é evidente: 9,9% da população negra enfrentava insegurança alimentar moderada ou grave, contra 4,6% da população não negra. Entre as mulheres negras, o índice chegou a 10%, mais que o dobro dos 4,6% entre mulheres não negras.
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A desnutrição infantil caiu de 3,6% para 3,4% entre 2024 e 2025, mas os recortes raciais revelam diferenças expressivas. O problema atingia 7,3% das crianças indígenas, contra 4% das crianças negras e 3,3% das não negras. Regionalmente, o Norte continuou com o pior resultado, com 4,1% das crianças desnutridas; entre indígenas da região, a proporção chegou a 9%. O Nordeste, apesar de ainda apresentar índices elevados, reduziu a taxa de 4,7% em 2022 para 3,5% em 2025.
Na educação, o analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais caiu de 5,3% para 4,9% entre 2024 e 2025. A desigualdade territorial, contudo, continua enorme: o Nordeste registrou 10,6%, mais de quatro vezes os índices do Sudeste, de 2,3%, e do Sul, de 2,4%. O relatório também aponta avanços na frequência em creches e na escolarização do ensino médio e superior, mas destaca que diferenças raciais, econômicas e territoriais continuam influenciando o acesso, a permanência e a conclusão dos estudos.
Na saúde, persistem diferenças importantes entre regiões e grupos raciais. A mortalidade infantil em 2024 foi menor no Sul, com 10,4 mortes por mil nascidos vivos, e no Sudeste, com 11,7. Entre os estados, os menores índices foram registrados no Rio Grande do Sul, com 10,2, Santa Catarina, 10,4, Distrito Federal, 10,5, e Paraná, 10,7. Já Norte e Nordeste apresentam maiores níveis de mortalidade jovem. Em 2024, a mortalidade entre pessoas negras de 25 a 44 anos chegou a 12,2%, o dobro dos 6% registrados entre não negros.
No meio ambiente, o relatório identifica um dos avanços mais expressivos. A área desmatada no Brasil caiu para 984,8 mil hectares em 2025, redução de 20,6% em relação a 2024 e de 53,4% frente ao pico recente de 2,1 milhões de hectares registrado em 2022. Entre os estados, os maiores recuos foram observados no Amapá (-77,4%), Espírito Santo (-71%), Paraná (-70,8%), São Paulo (-70,7%), Santa Catarina (-67,7%) e Rondônia (-63,4%). Em sentido contrário, Minas Gerais teve aumento de 23,7% em relação a 2023. No acumulado de 2019 a 2025, aproximadamente 10,9 milhões de hectares foram desmatados no país.
As emissões de gases de efeito estufa associadas às mudanças no uso da terra e das florestas também caíram 32,5% entre 2023 e 2024. O relatório, entretanto, alerta que a redução do desmatamento não significa que o problema climático esteja resolvido. Amazônia e Cerrado continuam entre os biomas mais pressionados, enquanto o Nordeste é proporcionalmente a região mais afetada pelo desmatamento. O estudo ressalta ainda que 99,9% das áreas desmatadas na última década foram posteriormente destinadas à agropecuária, principalmente à formação de pastagens.
Na outra ponta da agenda climática, aumentou o número de brasileiros expostos a áreas de risco geológico. Em 2026, cerca de 4,7 milhões de pessoas viviam em áreas sujeitas a deslizamentos e outras tragédias associadas ao risco geológico, aumento de 7,2%. Segundo o relatório, apenas quatro projetos de adaptação foram financiados pelo Fundo Clima em 2025, evidenciando uma diferença entre as políticas de mitigação — como o combate ao desmatamento — e as ações necessárias para proteger a população já exposta aos efeitos das mudanças climáticas.
Na infraestrutura urbana, as desigualdades regionais permanecem visíveis. Norte e Nordeste continuam apresentando as menores coberturas de abastecimento de água pela rede geral, com 65,4% e 84,4%, respectivamente. Entre 2023 e 2025, Alagoas teve redução da cobertura de 79,2% para 76,4%, Rondônia caiu de 57,5% para 54,8% e Pernambuco passou de 81,5% para 79,2%. Ao mesmo tempo, houve ampliação nacional da coleta de lixo e do acesso a serviços básicos.
