ONU aprova novo mapa-múndi e reforça imensidão da África e América do Sul
Resolução aprovada por 164 países recomenda nova projeção para reduzir distorções históricas da cartografia e aproxima decisão internacional de mapas produzidos pelo IBGE
7 SET 2026 - 11H58 • Por Wilson LopesA Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou (4/09/2026), por 164 votos a favor, um contra e seis abstenções, uma resolução que recomenda ampliar o uso de projeções cartográficas de áreas equivalentes, especialmente a Equal Earth, desenvolvida em 2018 por Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny, para representar de maneira mais proporcional o tamanho dos continentes.
A iniciativa, liderada pelo Togo em nome do grupo africano, busca reduzir distorções associadas à tradicional projeção de Mercator e tem relação direta com uma discussão que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já vinha promovendo por meio de mapas que colocam o Brasil no centro e o Hemisfério Sul no topo.
A decisão da ONU não proíbe a projeção de Mercator nem obriga países a abandonar imediatamente os mapas convencionais. Trata-se de uma resolução não vinculante que incentiva governos, instituições internacionais, escolas e empresas de tecnologia a utilizar representações de áreas equivalentes quando a comparação do tamanho dos territórios for relevante. A Mercator continua tendo aplicações específicas, sobretudo na navegação, para a qual suas características geométricas são úteis.
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O problema está no tamanho aparente dos territórios
Criada em 1569 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator, a projeção tradicional preserva determinadas relações de forma e direção importantes para a navegação, mas aumenta visualmente as áreas à medida que elas se afastam da linha do Equador.
O efeito é particularmente evidente em regiões do Norte Global. A Groenlândia, por exemplo, aparece em mapas de Mercator com dimensão visual próxima à da África. Na realidade, porém, a África possui cerca de 30,4 milhões de km², enquanto a Groenlândia tem aproximadamente 2,17 milhões de km². O continente africano é, portanto, cerca de 14 vezes maior.
A distorção também afeta a percepção da América do Sul, incluindo o Brasil, e de outras áreas próximas ao Equador. A Equal Earth procura corrigir justamente esse problema: preservar com maior fidelidade a relação entre as áreas dos continentes, embora, como qualquer projeção plana da Terra, também apresente compromissos e alguma distorção de formas.
Togo e África lideraram a mudança
A resolução denominada “Correct the Map” — “Corrigir o mapa” foi conduzida pelo Togo, país da África Ocidental, com apoio da União Africana. O argumento central dos proponentes é que mapas não são apenas instrumentos técnicos: eles também influenciam a forma como sociedades percebem território, importância e distribuição espacial de diferentes regiões do planeta.
O resultado da votação foi expressivo: 164 países apoiaram a resolução, enquanto apenas os Estados Unidos votaram contra. Seis países se abstiveram: Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia.
O posicionamento norte-americano representa o principal contraponto político à iniciativa. A representante dos EUA classificou a proposta como uma questão ideológica que desviaria a atenção de problemas considerados mais urgentes pela organização. Para os defensores da resolução, entretanto, a representação cartográfica tem efeitos educacionais, culturais, geopolíticos e socioeconômicos.
O Brasil já vinha experimentando outra forma de representar o planeta
É nesse ponto que a decisão da ONU encontra o trabalho recente do IBGE. Em 2025, o instituto lançou um mapa-múndi com o Brasil no centro e o Sul no topo, destacando países integrantes dos Brics, Mercosul, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). A iniciativa foi apresentada em um contexto de protagonismo brasileiro em fóruns internacionais e de realização da COP30 em Belém.
O próprio IBGE esclareceu que colocar o Norte embaixo e o Sul em cima não representa erro cartográfico. A orientação dos pontos cardeais em um mapa é uma convenção: não existe, no espaço, um “cima” ou “baixo” absoluto.
A loja oficial do instituto mantém o mapa-múndi invertido em formato A0, com **118,9 centímetros de largura por 84 centímetros de altura**, concebido como mapa temático relacionado ao Brasil e às redes de integração do Sul Global. A descrição do produto destaca Brics, Mercosul, CPLP e OTCA.
Há uma diferença importante entre os dois movimentos
Apesar da proximidade temática, ONU e IBGE não estão fazendo exatamente a mesma coisa. A decisão da ONU está concentrada principalmente na proporção das áreas territoriais. A Equal Earth é uma projeção de áreas equivalentes: seu objetivo é evitar que países e continentes sejam visualmente ampliados ou reduzidos em função da latitude.
