Irlanda oferece até 84 mil para recuperar imóveis abandonados em ilhas
Política nacional busca reverter declínio populacional e fortalecer comunidades insulares, mas benefício não é pago simplesmente para quem decidir se mudar para o país
19 SET 2026 - 11H20 • Por Wilson LopesA Irlanda mantém uma política nacional de longo prazo para revitalizar suas comunidades insulares e combater o declínio populacional. O programa Our Living Islands – National Islands Policy 2023-2033 prevê investimentos em habitação, infraestrutura, conectividade, saúde, educação, trabalho remoto, turismo sustentável e desenvolvimento econômico.
Um dos principais instrumentos é o reforço do Vacant Property Refurbishment Grant, subsídio destinado à recuperação de imóveis vazios ou abandonados. Nas propriedades elegíveis localizadas nas ilhas, o limite chega a € 60 mil para imóveis vazios e € 84 mil (cerca de R$ 495,6 mil) para imóveis classificados como abandonados (derelict). O valor representa um acréscimo de 20% em relação aos limites aplicados no continente, de € 50 mil e € 70 mil, respectivamente.
Não é dinheiro para simplesmente se mudar
Apesar de ter sido apresentada internacionalmente como uma iniciativa para atrair moradores, a política irlandesa não oferece € 84 mil a qualquer pessoa que queira morar em uma ilha.
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O dinheiro é destinado à recuperação de uma propriedade que esteja dentro das regras do programa. O interessado precisa comprovar a propriedade do imóvel ou demonstrar negociações ativas para adquiri-lo. Pela regulamentação atual, o imóvel deve estar vazio há pelo menos dois anos e ter sido construído antes de 2008. O benefício pode ser utilizado para transformar o imóvel em residência permanente ou propriedade para locação.
Para imóveis classificados como abandonados, também é necessária documentação que comprove essa condição, como relatório estrutural independente ou registro oficial como propriedade abandonada.
O programa é administrado pelas autoridades locais, e os interessados devem apresentar a solicitação à autoridade correspondente ao local onde está situado o imóvel.
Uma política para manter as ilhas vivas
O Our Living Islands foi lançado em junho de 2023 e tem duração prevista de dez anos, até 2033. O primeiro plano de ação cobre o período de 2023 a 2026 e reúne 80 ações com prazos definidos, executadas por diferentes departamentos governamentais e órgãos públicos.
A estratégia possui cinco objetivos principais:
1. Revitalizar os níveis populacionais das ilhas;
2. Diversificar as economias insulares;
3. Melhorar os serviços de saúde e bem-estar;
4. Fortalecer as comunidades insulares;
5. Construir um futuro inteligente e sustentável.
O governo pretende utilizar a política para criar condições que permitam às pessoas não apenas morar, mas também trabalhar e desenvolver atividades econômicas nas próprias ilhas.
Cerca de 30 ilhas fazem parte da política
Segundo o governo irlandês, existem cerca de 30 ilhas costeiras que se enquadram no universo da política: são comunidades insulares com população permanente durante todo o ano, sem ligação com o continente por ponte ou estrada e que ficam separadas do continente diariamente pela maré.
A política não trata apenas de imóveis. Entre as medidas previstas estão melhorias em estradas, cais, abastecimento de água, internet de alta velocidade, educação, saúde, transporte, turismo, atividades recreativas e infraestrutura comunitária.
Também estão previstas iniciativas para ampliar o trabalho remoto, fortalecer centros digitais e facilitar o acesso dos moradores a cursos de educação e formação profissional.
Na área da saúde, o governo prevê o uso de E-Health Pods, estruturas destinadas a ampliar o acesso a consultas e serviços de saúde por meios digitais.
A política não ficou restrita ao anúncio de 2023
Em agosto de 2025, o governo anunciou € 35,75 milhões para a modernização do cais de Inis Oírr, a menor das três ilhas de Aran. O projeto inclui a extensão do cais e a construção de um quebra-mar para melhorar o acesso das balsas, aumentar a segurança e proteger o porto contra tempestades. As obras estavam previstas para começar na primavera de 2026.
Em 2026, o programa CLÁR também mantém uma medida específica para as comunidades das ilhas dentro do eixo Our Living Islands. Para esse componente, foram previstos recursos de até € 65 mil para instalações comunitárias e € 100 mil para veículos, com possibilidade de recursos adicionais para painéis solares ou pontos de recarga de veículos elétricos em determinadas situações.
Isso mostra que a estratégia irlandesa não se resume ao incentivo imobiliário: existe uma política pública mais ampla de infraestrutura e desenvolvimento das comunidades.
Irlanda já ultrapassa 5,5 milhões de habitantes
Segundo o Central Statistics Office (CSO), a população residente habitual da Irlanda chegou a 5.525.600 habitantes em abril de 2026, ultrapassando pela primeira vez a marca de 5,5 milhões. O número representa crescimento de 66.900 pessoas, ou 1,2%, em 12 meses.
O crescimento continua fortemente relacionado à migração. Entre abril de 2025 e abril de 2026, o país recebeu aproximadamente 110.600 imigrantes, enquanto 62.500 pessoas emigraram, produzindo um saldo migratório positivo de 48.100 pessoas.
Os dados mostram, portanto, que a Irlanda continua atraindo população de outros países, mas a política das ilhas tem um objetivo mais específico: fortalecer comunidades insulares que enfrentam desafios demográficos e de acesso a serviços, e não simplesmente aumentar a imigração para o país.
