Logo Agência Cidades

Riscos e desastres

Método de mapeamento de riscos usado em 1.803 municípios é atualizado

Novo manual muda forma de mapear áreas de riscos geológicos e hidrológicos e amplia participação das comunidades

21 AGO 2026 - 15H23 • Por Wilson Lopes
A atualização ocorre após o SGB ter realizado estudos de áreas de risco em 1.803 municípios até fevereiro de 2026, nos quais foram identificadas mais de 17,7 mil áreas de risco, onde estão 4,6 milhões de pessoas expostas - Secom/Maceió (AL)
O novo livro amplia o escopo para inundações, enxurradas, erosões, deslizamentos, quedas de blocos, corridas de detritos, subsidências e colapsos

O Ministério das Cidades publicou em 2026 uma nova metodologia para identificação e avaliação de riscos geológicos e hidrológicos, substituindo a abordagem consolidada na publicação de 2007. O novo livro amplia o escopo para inundações, enxurradas, erosões, deslizamentos, quedas de blocos, corridas de detritos, subsidências e colapsos e estabelece que mapas destinados a orientar intervenções em áreas ocupadas devem trabalhar, em regra, em escala de detalhe entre 1:2.000 e 1:5.000, com vistoria de campo. 

A atualização ocorre após o Serviço Geológico do Brasil ter realizado estudos de áreas de risco em 1.803 municípios até fevereiro de 2026, nos quais foram identificadas mais de 17,7 mil áreas de risco, onde estão 4,6 milhões de pessoas expostas.

A publicação, intitulada Mapeamento de Riscos: conceitos e métodos aplicados a processos geológicos e hidrológicos, é uma primeira edição de 2026, com ISBN próprio, e foi coordenada por Leonardo Andrade de Souza e Rodolfo Baêsso Moura, com participação de pesquisadores, técnicos, universidades, Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e Serviço Geológico do Brasil (SGB). 

O problema identificado na metodologia anterior

A principal mudança não é apenas tecnológica. O próprio documento reconhece que a aplicação da metodologia de 2007 revelou um problema de escala.

Segundo o prefácio, mapas produzidos para planejamento territorial chegaram a ser utilizados para definir intervenções físicas que exigiriam um nível de detalhamento muito maior, incluindo análises próximas à escala de cada imóvel. O texto também registra situações em que áreas classificadas como de risco alto ou muito alto foram associadas diretamente à remoção de moradores, sem investigação detalhada ou avaliação de alternativas de intervenção. 

A nova orientação tenta separar essas etapas: um mapa de planejamento não deve ser automaticamente tratado como diagnóstico suficiente para decidir sobre uma obra, interdição ou remoção.

>>Siga a Agência Cidades no Instagram
>>Siga a Agência Cidades no Facebook

Mais tecnologia, mas sem abandonar o trabalho de campo

O manual incorpora recursos que se disseminaram desde a publicação de 2007, como veículos aéreos não tripulados (drones), imagens de maior resolução, georreferenciamento e modelos computacionais. O documento também relaciona a atualização à maior frequência e magnitude de eventos extremos observados nos últimos anos. 

Mas a tecnologia não substitui a vistoria presencial

Para mapeamentos de detalhe em áreas ocupadas, o livro estabelece a faixa de escala 1:2.000 a 1:5.000 e determina a realização de visitas técnicas. A publicação considera a vistoria indispensável para verificar diretamente as condições de risco e o estágio de evolução dos processos. 

Risco deixa de ser tratado apenas como fenômeno natural

Outro ponto central é a mudança conceitual. O livro adota a relação:

Risco = Ameaça × Exposição × Vulnerabilidade

Em termos simples, não basta saber se uma encosta pode deslizar ou se determinada região pode ser inundada. É necessário verificar o que está exposto ao fenômeno e quão vulnerável é essa população, edificação ou infraestrutura. O documento também apresenta outra formulação operacional: Risco = Perigo × Consequência

Essa abordagem desloca parte da análise do fenômeno físico para o território ocupado. O manual afirma que a vulnerabilidade não pode ser dissociada da forma como as cidades foram ocupadas. Por isso, incorpora aspectos sociais, planejamento urbano, políticas públicas e participação das comunidades ao diagnóstico. 

O livro apresenta exemplos de diferentes regiões brasileiras, incluindo Muriaé (MG), Buriticupu (MA), Icapuí e Caucaia (CE), Belém e Abaetetuba (PA), Manacapuru (AM), Petrópolis (RJ), Maceió (AL), Ouro Preto (MG), Vitória (ES) e municípios do Espírito Santo, São Paulo e Goiás (Rovena Rosa/ABr)

Quatro grandes grupos de risco

A publicação está organizada em quatro capítulos técnicos:

A amplitude é relevante porque o risco não está restrito às tradicionais áreas de encosta. O livro apresenta exemplos de diferentes regiões brasileiras, incluindo Muriaé (MG), Buriticupu (MA), Icapuí e Caucaia (CE), Belém e Abaetetuba (PA), Manacapuru (AM), Petrópolis (RJ), Maceió (AL), Ouro Preto (MG), Vitória (ES) e municípios do Espírito Santo, São Paulo e Goiás, entre outros. 