O mapa invertido do IBGE acrescenta outra camada: a orientação espacial e a centralidade do Brasil. O instituto utiliza uma representação que coloca o Sul na parte superior e o Brasil em posição central, uma escolha com finalidade também pedagógica e geopolítica. A Agência Brasil registrou que a iniciativa busca mostrar que a tradicional orientação Norte-Sul não é a única possível.
Em outras palavras, a ONU questiona principalmente a distorção das áreas; o IBGE questiona também a forma convencional de organizar visualmente o mundo.
Um novo olhar sobre o Sul Global
A mudança ganha relevância porque África, América Latina e Sul da Ásia concentram grande parte das populações e territórios visualmente reduzidos nas representações baseadas em Mercator.
No caso brasileiro, o efeito é particularmente significativo. O país é uma das maiores extensões territoriais do planeta e está predominantemente em latitudes próximas ao Equador. Por isso, sua dimensão visual é relativamente reduzida em comparação com países localizados em latitudes elevadas quando se utiliza Mercator.
A adoção mais ampla de projeções de áreas equivalentes pode alterar a maneira como mapas são apresentados em livros didáticos, materiais institucionais, plataformas digitais, infográficos e meios de comunicação. A própria resolução da ONU incentiva o desenvolvimento de padrões internacionais para representar de maneira mais precisa o tamanho dos continentes em mapas digitais e impressos.
O paradoxo é que não existe um mapa plano perfeito da Terra. Qualquer tentativa de transformar um planeta aproximadamente esférico em uma superfície plana exige algum tipo de distorção. A questão, portanto, não é encontrar um mapa absolutamente “correto”, mas escolher a projeção adequada ao objetivo: navegação, localização, comparação territorial, educação ou análise geopolítica.
Nesse sentido, a decisão da ONU não elimina o mapa tradicional. Ela amplia o reconhecimento internacional de que a forma de representar o planeta também influencia a maneira como o mundo é compreendido. E, no Brasil, essa discussão já havia sido antecipada pelas experiências cartográficas recentes do IBGE.
Brasil ganha destaque pela riqueza de sua biodiversidade
A escolha do Brasil como centro do mapa-múndi “Riqueza de Espécies 2025”, lançado pelo IBGE para marcar o Dia Internacional da Diversidade Biológica, também chama atenção para uma característica estratégica do país: sua extraordinária diversidade de espécies e ecossistemas. O mapa utiliza o indicador de riqueza de espécies para estimar a quantidade potencial de anfíbios, aves, mamíferos, répteis, crustáceos e peixes de água doce em células de 100 km², permitindo visualizar como a biodiversidade se distribui pelo planeta.
No caso brasileiro, essa riqueza está associada à extensão territorial e à presença de diferentes biomas e ambientes naturais. Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa formam um conjunto de ecossistemas com características distintas e abrigam uma parcela significativa da biodiversidade mundial. A variedade de climas, relevo, rios, florestas, áreas úmidas e formações vegetais cria condições para a ocorrência de milhares de espécies.
A biodiversidade brasileira também tem importância que ultrapassa a dimensão ambiental. Os ecossistemas fornecem serviços essenciais para a sociedade, como regulação do clima, disponibilidade de água, polinização, formação e fertilidade dos solos, produção de alimentos e recursos genéticos. A conservação dessas áreas, portanto, está relacionada diretamente à segurança alimentar, à saúde e ao bem-estar da população.
O Dia Internacional da Diversidade Biológica, celebrado em 22 de maio, foi criado pelas Nações Unidas para lembrar a aprovação do texto final da Convenção sobre Diversidade Biológica, em 1992. Em 2026, o tema da celebração é “Agir localmente para um impacto global”, destacando que iniciativas realizadas por comunidades, cidades e cidadãos — como coleta seletiva, redução do desperdício e consumo consciente — podem contribuir para a conservação da biodiversidade e produzir efeitos em escala global.
Com informações da Agência IBGE Notícias; The Equal Earth Wall Map; ONU News
@ibgeoficial @onunews @nacoesunidas @onubrasil
Acesse o The Equal Earth Wall Map
Acesse a loja do IBGE / Mapa-mundi biodiversidade Riqueza de Espécies 2025
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