O desafio habitacional
A questão da habitação continua sendo um dos principais desafios da Irlanda. Em 2025, o preço residencial mediano de uma moradia adquirida no país chegou a € 381 mil, considerando os 12 meses até outubro. O valor representou aumento de 7,3% em um ano. Em Dublin, a mediana chegou a € 495 mil.
Nesse contexto, recuperar imóveis vazios ou abandonados pode representar uma alternativa para ampliar a oferta habitacional sem depender exclusivamente da construção de novas unidades.
O próprio governo irlandês afirma que a disponibilidade de moradias adequadas é fundamental para permitir que pessoas continuem vivendo e trabalhando nas comunidades rurais e insulares.
Educação entre os pontos fortes
A Irlanda também apresenta indicadores educacionais elevados. Segundo o Eurostat, 65,2% dos irlandeses entre 25 e 34 anos tinham concluído o ensino superior em 2024, o maior percentual entre os países da União Europeia naquele ano.
A alta qualificação da população ajuda a explicar a capacidade do país de atrair empresas de tecnologia, serviços especializados e investimentos internacionais.
A política das ilhas procura aproveitar esse cenário por meio da expansão da conectividade digital e do trabalho remoto, permitindo que profissionais tenham maior possibilidade de viver em comunidades insulares sem necessariamente depender de empregos localizados fisicamente no continente.
Uma economia pequena no território e grande na renda
Com aproximadamente 70 mil km², a Irlanda possui uma população relativamente pequena para os padrões europeus, mas tornou-se uma das economias mais internacionalizadas do mundo.
O país abriga operações de grandes empresas multinacionais, especialmente nos setores de tecnologia, farmacêutico, químico e de serviços. A presença dessas empresas contribuiu para elevar significativamente os indicadores de renda do país.
O PIB per capita irlandês é fortemente influenciado pela presença de multinacionais e por atividades de empresas que registram propriedade intelectual e lucros no país. Por isso, o indicador não deve ser interpretado isoladamente como uma medida direta do padrão de vida do cidadão irlandês. A própria OCDE utiliza, em suas análises, indicadores complementares para avaliar a economia e o bem-estar do país.
Imigração não é facilitada pelo programa
Outro ponto importante é que o Our Living Islands não criou uma categoria especial de imigração.
Uma pessoa de fora da União Europeia, do Espaço Econômico Europeu, do Reino Unido ou da Suíça que pretenda permanecer na Irlanda por mais de 90 dias precisa ter uma autorização de permanência compatível com sua situação e registrá-la junto ao Immigration Service Delivery.
As permissões dependem do motivo da permanência, como trabalho, estudo, reunião familiar ou outras categorias previstas na legislação migratória.
Portanto, comprar ou reformar uma casa em uma ilha não concede automaticamente direito de residência na Irlanda.
O objetivo é reverter o declínio das ilhas
A estratégia irlandesa parte de um diagnóstico específico: as comunidades insulares enfrentam dificuldades provocadas pelo isolamento geográfico, pela menor oferta de serviços, pelas limitações de transporte e pela necessidade de criar oportunidades de emprego e moradia.
Por isso, o governo pretende combinar habitação, infraestrutura, conectividade, serviços públicos e desenvolvimento econômico para tornar essas localidades mais atraentes para moradores atuais e novos residentes.
O objetivo declarado é fazer com que mais pessoas vivam e trabalhem nas ilhas, garantindo que elas continuem sendo comunidades permanentes e sustentáveis, e não apenas destinos turísticos.
A política, portanto, é menos uma iniciativa de “pagar para alguém morar em uma ilha” e mais uma estratégia de revitalização territorial, utilizando incentivos financeiros para recuperar imóveis e investimentos públicos para melhorar as condições de vida.
10 razões para entender a Irlanda
1 – População: 5,53 milhões de habitantes em abril de 2026. [CSO]
2 – Crescimento populacional: aumento de 66.900 habitantes em 12 meses até abril de 2026. [CSO]
3 – Migração: saldo migratório positivo de 48.100 pessoas no período de abril de 2025 a abril de 2026. [CSO]
4 – Educação: 65,2% dos jovens de 25 a 34 anos tinham ensino superior completo em 2024, maior índice da União Europeia. [European Commission]
5 – Habitação: preço mediano de uma residência chegou a € 381 mil em outubro de 2025. [CSO]
6 – Imóveis vazios: o programa nacional oferece até € 50 mil para recuperação de imóveis vazios e até € 70 mil para imóveis abandonados; nas ilhas, os limites sobem para € 60 mil e € 84 mil. [Governo da Irlanda]
7 – Política para as ilhas: o *Our Living Islands* é um programa nacional de dez anos, válido de 2023 a 2033. [Governo da Irlanda]
8 – Plano de ação: a primeira etapa da política reúne 80 ações para o período 2023–2026. [Governo da Irlanda]
9 – Infraestrutura: € 35,75 milhões foram destinados à modernização do cais de Inis Oírr, com obras previstas a partir de 2026. [Governo da Irlanda]
10 – Imigração: o incentivo imobiliário não concede automaticamente direito de residência; estrangeiros sujeitos às regras migratórias precisam obter a autorização correspondente para permanecer no país por mais de 90 dias. [Immigration Service Delivery]
Com informações do Government of Ireland.
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Fontes oficiais:
Acesse o Serviço de Imigração da Irlanda - Our Living Islands
Vacant Property Refurbishment Grant
Acesse o Our Living Islands National Islands Policy – 2023/2033