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21/09, Dia da Árvore

Vegetação nativa 65% X 32% agropecuária

MapBiomas mostra que o Brasil perdeu 83 milhões de hectares de vegetação nativa para a agropecuária em 40 anos

21 SET 2026 - 11H41 • Por Wilson Lopes
Entre 1985 e 2025, 285 milhões de hectares 33% do território brasileiro passaram por algum tipo de mudança de cobertura ou uso da terra - Coleção 11 do MapBiomas

O Brasil chegou a 2025 com 65% de seu território coberto por vegetação nativa e 32% ocupado pela agropecuária, mas a fotografia atual esconde uma transformação territorial de grande escala nas últimas quatro décadas. Entre 1985 e 2025, 285 milhões de hectares — 33% do território brasileiro — passaram por algum tipo de mudança de cobertura ou uso da terra, segundo a Coleção 11 do MapBiomas, divulgada em 12 de agosto de 2026.  

A série histórica mostra uma mudança importante na composição do território. Em 1985, a vegetação nativa representava 79% do país; em 2025, passou para 65%. No mesmo intervalo, a agropecuária avançou de 18% para 32%. A expansão ocorreu principalmente por meio do crescimento das áreas de pastagem e agricultura. 

Formação florestal concentra a maior perda

Entre as classes de vegetação nativa, a Formação Florestal foi a que mais perdeu área no período: 65 milhões de hectares, uma redução de aproximadamente 15%. A Formação Savânica apresentou a maior perda proporcional, de 30%, enquanto a Formação Campestre recuou 21%. 

Na outra ponta, a pastagem aumentou 61,6 milhões de hectares, enquanto a agricultura cresceu 48 milhões de hectares. A silvicultura também apresentou forte expansão, passando de cerca de 1,9 milhão para 9,9 milhões de hectares em 41 anos — mais de cinco vezes a área registrada no início da série.

O levantamento mostra ainda uma transformação dentro da própria agropecuária. Em 2025, a pastagem correspondia a 60,6% da área agropecuária brasileira, com 165,6 milhões de hectares. A soja ocupava 44,2 milhões de hectares, equivalentes a 16,2% da área agropecuária

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Amazônia e Cerrado concentram as maiores perdas

A distribuição das mudanças não é uniforme entre os biomas. A Amazônia perdeu 53,9 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025, enquanto o Cerrado perdeu 51,7 milhões de hectares. Em termos proporcionais, entretanto, o Cerrado apresentou uma redução maior: 34% da vegetação nativa, contra 14% na Amazônia. 

A Caatinga perdeu 10,1 milhões de hectares, a Mata Atlântica 4,9 milhões, o Pampa 4 milhões e o Pantanal 1,9 milhão de hectares de área natural no período analisado. No Pantanal, porém, o MapBiomas faz uma ressalva metodológica: devido à dinâmica das inundações, a área natural considera também corpos d'água, e parte das alterações observadas está associada à variação das áreas alagadas. 

O paradoxo aparece quando se observa a proporção de vegetação remanescente: Amazônia e Pantanal ainda apresentam mais de 80% de vegetação nativa, mas o Cerrado e o Pampa são justamente os biomas que tiveram as maiores perdas proporcionais. 

Neste Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, o MapBiomas informa que a cobertura de vegetação nativa caiu de 79% para 65% do território brasileiro entre 1985 e 2025, enquanto a área ocupada pela agropecuária passou de 18% para 32%, como nas fazendas de cultivo de soja ao longo da rodovia MA-007, em Balsa, no Maranhão (Fernando Frazão/ABr)

744 municípios deixaram de ter vegetação nativa como cobertura predominante

A transformação também aparece na escala municipal. Em 1985, 46% dos municípios brasileiros tinham a agropecuária como cobertura predominante. Em 2025, esse percentual chegou a 59%. Ao mesmo tempo, 744 municípios deixaram de ter a vegetação nativa como cobertura predominante. 

O dado não significa que esses municípios tenham perdido toda a vegetação nativa. Ele indica que, na comparação entre 1985 e 2025, a classe predominante do território municipal mudou. Essa distinção é importante para evitar a interpretação de que os 744 municípios tenham sofrido desmatamento integral.

Paraná lidera expansão agrícola nas regiões hidrográficas

Na escala das regiões hidrográficas, a Região Hidrográfica do Paraná apresentou o maior ganho de área agrícola, com 18,7 milhões de hectares. Já a região Amazônica registrou a maior perda absoluta de vegetação nativa, com 41 milhões de hectares.  

