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7.200 petaflops

Macaíba (RN) abrigará um dos 10 supercomputadores mais potentes do planeta

Infraestrutura será 266,7 vezes mais potente do que a atual máquina mais robusta do país e deverá ser utilizada para processamento de inteligência artificial e ampliar o espaço para pesquisa, inovação, serviços e negócios digitais

23 AGO 2026 - 10H19 • Por Wilson Lopes
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que reúne ações para ampliar a infraestrutura tecnológica do país, a formação de profissionais, a transferência de tecnologia e fortalecer governança e a soberania digital - PBIA

O Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Macaíba, na região metropolitana de Natal, foi escolhido para abrigar o novo supercomputador de inteligência artificial (IA) que será adquirido pelo governo federal ao custo de pouco mais de R$ 1 bilhão.

O governo federal anunciou a abertura de uma concorrência pública para a aquisição do supercomputador. Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o edital será publicado no Diário Oficial da União (DOU). Os recursos são oriundos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

A infraestrutura deverá alcançar 7.200 petaflops, cerca de 7,2 quintilhões de operações matemáticas por segundo. Petaflop é uma unidade usada para medir a capacidade de processamento de supercomputadores. Um petaflop corresponde a 1 quatrilhão de operações matemáticas por segundo.

Assim, uma máquina de 7.200 petaflops pode realizar, em teoria, até 7,2 quintilhões de operações de ponto flutuante por segundo. Para se ter uma ideia, a atual máquina mais potente do país é o supercomputador Santos Dumont, instalado no estado do Rio de Janeiro, que opera com 27 petaflops.

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O supercomputador Santos Dumont (SDumont) é o maior computador da América Latina e está localizado na sede do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em Petrópolis-RJ, atuando como nó central (Tier-0) do Sistema Nacional de Processamento de Alto Desempenho (SDumont)

A capacidade do novo equipamento será disponibilizada para empresas, universidades, instituições científicas e governos para treinamento de modelos, pesquisa e desenvolvimento de aplicações de IA. A execução será feita pelo Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC).

O objetivo é abrir espaço para pesquisa, inovação, novos produtos, serviços e negócios por meio da maior capacidade computacional disponível no Brasil.

“A gente vai reduzir nossa dependência. Sessenta por cento de tudo processado da inteligência brasileira é feito fora, e agora vamos poder processar aqui”, destacou a ministra Luciana Santos, do MCTI, ao acrescentar que o supercomputador estará entre os 10 mais potentes do planeta.

Segundo a ministra, o edital prevê contrapartidas relacionadas à transferência de tecnologia, capacitação, pesquisa e desenvolvimento, conteúdo local e participação de fornecedores brasileiros, com previsão de capacitar 5 mil brasileiros em cinco anos.

Conforme o TOP500 (de junho de 2026), ranking internacional de referência para supercomputadores, atualmente o LineShine, da China, com 2.198,4 PFLOPS no benchmark HPL, é o mais robusto do mundo. Caso os 7.200 petaflops da supermáquina de Macaíba se confirmem, ela será 3,28 vezes mais potente do que o LineShine chinês.

Conforme os números anunciados, o novo supercomputador de inteligência artificial será aproximadamente 266,7 vezes mais potente do que a atual máquina mais robusta do país

Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA)

A medida integra o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que reúne ações para ampliar a infraestrutura tecnológica do país, a formação de profissionais, a transferência de tecnologia e fortalecer a governança e a soberania digital.

O PBIA tem investimento previsto de R$ 23 bilhões em quatro anos. Também está entre os objetivos equipar o Brasil de infraestrutura tecnológica avançada, em diversas áreas (saúde, educação, comércio, meio ambiente, inovação, infraestrutura, etc.), com alta capacidade de processamento, desenvolvimento nacional de processadores de IA de alto desempenho, incluindo a atualização dos supercomputadores do Laboratório Nacional de Computação Científica, para torná-lo um dos cinco mais potentes do mundo, com alimentação por energias renováveis.

Chips de código aberto

Outra iniciativa é o desenvolvimento de chips com arquitetura aberta RISC-V, para reduzir a dependência de arquiteturas proprietárias. O esforço envolve uma parceria com cerca de 70 países e estimativa de 10 a 15 anos de desenvolvimento.

Segundo o MCTI, essa frente será conduzida pelo Instituto Eldorado, de Campinas (SP), em cooperação com o ecossistema de inovação de Barcelona, na Espanha, e busca ampliar o domínio brasileiro sobre tecnologias críticas para a computação de alto desempenho e a inteligência artificial.

Transferência tecnológica

Uma outra cooperação tecnológica também envolverá uma infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro, por meio da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), em parceria com as chinesas Huawei e Iflytek.

