3.880 municípios não têm médicos oftalmologistas
Saúde ocular no Brasil esbarra na concentração de oftalmologistas, enquanto quase 38 mil brasileiros aguardam atualmente por um transplante de córnea, no qual o tempo médio de espera chega a 370 dias
14 SET 2026 - 11H02 • Por Wilson LopesO Brasil possui 19.471 médicos oftalmologistas, mas a oferta de especialistas está concentrada em uma parcela restrita do território nacional. Levantamento do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), reunido no Observatório CBO da Saúde Ocular, identificou profissionais em 1.689 municípios — cerca de 30% das 5.569 cidades brasileiras —, enquanto aproximadamente 3.880 municípios não tinham oftalmologista registrado nas bases analisadas. O resultado é uma cobertura desigual, principalmente entre as regiões mais populosas e os municípios de menor porte.
Os dados mostram que a quantidade de especialistas não é distribuída de maneira proporcional à população. Em 2021, o Brasil tinha, em média, um oftalmologista para cada 10.875 habitantes. No Sudeste, a relação era de um profissional para 7.843 pessoas. No Norte, caía para um para cada 19.512 habitantes. A diferença evidencia que a disponibilidade de médicos varia significativamente conforme a região.
O Sudeste concentrava 11.349 oftalmologistas, mais da metade do total nacional. No outro extremo estava a Região Norte, com 957 profissionais. O Nordeste reunia 4.088, o Sul tinha 2.999 e o Centro-Oeste, 1.968. Os números mostram uma diferença de quase 12 vezes entre o contingente de especialistas do Sudeste e o do Norte.
A desigualdade também aparece dentro das próprias regiões. No Centro-Oeste, o Distrito Federal apresentava uma das maiores concentrações do país, com aproximadamente um oftalmologista para cada 4.168 habitantes. Em Goiás, a relação era de um para 8.696. Já no Norte, estados como Amapá e Pará registravam aproximadamente um profissional para cada 22,7 mil e 22,5 mil habitantes, respectivamente.
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A distribuição territorial ajuda a explicar parte desse cenário. Embora os oftalmologistas estejam presentes em 1.689 municípios, essas cidades concentram cerca de 168,4 milhões de habitantes, ou aproximadamente 80% da população considerada no levantamento. Os demais habitantes estão espalhados por milhares de municípios, em grande parte de pequeno porte.
Há, portanto, uma diferença entre quantidade de profissionais e acesso efetivo à assistência. O CBO contabilizou 19.471 indivíduos oftalmologistas, mas identificou 34.220 postos de trabalho ativos. A diferença ocorre porque um mesmo médico pode trabalhar em mais de uma cidade ou unidade da Federação. Assim, os dois números não representam quantidades equivalentes de profissionais.
150,05 milhões de consultas oftalmológicas no SUS
No Sistema Único de Saúde, a produção de atendimento é expressiva. O Observatório registra 150,05 milhões de consultas oftalmológicas realizadas desde 2012, além de 23,05 milhões de cirurgias do aparelho da visão no mesmo período. Também foram contabilizados 205.260 transplantes oftalmológicos realizados pelo SUS desde 2012.
Os transplantes de córnea revelam outra concentração territorial. Entre 2012 e 2022, o Sudeste respondeu por 46% dos procedimentos realizados pelo sistema público. São Paulo, sozinho, registrou cerca de 29,9 mil transplantes de córnea no período, aproximadamente um terço do total nacional. Na sequência apareceram Pernambuco, Minas Gerais, Paraná e Ceará.
A estrutura de transplantes também é limitada geograficamente. O Observatório registra 52 instituições transplantadoras no Brasil em 2021. A doação de córnea ocorre somente após a morte, e o tecido precisa ser captado em uma janela de aproximadamente seis a 12 horas após a parada cardíaca, o que torna a logística de captação, processamento, armazenamento e distribuição parte fundamental do sistema.
O cenário da saúde ocular também envolve o setor privado. Segundo o Observatório, havia 52,95 milhões de beneficiários de planos médico-hospitalares até março de 2026. O CBO informa que cerca de 25% da população brasileira utiliza a saúde suplementar para consultas, exames, procedimentos e cirurgias oculares, enquanto o SUS permanece responsável pelo atendimento de mais de 75% da população.
Os dados, porém, exigem uma ressalva. O Observatório reúne informações provenientes de diferentes bases e anos de referência. O número de oftalmologistas e a distribuição territorial têm como principal referência o levantamento de 2021, enquanto os dados da saúde suplementar chegam a março de 2026 e algumas estatísticas assistenciais correspondem a séries acumuladas desde 2012.
O retrato apresentado pelo CBO, portanto, não deve ser interpretado como uma fotografia única do sistema em 2026. Ainda assim, os números evidenciam um problema estrutural: o Brasil possui uma ampla rede de atendimento oftalmológico e milhares de especialistas, mas a distribuição desses recursos permanece concentrada em determinados centros urbanos e regiões, criando diferentes condições de acesso à saúde ocular conforme o local onde o paciente vive.
37.719 pessoas aguardam transplante de córnea
Quase 38 mil brasileiros aguardam atualmente por um transplante de córnea. São 37.719 pessoas na fila, 15% a mais do que em dezembro de 2025, quando havia 32.639 pacientes. O dado revela um paradoxo: mesmo com o recorde de 17.790 transplantes realizados em 2025, a fila continua crescendo. Segundo o CBO, o tempo médio de espera chegou a 370 dias, mais que o dobro dos 174 dias registrados há uma década.
Com informações do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO).
@cbo_oftalmologia @prefeituradeanapolis
Acesse o Observatório CBO da Saúde Ocular