Inundações passam a ser analisadas também por modelos

Para inundações, a metodologia prevê o uso de modelos hidrológicos, hidráulicos e hidrodinâmicos. Eles permitem estimar, por exemplo, vazão, profundidade e velocidade da água em diferentes cenários.

O manual, entretanto, ressalta que a confiabilidade do resultado depende diretamente da qualidade dos dados de entrada — como séries de chuva, características do relevo, rugosidade do terreno, condições de contorno e representação da ocupação urbana. A simulação também precisa ser confrontada com situações reais observadas no território. 

Isso cria uma das principais limitações práticas apontadas pela própria publicação: modelos mais sofisticados exigem dados mais completos e confiáveis.

Participação dos moradores ganha peso

A metodologia também incorpora o chamado mapeamento participativo. Na prática, moradores ajudam a identificar pontos de inundação recorrente, mudanças no território, áreas vulneráveis e outros sinais que podem não aparecer em bases cartográficas.

O livro apresenta exemplos de cartografia social e de diálogo entre equipes técnicas e comunidades. A proposta é combinar o conhecimento científico com a experiência de quem vive no território. 

A participação comunitária aparece ainda vinculada aos Planos Comunitários de Redução de Riscos e Adaptação Climática (PCRA), enquanto os Planos Municipais de Redução de Riscos (PMRR) são apontados como instrumentos de planejamento de médio e longo prazo. 

Um manual técnico, não um novo mapa nacional de áreas de risco

Um ponto que merece atenção jornalística é que a publicação não constitui um levantamento estatístico nacional de todas as pessoas ou imóveis atualmente expostos a riscos.

Trata-se de um manual metodológico. Ele estabelece conceitos, critérios, procedimentos, escalas e exemplos para que governos e equipes técnicas produzam diagnósticos.

O número de quase 2 mil municípios aparece como histórico de atuação do Serviço Geológico do Brasil com a metodologia anterior, e não como quantidade de municípios que já receberam o novo mapeamento de 2026. 

Essa diferença é fundamental: a atualização do método não significa que quase 2 mil municípios já estejam mapeados segundo os novos critérios.

A versão de 2026 tenta corrigir problemas identificados na aplicação prática, incorporar novas tecnologias e adaptar a avaliação ao cenário de eventos extremos mais frequentes e à realidade das periferias urbanas (Tânia Rêgo/ABr)

A principal lacuna: transformar método em cobertura efetiva

O documento é detalhado na definição dos procedimentos técnicos, mas a sua leitura também evidencia um desafio de implementação.

O método exige dados, equipes especializadas, imagens adequadas, modelos quando necessários e, principalmente, trabalho de campo. O próprio livro reconhece que abordagens quantitativas podem ser limitadas em regiões onde faltam informações ou onde levantamentos detalhados são caros e demorados. 

Isso significa que a atualização metodológica, por si só, não resolve o déficit de capacidade técnica e de informação existente em parte dos municípios brasileiros.

O documento também não apresenta, como objetivo central, um cronograma nacional de implantação da nova metodologia nem um balanço consolidado de quantos municípios possuem hoje mapeamentos compatíveis com os padrões de detalhe propostos. Essa é uma informação relevante para medir o alcance concreto da política pública.

Mudança de paradigma

A publicação representa, portanto, mais do que uma atualização de procedimentos cartográficos. A metodologia de 2007 foi aplicada durante quase duas décadas e ajudou a estruturar a gestão de riscos no país. A versão de 2026 mantém parte desse legado, mas tenta corrigir problemas identificados na aplicação prática, incorporar novas tecnologias e adaptar a avaliação ao cenário de eventos extremos mais frequentes e à realidade das periferias urbanas.

O eixo central passa a ser a combinação entre precisão técnica, escala adequada, análise da vulnerabilidade, participação comunitária e planejamento territorial.

Em vez de considerar o risco apenas como consequência de um fenômeno natural, o manual propõe identificar como o fenômeno interage com a ocupação do território — e, principalmente, como esse conhecimento pode orientar prevenção, obras, planejamento urbano e proteção da população.

Com informações do Ministério das Cidades.
@ministeriocidades @sgbgovbr @ipt_oficial @governo_es @governogoias @governosp @prefeiturademuriae @prefeituraburiticupu @prefeituradeicapuice @prefeituradecaucaia @prefeiturabelem @prefeituradeabaetetuba @prefeituradempu @petropolis_pmp @prefeiturademaceio @prefeituraouropreto @vitoriaonline @defesacivil.es @defesacivil_petropolis @prefeiturademaceio

Acesse o “Mapeamento de riscos: conceitos e métodos aplicados a processos geológicos e hidrológicos”