Logo Agência Cidades

Turismo global

IA, câmbio e novas rotas redesenham o turismo mundial

Relatório do Mastercard Economics Institute mostra que viajantes continuam priorizando viagens, mas adaptam destinos, orçamento e duração diante da instabilidade econômica e geopolítica

24 SET 2026 - 09H24 • Por Wilson Lopes
A inteligência artificial está ajudando a colocar novos destinos no mapa, como Leipzig, na Alemanha, onde 31% dos gastos de visitantes norte-americanos na cidade vieram de viajantes assinantes de plataformas de IA - Stadt Leipzig

A economia do turismo internacional entra em 2026 em uma fase de adaptação acelerada, na qual câmbio, tensões geopolíticas, custos de energia, inteligência artificial e preferências pessoais passaram a influenciar conjuntamente a escolha dos destinos e a forma como os viajantes gastam. 

É o principal diagnóstico do Travel Trends 2026 – “The new travel equation: Macro, machines, motivation”, do Mastercard Economics Institute (MEI), que aponta que o desejo de viajar permanece, mas consumidores e empresas estão alterando destinos, períodos, orçamentos e prioridades diante de um cenário mais instável. 

O estudo identifica três forças centrais que estruturam o turismo em 2026: as condições macroeconômicas e geopolíticas, o avanço da inteligência artificial e as motivações individuais dos viajantes. Segundo o MEI, conflitos, alterações nas rotas aéreas, preços de energia e oscilações cambiais já estão modificando a conectividade e a atratividade relativa dos destinos. 

A mudança, porém, não representa abandono das viagens. O relatório caracteriza o comportamento do consumidor pela adaptabilidade: diante de choques externos, os viajantes procuram alternativas que ofereçam melhor relação entre preço, acesso e experiência. 

>>Siga a Agência Cidades no Instagram
>>Siga a Agência Cidades no Facebook

Brasil: turista estrangeiro gasta mais com comida e experiências do que com hospedagem

O Brasil aparece com um perfil particularmente distinto no levantamento. Dados do Mastercard Economics Institute mostram que 27,1% dos gastos de turistas estrangeiros no país são destinados a restaurantes e outros 2,4% a bares, totalizando aproximadamente 29,5% das despesas.

A hospedagem representa 17,8% do orçamento. O resultado indica que, para o visitante internacional, uma parcela relevante do valor econômico gerado pela viagem brasileira ocorre depois da chegada ao destino, principalmente em alimentação, entretenimento e consumo.

O perfil varia de acordo com a origem do turista.

Os argentinos destinam 36,9% dos gastos ao varejo, a maior participação entre os mercados de origem analisados para o Brasil. Os britânicos concentram 33,7% dos gastos em restaurantes, enquanto os chilenos apresentam a maior parcela destinada a experiências e entretenimento ao vivo, com 7,3%. Turistas dos Estados Unidos lideram os gastos em varejo alimentar, com 20%, e os alemães distribuem uma parcela importante entre restaurantes e compras de alimentos.

O contraste ajuda a explicar uma das principais conclusões do estudo: o mesmo destino pode representar experiências econômicas completamente diferentes, dependendo da origem do visitante.

O que isso significa para o Brasil?

O levantamento desloca a análise do turismo brasileiro da simples contagem de visitantes para o comportamento de consumo.

A concentração dos gastos em restaurantes, bares e experiências indica que setores ligados à gastronomia, entretenimento, cultura, lazer e comércio fazem parte importante da cadeia econômica gerada pelo turismo internacional no país. A própria Mastercard reafirmou, afirmando que, no Brasil, o valor turístico está mais associado ao que o visitante faz, come e experimenta do que ao local onde se hospeda.

Brasília ganha espaço no turismo corporativo

Outra mudança relevante aparece no turismo de negócios. O Mastercard Economics Institute criou o Business vs. Leisure Momentum Index, indicador que mede onde a participação das viagens corporativas está crescendo em relação às viagens de lazer. O índice combina mudanças na participação empresarial dos gastos internacionais com hotéis e restaurantes e nas reservas aéreas entre 2024 e 2025. 

Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, liderou o indicador global com base nos dados de 2025 (Magnific)

Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, liderou o indicador global com base nos dados de 2025. A cidade busca ampliar sua posição como centro internacional de negócios, embora o próprio relator ressalte e salve que o conflito no Oriente Médio tornou mais incerto o cenário para o destino em 2026. 

O dado de maior interesse para o Brasil é a presença de Brasília na 16.ª posição mundial. A capital brasileira aparece entre as cidades com maior aceleração relativa do turismo corporativo, à frente de destinos tradicionalmente associados ao lazer.

A presença de Brasília nesse grupo está relacionada à característica econômica da capital federal: concentração de órgãos públicos, instituições, empresas, representações diplomáticas e atividades ligadas a decisões regulatórias e institucionais.

Na América Latina, Guadalajara, no México, aparece na 20.ª posição. O movimento sinaliza uma diversificação do turismo corporativo para além de centros financeiros tradicionais como São Paulo e Cidade do México.

Índia se transforma em polo de viagens corporativas

A Ásia-Pacífico concentra cinco das dez cidades com maior avanço relativo do turismo corporativo no índice do Mastercard Economics Institute.

A Índia coloca quatro cidades entre as dez primeiras: Hyderabad, Bengaluru, Nova Délhi e Mumbai. Hyderabad ocupa a terceira posição e Bengaluru, a quarta.

O resultado acompanha a expansão dos setores de tecnologia e inteligência artificial no país. O relatório identifica uma relação entre a expansão desses polos econômicos e o aumento relativo das viagens de negócios.

Seul, na Coreia do Sul, também aparece entre as dez primeiras.

O movimento é relevante porque mostra que o mapa do turismo corporativo não depende apenas do tamanho populacional ou da quantidade absoluta de visitantes. O indicador mede especificamente onde as viagens de negócios estão ganhando participação em relação ao lazer.

Paris lidera crescimento das conexões aéreas para o verão

As mudanças também aparecem na oferta de voos. Com base em dados da OAG até 24 de abril de 2026, o Mastercard Economics Institute analisou a variação anual do número de assentos programados para viagens internacionais entre junho e setembro. Paris, na França, aparece na liderança do crescimento relativo da oferta para o verão de 2026

O resultado ocorre em um cenário de reorganização das rotas internacionais provocado por custos mais elevados, tensões geopolíticas e alterações na demanda.

Na América Latina, o estudo identifica uma tendência de maior concentração de voos em cidades próximas, com destaque para Cidade do Panamá, Bogotá e Buenos Aires. Na Europa, Paris, Amsterdã e Barcelona aparecem entre os destinos associados ao crescimento da conectividade. 

A Cidade do Panamá, em particular, ganhou importância como hub aéreo regional. Uma análise específica do Mastercard Economics Institute para a América Latina e Caribe aponta que a capital panamenha lidera o crescimento de assentos para o verão no eixo regional, à frente de Bogotá, Buenos Aires e São Paulo.

Câmbio pode alterar milhões de viagens

O câmbio aparece como uma das variáveis econômicas mais diretamente relacionadas ao turismo internacional.

A análise do MEI utilizou dados de 1996 a 2025 para medir como alterações nas moedas dos destinos estão relacionadas ao fluxo de turistas estrangeiros. Em média, uma depreciação de 10% da moeda de um destino esteve associada a um aumento de 2,4% no turismo internacional. Mas o efeito varia muito entre os países.

A Turquia apresentou a maior sensibilidade entre os mercados analisados: uma desvalorização de 10% da lira esteve associada a um aumento de 11,4% nas visitas internacionais.

Na Argentina, uma desvalorização de 10% do peso esteve associada a um aumento de 9,5% no número de turistas estrangeiros.