O caso do Paraguai chama atenção por outro motivo: foi a região hidrográfica com a maior redução proporcional da superfície de água, de 75%. O número precisa ser interpretado com cautela porque áreas úmidas como o Pantanal apresentam forte variação natural de inundação ao longo do tempo. O próprio relatório incorpora essa dinâmica em suas classificações.

Soja avança principalmente no Cerrado

A soja tornou-se uma das principais marcas da transformação da paisagem agrícola brasileira. Em 2025, eram 44,2 milhões de hectares de soja. O Cerrado concentrou a maior expansão acumulada entre 1985 e 2025, com 20,6 milhões de hectares adicionais.

O avanço foi particularmente intenso na última década analisada: entre 2015 e 2025, a área de soja cresceu 12,7 milhões de hectares. Desse aumento, aproximadamente metade ocorreu no Cerrado, com 6,4 milhões de hectares, e 26% na Amazônia, com 3,3 milhões. 

A cana-de-açúcar apresenta outra configuração territorial. Em 2025, ocupava 11,1 milhões de hectares, e aproximadamente metade da área estava na Mata Atlântica, especialmente no Estado de São Paulo.

Silvicultura, energia solar e eólica também redesenham o território

A transformação do território não está restrita à expansão agropecuária. A área de silvicultura passou de 1,9 milhão para 9,9 milhões de hectares entre 1985 e 2025. Em 2025, 49,8% dessa área estavam na Mata Atlântica e 39,2% no Cerrado. Minas Gerais e Mato Grosso do Sul aparecem entre os estados com maior área de silvicultura.

Na matriz de energia, a expansão territorial também foi expressiva. Em 2025, o MapBiomas identificou 28.679 hectares de parques eólicos, seis vezes mais que em 2016. Rio Grande do Norte e Bahia concentravam 61,7% da área mapeada.

As usinas fotovoltaicas apresentaram crescimento ainda mais acelerado: chegaram a 43.259 hectares em 2025, 38 vezes a área de 2016. Minas Gerais concentrava 37,6% dessa área, seguido por Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte. Esses quatro estados somavam 74,8% da área nacional de usinas fotovoltaicas.

Urbanização dobra em quatro décadas

A urbanização também ganhou espaço, embora represente uma fração muito menor do território nacional.

A área urbanizada passou de 1,9 milhão de hectares em 1985 para 4,4 milhões em 2025, um aumento de 2,3 vezes. Segundo o relatório, 83,4% dos municípios apresentavam áreas urbanizadas em 2025.

A Caatinga foi o bioma que apresentou maior crescimento proporcional da área urbanizada no período, com 64% da área urbanizada atual tendo surgido entre 1985 e 2025.

Terras Indígenas aparecem entre as áreas mais estáveis

Outro resultado relevante está relacionado às categorias fundiárias.

As Terras Indígenas ocupam 14% do território brasileiro, cerca de 116,2 milhões de hectares, e concentravam 114 milhões de hectares de vegetação nativa em 2025, equivalente a 98,3% de sua área total. O levantamento indica que essas áreas perderam aproximadamente 1% de vegetação nativa entre 1985 e 2025

Já os imóveis rurais privados apresentaram a maior perda de vegetação nativa entre as categorias fundiárias analisadas: 64 milhões de hectares, equivalentes a 52% de toda a perda registrada no país. 

O resultado evidencia uma diferença expressiva entre categorias de ocupação territorial, mas não permite, isoladamente, estabelecer relações de causa e efeito entre propriedade, atividade econômica e perda de vegetação.

O Pantanal concentra a maior dinâmica de mudanças

Embora não tenha registrado a maior perda absoluta, o Pantanal foi o bioma mais dinâmico segundo o critério utilizado pelo MapBiomas.

53% de seu território apresentou seis ou mais mudanças de classe entre 1985 e 2025, enquanto na Amazônia esse percentual foi de 8,4%. No conjunto do Brasil, 66,5% do território permaneceu sem mudança de classe ao longo da série. 

O relatório também identifica uma mudança particularmente expressiva na chamada Savana Alagada do Pantanal. A área estimada caiu de aproximadamente 1,10 milhão de hectares em 1985 para 174 mil hectares em 2025, uma redução de 84%. O MapBiomas ressalta que grande parte das transições está relacionada à dinâmica de seca e inundação do bioma.