A iniciativa pretende ampliar a capacidade de processamento com transferência de tecnologia, parcerias de pesquisa e desenvolvimento, formação de profissionais e desenvolvimento de uma pilha de software soberana.

Também está previsto o desenvolvimento de um modelo de linguagem de grande escala (LLM) nacional e de modelos de inteligência artificial em português, permitindo criar soluções mais adequadas ao idioma, aos dados e às necessidades brasileiras. Neste caso, o investimento público é estimado em R$ 1,276 bilhão ao longo de cinco anos e o início das operações está previsto para julho de 2027.

Em julho, o governo brasileiro assinou o documento de criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (Waico), com sede em Xangai, na China. O objetivo da iniciativa é desenvolver uma governança global de IA por meio de modelos com código aberto, que permitem a apropriação da tecnologia por qualquer empresa ou organização.

Nuvem brasileira

O Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o Serpro e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também assinaram um acordo de cooperação para estruturação de um projeto para criar uma alternativa brasileira para armazenamento e processamento de dados e sistemas. A ideia é reduzir a dependência de grandes provedores estrangeiros na guarda de dados computacionais.

O Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Macaíba, foi escolhido para abrigar o novo supercomputador de inteligência artificial ( Sandro Menezes/Assecom-RN)

 Por que Macaíba? 

A escolha pelo Nordeste teve como fundamento o esforço de reduzir as desigualdades regionais no campo tecnológico e a abundância de energia renovável. O Rio Grande do Norte é líder na produção de energia eólica. Desta forma, a escolha de Macaíba não foi apenas política ou simbólica, pois houve uma combinação de critérios técnicos e estratégicos.

Macaíba, um município de porte médio no contexto potiguar, na Região Metropolitana de Natal, tem 82.249 habitantes, segundo o Censo 2022, distribuídos em uma área de 510,1 km², com densidade demográfica de 161,2 habitantes por km². O município apresenta 96,89% de escolarização entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos, enquanto o IDHM é de 0,640 (2010). Na economia, o PIB per capita alcançou R$ 29.857,38 em 2023; em 2023, a mortalidade infantil foi de 10,79 óbitos por mil nascidos vivos.

Energia elétrica — provavelmente o fator técnico mais importante

Um supercomputador desse porte consome uma quantidade extraordinária de energia. Antes da decisão, o próprio MCTI indicava que o local precisaria oferecer fornecimento elétrico robusto, além de água para o sistema de resfriamento. O Rio Grande do Norte apresentou como vantagem a grande disponibilidade de energia renovável, principalmente eólica, e a possibilidade de obter energia a custos competitivos.

O PAX já oferece um ambiente científico e tecnológico

O equipamento será instalado no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), ligado à UFRN. A universidade já possui estrutura de pesquisa e computação de alto desempenho e participou dos estudos e da proposta para receber o equipamento. Isso é importante porque o supercomputador não será simplesmente um "computador gigante": ele deverá atender universidades, pesquisadores, empresas, desenvolvimento de IA e projetos governamentais.

Macaíba permite descentralizar a infraestrutura de computação

Esse foi um dos argumentos explicitamente considerados pelo governo. Historicamente, a infraestrutura brasileira de supercomputação está fortemente concentrada no Sudeste — o Santos Dumont, por exemplo, está no LNCC, em Petrópolis (RJ). A decisão de colocar uma máquina dessa dimensão no Nordeste atende à estratégia do governo de descentralizar a capacidade computacional brasileira.

O RN apresentou uma proposta tecnicamente estruturada

Não foi uma candidatura improvisada. O governo do Rio Grande do Norte começou a trabalhar na proposta em janeiro de 2026 e, após estudos técnicos, definiu o PAX, em Macaíba, como local para instalação. A proposta considerava justamente aspectos como energia, conectividade e área física.

Localização próxima a Natal

Macaíba fica na Região Metropolitana de Natal, a aproximadamente 30 km da capital. Isso facilita o acesso à infraestrutura urbana, serviços, conectividade e mão de obra qualificada, sem exigir que o equipamento fique dentro de uma grande capital.

Há também uma questão estratégica

O governo não está pensando apenas na máquina. A ideia é criar no Nordeste um polo de computação avançada e inteligência artificial, conectado à UFRN, ao PAX e ao sistema nacional coordenado pelo LNCC. Isso pode gerar formação de profissionais especializados; atração de pesquisadores; startups de IA; projetos de universidades; desenvolvimento de aplicações para governo; pesquisa em clima, energia, saúde e agricultura; atração de empresas de tecnologia; expansão da infraestrutura digital no Nordeste.

Com informações de Pedro Rafael Vilela, Agência Brasil.
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