Na segurança pública, a taxa de homicídios registrados entre jovens de 15 a 29 anos caiu de 49,7 para 41,9 mortes por 100 mil habitantes entre 2021 e 2024, redução de aproximadamente 15,7%. O quadro, entretanto, permanece desigual. Na Amazônia Legal, a taxa de mortes violentas intencionais chegou a 27,3 por 100 mil habitantes em 2024, 31% acima da registrada no restante do país. No caso das mortes decorrentes de intervenção policial, a taxa nacional voltou a crescer em 2025, chegando a 3,1 por 100 mil habitantes. Amapá, com 17,1, e Bahia, com 10,6, apresentaram as maiores taxas, enquanto Norte e Nordeste concentraram os indicadores mais elevados.
A representação política revela outra face das desigualdades. Nas eleições municipais de 2024, pessoas negras ocuparam 45,8% das cadeiras de vereadores, mas apenas 33,5% dos cargos de prefeito. A situação é ainda mais desigual no Sul, onde somente 5,9% dos cargos executivos municipais foram ocupados por pessoas negras. Entre as mulheres, apenas 13,2% dos prefeitos eleitos eram mulheres, com o Sudeste apresentando a menor representação feminina nos executivos municipais. No Legislativo Federal, pessoas negras ocupam 26,3% das cadeiras da Câmara e 22,2% do Senado, enquanto as mulheres representam 17,7% e 14,8%, respectivamente.
No Judiciário, a sub-representação racial é ainda mais acentuada. Pessoas negras, embora representem mais da metade da população brasileira, ocupavam apenas 14,3% das vagas nos tribunais em 2025. Nos Tribunais de Justiça estaduais, o pior resultado foi registrado em São Paulo, onde pessoas negras representam 42,5% da população, mas ocupam somente 4,4% das vagas do tribunal. O Mato Grosso do Sul tinha 56,1% de população negra e apenas 6,2% de magistrados negros, enquanto no Rio de Janeiro eram 55,3% da população e 6,3% das vagas. Goiás também aparece na comparação dos estados, com índice de representação negra no Judiciário estadual de 0,20 em 2025.
A participação feminina na magistratura chegou a 40,2% em 2025, com a Justiça do Trabalho atingindo 50,1%. Entre os Tribunais de Justiça estaduais, o Piauí apresentou a menor participação feminina, com 26,5%, seguido por Roraima, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Alagoas. O Rio de Janeiro teve o maior percentual, com 49%, seguido por Rio Grande do Sul, com 46,3%, e Bahia, com 45,1%. Nenhum estado, porém, alcançou 50% de mulheres nos tribunais estaduais.
O relatório também mostra que o Brasil avançou em desenvolvimento humano. O IDHM chegou a 0,805 em 2024, colocando o país, pela primeira vez, na faixa de muito alto desenvolvimento humano. Porém, quando o índice é ajustado pelas desigualdades internas, o resultado cai para 0,641. A chamada perda de desenvolvimento provocada pela desigualdade diminuiu de 23,9% em 2012 para 20,4% em 2024, mas continua elevada. O IDHM ajustado à desigualdade passou de 0,566 para 0,641 no período, mostrando progresso, mas também a persistência de diferenças profundas entre grupos sociais.
Em termos territoriais, o estudo não apresenta um ranking geral de cidades brasileiras nem uma classificação internacional de países. A maior parte das comparações é feita entre Brasil, grandes regiões, Unidades da Federação e grupos sociais, embora alguns municípios e territórios específicos sejam citados em análises temáticas, como os municípios que abrigam a Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, onde o número de assassinatos passou de 13 para 46 entre 2022 e 2024. No cenário internacional, o relatório utiliza principalmente o contexto do desenvolvimento humano global e destaca que o IDH é calculado pelo PNUD para 193 países, mas o foco da pesquisa é a desigualdade dentro do Brasil.
O diagnóstico final do Observatório é, portanto, de avanço social acompanhado de desigualdade persistente. O Brasil conseguiu melhorar emprego, renda média, pobreza, segurança alimentar, educação, saúde, desmatamento, emissões e alguns indicadores de segurança pública, mas os ganhos ainda não foram suficientes para alterar estruturas históricas de concentração de renda e poder. Mulheres, população negra, povos indígenas e moradores das regiões Norte e Nordeste continuam enfrentando desvantagens desproporcionais em diversos indicadores. Para os pesquisadores, a prioridade passa por aprofundar políticas de redistribuição de renda, ampliar direitos e serviços públicos de qualidade, reduzir desigualdades territoriais e combinar crescimento econômico com políticas específicas de igualdade de gênero, raça e oportunidades.
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