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O que permaneceu estável

Apesar da dimensão das transformações, 566 milhões de hectares — 66,5% do território brasileiro — permaneceram classificados na mesma classe entre 1985 e 2025. Aproximadamente 88% dessa área está associada a áreas naturais. 

Esse dado introduz um contraponto importante à narrativa de transformação generalizada: a maior parte do território brasileiro não mudou de classe no período, embora as áreas que mudaram representem 285 milhões de hectares, uma extensão equivalente a cerca de um terço do país.

 Estados que se destacam 

O relatório permite identificar diferenças territoriais importantes:

O relatório não apresenta indicadores de renda, PIB, emprego ou desenvolvimento humano associados às mudanças territoriais. Portanto, não é possível afirmar, apenas com base na Coleção 11, qual foi o efeito socioeconômico dessas transformações sobre as populações locais.

Principais lacunas e cuidados de interpretação

1. O levantamento mostra mudanças, mas não explica sozinho suas causas.
A classificação identifica alterações de cobertura e uso da terra, mas não estabelece, isoladamente, causalidade econômica, social ou ambiental.

2. Algumas análises comparam apenas 1985 e 2025.
O próprio relatório alerta que podem existir transições intermediárias que não aparecem quando são considerados somente o início e o fim da série. 

3. Área não significa necessariamente intensidade de uso.
O fato de determinada classe ocupar uma área maior não informa, por si só, produtividade, geração de empregos, valor econômico ou pressão ambiental.

4. Áreas úmidas exigem cautela.
Pantanal e outras áreas sujeitas a ciclos de inundação podem apresentar mudanças de classificação associadas à dinâmica natural da água, e não necessariamente a uma transformação permanente provocada por atividade humana.

5. A resolução espacial é de 30 metros.
A Coleção 11 utiliza imagens Landsat e classificação anual. O próprio MapBiomas informa que o produto trabalha com resolução espacial de 30 metros e classificação supervisionada, incluindo Random Forest.

6. O relatório é essencialmente territorial.
Ele não deve ser tratado como levantamento socioeconômico. Para avaliar consequências sobre população, renda, emprego, produção ou desigualdade, seria necessário cruzar os mapas com bases como IBGE, Cadastro Único, RAIS, Censo Agropecuário e outras fontes.

O principal paradoxo

O principal contraste revelado pela Coleção 11 é que o Brasil ainda mantém uma maioria territorial de vegetação nativa — 65% —, mas perdeu 14 pontos percentuais dessa cobertura desde 1985, enquanto a agropecuária avançou de 18% para 32%.

Ao mesmo tempo, 66,5% do território permaneceu estável, mas 33% mudou de classe pelo menos uma vez. Portanto, a imagem mais precisa não é a de um território inteiramente transformado, nem a de um território estático: é a de um Brasil com grandes áreas estáveis convivendo com extensas zonas de transformação concentrada.

O MapBiomas é uma rede colaborativa que utiliza imagens de satélite, inteligência artificial e geoprocessamento para mapear e acompanhar as mudanças na cobertura e no uso da terra no Brasil ao longo do tempo, identificando áreas de vegetação nativa, agricultura, pastagem, cidades, mineração, corpos d’água e outras ocupações. Na Coleção 11, o projeto analisou 41 anos de transformações, de 1985 a 2025, permitindo comparar como diferentes regiões do país foram modificadas nesse período.

Com informações do MapBiomas
@mapbiomasbrasil @anagovbr @aneelgovbr @ibgeoficial @govbr

Acesse a Coleção 11 do MapBiomas


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## BOX | 3 números para entender a Coleção 11

### **285 milhões de hectares**

Área do território brasileiro que apresentou alguma mudança de cobertura ou uso da terra entre 1985 e 2025 — **33% do país**. 

### **65%**

Percentual do Brasil coberto por vegetação nativa em 2025. A agropecuária ocupava **32%**. 

### **64 milhões de hectares**

Perda de vegetação nativa registrada em imóveis rurais privados, equivalente a **52% de toda a perda de vegetação nativa do Brasil** na série analisada. 

Neste Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, o Brasil tem um alerta importante: segundo o MapBiomas, a cobertura de vegetação nativa caiu de 79% para 65% do território brasileiro entre 1985 e 2025, enquanto a área ocupada pela agropecuária passou de 18% para 32%. Em quatro décadas, 285 milhões de hectares — cerca de um terço do país — sofreram mudanças de cobertura ou uso da terra, reforçando a importância da conservação das florestas e demais formações naturais para o equilíbrio ambiental e a segurança hídrica e climática do Brasil.