Renda média não compra moradia de 50 m² em quase metade das cidades europeias
Europa vê acesso à casa própria encolher e 44% da população urbana vive onde salário médio compra apenas imóveis de pequeno porte
12 SET 2026 - 15H32 • Por Wilson LopesUm salário médio já não é suficiente para garantir a compra de uma moradia de 50 metros quadrados em grande parte das cidades europeias. Estudo publicado na revista científica Journal of Maps mostra que 44% da população urbana da Europa vive em cidades onde a renda média permite adquirir menos de 50 m², considerando um financiamento imobiliário de 30 anos com comprometimento de até um terço da renda.
Em termos de mercado, um imóvel de 50 m² corresponde aproximadamente ao tamanho de um apartamento compacto de um quarto (T1), embora também possa ser configurado como um estúdio (T0), dependendo da planta e do país.
A pesquisa analisou cerca de 22 milhões de anúncios de imóveis em 31 países europeus e identificou as áreas metropolitanas de Paris, Berlim e Madri entre os principais focos de baixa acessibilidade habitacional.
O levantamento foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Técnica de Viena (TU Wien), na Áustria, com base em dados de venda e aluguel coletados entre março de 2024 e março de 2025. O objetivo foi calcular quantos metros quadrados uma pessoa com renda média regional consegue financiar ou alugar em diferentes municípios europeus, produzindo um mapa continental das desigualdades no acesso à moradia.
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Os resultados indicam que a restrição não está concentrada apenas nas capitais. Mais de 70% da população europeia vive em regiões onde um financiamento de 30 anos permite comprar, no máximo, 75 m², revelando que a dificuldade de acesso à casa própria se espalhou por boa parte do continente. Nas áreas urbanas mais densamente povoadas, a pressão é ainda maior devido à combinação entre preços elevados dos imóveis e rendimentos que crescem em ritmo inferior ao valor da habitação.
Outro dado de impacto envolve o mercado de aluguel. Segundo os pesquisadores, 39% dos europeus vivem em regiões onde nem mesmo uma moradia de 50 m² pode ser alugada, destinando até um terço da renda média ao pagamento mensal. O indicador utiliza o mesmo parâmetro de comprometimento financeiro empregado em estudos internacionais de acessibilidade habitacional, permitindo comparar compra e locação sob uma metodologia semelhante.
A pesquisa também evidencia diferenças geográficas importantes. As regiões metropolitanas próximas de Paris, na França; Berlim, na Alemanha; e Madri, na Espanha, aparecem entre os territórios onde o desequilíbrio entre renda e preço dos imóveis é mais acentuado. Além das grandes capitais, áreas costeiras e destinos turísticos apresentam níveis elevados de inacessibilidade, impulsionados por mercados imobiliários pressionados pela valorização dos imóveis e pela demanda residencial.
Embora o estudo tenha abrangência continental, os autores alertam para limitações metodológicas. A análise utiliza preços de anúncios imobiliários, e não valores efetivamente registrados nas transações de compra e venda, além de trabalhar com dados agregados ao nível municipal, o que pode ocultar diferenças significativas entre bairros de uma mesma cidade. O levantamento também não incorpora outras barreiras financeiras relevantes, como o valor da entrada exigida para aquisição de um imóvel, impostos ou custos adicionais da compra, fatores que podem tornar o acesso à moradia ainda mais difícil do que o estimado pelos mapas.
O principal paradoxo revelado pela pesquisa é que a crise habitacional não significa ausência de imóveis, mas redução da capacidade de compra e aluguel diante da renda média. Em outras palavras, o estudo mede a quantidade de espaço habitável que um trabalhador médio consegue acessar em cada território, mostrando que, em dezenas de cidades europeias, a renda disponível passou a garantir apenas apartamentos compactos ou imóveis ainda menores, mesmo em um horizonte de financiamento de três décadas.
Contexto das cidades e países
A pesquisa analisou 31 países europeus, reunindo informações imobiliárias e financeiras em escala municipal para comparar diferentes realidades nacionais. Os maiores problemas de acessibilidade concentram-se especialmente em áreas metropolitanas e regiões de elevada densidade populacional, onde a valorização imobiliária supera a capacidade de compra da renda média.
França, Alemanha e Espanha aparecem com destaque pelas situações observadas em Paris, Berlim e Madri, enquanto Portugal, Países Baixos e Suíça são citados em análises derivadas do estudo como mercados sistematicamente menos acessíveis para compradores de renda média.
O estudo Where Can You Still Afford to Live? – A Comparative Perspective on European Housing Affordability foi elaborado pelos pesquisadores Franziska Sielker e Selim Banabak, da Universidade Técnica de Viena (TU Wien), na Áustria, e publicado em setembro de 2026 no Journal of Maps.
Renda média europeia
O estudo não utiliza um valor único de “renda média europeia” para medir a capacidade de acesso à moradia. Os pesquisadores consideram a renda disponível per capita de cada região, ou seja, os recursos médios disponíveis para cada pessoa após impostos e transferências, e harmonizam os dados para 2024, combinando informações do Eurostat e, em alguns casos, da OCDE.
A partir dessa renda regional, o levantamento estima quanto uma pessoa poderia comprometer com a moradia — até um terço da renda — e compara esse valor com os preços dos imóveis em cada localidade. Por isso, os 44% não representam europeus que recebem abaixo de determinado salário, mas a parcela da população urbana que vive em regiões onde a renda média local, diante dos preços dos imóveis e das condições de financiamento consideradas, permite comprar menos de 50 metros quadrados.
Segundo o Eurostat, com dado mais recente disponível para a União Europeia de 2024, o salário médio anual bruto ajustado para trabalhadores em tempo integral foi de € 39.800 (R$ 236.300), equivalente a aproximadamente € 3.317 (R$ 19.700) brutos por mês em 12 parcelas. O valor cresceu 5,2% em relação a 2023, quando era de € 37.800.
Os maiores salários médios anuais ajustados estavam em Luxemburgo (€ 83 mil), Dinamarca (€ 71,6 mil) e Irlanda (€ 61,1 mil). Os menores foram registrados na Bulgária (€ 15,4 mil), Grécia (€ 18 mil) e Hungria (€ 18,5 mil).
Com informações do Journal of Maps.
@paris_maville, @visit_berlin e @madrid
Acesse o estudo Where can you still afford to live? – a comparative perspective on European housing affordability
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