Já nos Estados Unidos, uma desvalorização de 10% do dólar estaria associada a apenas 1,4% de aumento nas visitas internacionais

O contraste mostra que o câmbio não exerce o mesmo efeito sobre todos os mercados. Para países altamente sensíveis aos preços internacionais, uma moeda mais fraca pode tornar hotéis, alimentação, compras e serviços relativamente mais baratos para estrangeiros.

Os brasileiros são a principal origem de turistas na Argentina e destinam 37,3% dos gastos à hospedagem e 27,1% a restaurantes (Magnific)

Argentina é um dos destinos mais sensíveis ao câmbio

A Argentina ocupa posição de destaque nessa equação. Além da sensibilidade de 9,5% no fluxo de turistas diante de uma desvalorização cambial de 10%, o país apresenta forte presença de visitantes brasileiros. Segundo a análise regional da Mastercard, brasileiros são a principal origem de turistas na Argentina e destinam 37,3% dos gastos à hospedagem e 27,1% a restaurantes.

O caso argentino demonstra como uma variável macroeconômica — o valor da moeda — pode se transformar em fator direto de competitividade turística.

Inteligência artificial começa a mudar para onde as pessoas viajam

A principal novidade do relatório de 2026 em relação à edição anterior é a incorporação da inteligência artificial como fator de comportamento turístico.

O Mastercard Economics Institute comparou padrões de gastos de usuários de cartões nos Estados Unidos que assinam plataformas de inteligência artificial com consumidores que não utilizam esses serviços. Os grupos foram ajustados para reduzir diferenças relacionadas ao nível de gastos, embora o próprio relatório reconheça que fatores como renda, escolaridade e idade ainda podem influenciar os resultados. 

O principal resultado é expressivo: assinantes de serviços de IA destinam, em média, quase o dobro da participação do orçamento à hospedagem em comparação com o grupo de controle. 

O estudo, entretanto, não afirma que a IA seja a causa direta do aumento desses gastos. O próprio MEI ressalta que a causalidade não pode ser comprovada, pois os usuários de IA podem possuir características socioeconômicas diferentes. 

Arquitetura histórica, canais, rios e áreas verdes fazem de Leipzig, na Alemanha, um destino que combina natureza, cultura e experiências urbanas (Magnific)

IA também está levando turistas para destinos menos conhecidos

A influência da inteligência artificial não aparece apenas no valor gasto, mas também na escolha do lugar para onde viajar.

O estudo identificou destinos europeus nos quais os usuários de IA representam uma participação desproporcionalmente elevada dos gastos de visitantes.

Leipzig, na Alemanha, lidera esse grupo: 31% dos gastos de visitantes norte-americanos na cidade foram realizados por usuários de serviços de IA. A cidade é conhecida por sua tradição musical, patrimônio histórico, vida cultural e custos relativamente menores em comparação com grandes destinos alemães. 

Outros exemplos incluem:

O relatório chama esses lugares de “destination dupes”, ou destinos alternativos: cidades ou regiões que oferecem experiências semelhantes às de destinos famosos, mas podem ser menos congestionadas ou apresentar melhor relação custo-benefício.

Entre os exemplos estão Utrecht, como alternativa a Amsterdã; Toulouse, como alternativa a Paris; e Patmos e Antiparos, como alternativas a Mykonos. 

Esse fenômeno pode alterar a concentração histórica do turismo. Em vez de simplesmente perguntar “qual é o destino mais famoso?”, o viajante passa a perguntar à ferramenta de IA qual lugar oferece determinada experiência pelo menor custo ou com menor pressão turística.

O turismo fica mais personalizado

O relatório também identifica diferenças significativas na forma como turistas de diferentes países gastam dentro de um mesmo destino.

No Japão, por exemplo, britânicos destinam mais de 10% do orçamento ao transporte terrestre, refletindo o uso da rede ferroviária para percorrer diferentes regiões do país.

Turistas de Singapura destinam 38% dos gastos ao varejo, enquanto visitantes sul-coreanos apresentam participação de gastos em bares 45% superior à média dos turistas

Na França, visitantes suíços apresentam forte concentração de gastos no varejo, enquanto britânicos destinam uma parcela maior à gastronomia.

Nos Estados Unidos, 28% dos gastos de turistas internacionais ocorrem no varejo, enquanto visitantes mexicanos chegam a destinar 54% do orçamento às compras

Os dados reforçam a ideia de que não existe um turista internacional único. A origem do visitante, seus interesses e a infraestrutura disponível no destino ajudam a determinar onde o dinheiro será gasto.

A viagem passa a ser parte da experiência

Outra tendência identificada pelo relatório é o crescimento do turismo ferroviário. O MEI aponta que os viajantes estão valorizando cada vez mais a própria jornada, e não apenas o destino final. O trem atende simultaneamente a dois interesses: possibilidade de imersão cultural e redução da pegada de carbono.

Segundo o relatório, substituir um voo doméstico por uma viagem de trem pode reduzir a pegada de carbono em aproximadamente 86%

Há ainda crescimento do segmento de trens de luxo, que já representa cerca de 34% dos gastos globais associados a viagens ferroviárias analisadas pelo estudo. Italianos, norte-americanos, espanhóis, britânicos e australianos estão entre os principais consumidores desse segmento. 

Entre os italianos, mais de 50% dos gastos com viagens de trem estão relacionados a experiências de luxo, segundo o MEI. 

O paradoxo de 2026: mais incerteza, mas o desejo de viajar permanece

O principal paradoxo identificado pelo estudo é que o ambiente internacional ficou mais complexo sem eliminar a disposição de viajar.

Conflitos, custos de energia, volatilidade cambial e mudanças nas rotas aéreas estão aumentando as restrições. Ao mesmo tempo, os consumidores continuam procurando viagens e experiências, adaptando seus planos para encontrar melhores condições.

O próprio Mastercard Economics Institute resume esse comportamento como uma combinação de adaptação e continuidade: o viajante cancela necessariamente a viagem; ele muda o destino, o período, o orçamento ou a maneira de chegar.

A inteligência artificial acrescenta uma nova camada a esse processo ao ampliar a quantidade de informações disponíveis e facilitar a descoberta de destinos menos tradicionais.

Brasília aparece entre as 20 cidades do mundo com maior aceleração relativa do turismo corporativo (Rafa Neddermeyer/ABr)

O que muda para o Brasil

Para o Brasil, os dados de 2026 apresentam três sinais relevantes.

Primeiro: o país tem uma estrutura de consumo turístico fortemente ligada à gastronomia, bares e experiências, com quase 30% dos gastos internacionais nessas categorias.

Segundo: o perfil de consumo varia consideravelmente de acordo com o país de origem, abrindo espaço para estratégias de turismo mais segmentadas — argentinos mais voltados ao varejo, britânicos à gastronomia e chilenos às experiências ao vivo.

Terceiro: Brasília aparece entre as 20 cidades do mundo com maior aceleração relativa do turismo corporativo, enquanto São Paulo permanece inserida na dinâmica de conectividade aérea da América Latina.

O relatório, portanto, apresenta um cenário no qual a competição entre destinos deixa de depender exclusivamente da quantidade de turistas recebidos. A origem do visitante, o motivo da viagem, a forma de deslocamento, o câmbio, a conectividade e, cada vez mais, a maneira como a inteligência artificial apresenta o destino ao consumidor passam a determinar onde o dinheiro do turismo será gasto.

Com informações do Mastercard Economics Institute (MEI).

@mastercardbrasil @gov_df @prefsp @guadalajaragob @bogota_turismo @travelbuenosaires @atp_panama @visitabudhabi @visitargentina @visitjapanjp @francefr @spain @feelslovenia @tourismutrecht @visititaly @shoheiohtani @travelBuenosAires @bogota_turismo @paris_maville @mturismo

Acesse o relatório ‘Travel Trends 2026 – The new travel equation: Macro, machines, motivation’

Acesse o site da Prefeitura de Leipzig