China corta 12,2 mil cursos universitários e cria 10,2 mil novos voltados à tecnologia
Ministério da Educação chinês reformula mais de 30% dos cursos universitários em estratégia que busca aproximar formação acadêmica das transformações tecnológicas e da demanda por profissionais
1 OUT 2026 - 09H23 • Por Wilson LopesUniversidades da China passaram por uma ampla reestruturação da oferta de graduação entre 2021 e 2025, com 12,2 mil programas cancelados ou suspensos e 10,2 mil novos criados, segundo dados do Ministério da Educação chinês. A mudança atingiu mais de 30% dos programas universitários do país e busca aproximar a formação de profissionais das necessidades econômicas, tecnológicas e estratégicas identificadas pelo governo.
A reformulação ocorre em um sistema de ensino superior de grande escala. Em 2025, a China contabilizava 62,8 mil programas de graduação. O Ministério da Educação determinou que as instituições aprimorem mecanismos de previsão da demanda por profissionais e ajustem periodicamente seus cursos para acompanhar transformações econômicas e tecnológicas.
Entre as áreas que passaram a receber novos programas estão inteligência artificial, circuitos integrados, economia digital, engenharia de carbono, tecnologia marítima, engenharia de dispositivos médicos e engenharia de informação espaço-temporal. O catálogo de graduação de 2025 incorporou 29 novas formações, distribuídas entre áreas estratégicas, tecnologias emergentes e campos associados a novas demandas do mercado.
A política também avançou para áreas ainda mais específicas da inteligência artificial. Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Educação e repercutidas pela imprensa chinesa, nove universidades passaram a oferecer cursos relacionados à chamada inteligência incorporada, conceito que combina inteligência artificial com sistemas físicos, máquinas e robótica.
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Formação universitária sob pressão do mercado
A alteração ocorre em meio ao crescimento do número de jovens que chegam ao mercado de trabalho com diploma universitário. O governo chinês informou que o país passou a formar mais de 10 milhões de graduados por ano a partir de 2022, e a estimativa para 2025 era de 12,22 milhões de concluintes, 430 mil a mais que no ano anterior.
Esse crescimento elevou a pressão para aproximar os cursos da demanda por profissionais. As diretrizes oficiais para ampliar o emprego dos graduados preveem uma base nacional de informações sobre demanda por talentos, análises antecipadas de oferta e procura e maior coordenação entre matrículas, formação acadêmica e resultados de emprego.
O processo, entretanto, não significa simplesmente a substituição das humanidades por cursos tecnológicos. Dados divulgados pela imprensa chinesa apontam que os cortes se concentraram especialmente em artes, humanidades, línguas estrangeiras e gestão, áreas nas quais algumas instituições identificaram excesso de oferta ou menor correspondência com a demanda.
A política oficial também mantém a perspectiva de fortalecimento das chamadas “novas humanidades”, ao lado das “novas engenharias”, “novas ciências da saúde” e “novas ciências agrícolas”. A orientação é estimular a combinação entre diferentes campos de conhecimento, em vez de restringir a formação universitária a disciplinas isoladas.
A mudança não começou em 2021
A reorganização atual faz parte de um processo mais longo. Segundo o Ministério da Educação chinês, desde 2012 foram criados cerca de 21 mil programas de graduação e aproximadamente 12 mil foram cancelados ou suspensos por falta de aderência às necessidades econômicas e sociais.
Em 2024, por exemplo, foram aprovados 1.839 novos programas, enquanto 2.220 tiveram as matrículas suspensas e 1.428 foram oficialmente cancelados. Naquele ano, o catálogo nacional passou a reunir 845 tipos específicos de programas de graduação.
O movimento mostra que a China passou a tratar a estrutura dos cursos universitários como um componente da política econômica e industrial. A intenção declarada pelo Ministério é fazer com que a formação de profissionais acompanhe tanto a evolução da tecnologia quanto as necessidades de desenvolvimento do país.
O paradoxo da transformação
A estratégia chinesa enfrenta um desafio que vai além da criação de novos cursos: formar profissionais para ocupações que ainda estão mudando rapidamente.
A inteligência artificial pode aumentar a demanda por especialistas em semicondutores, robótica, dados e sistemas inteligentes, mas também modifica tarefas tradicionalmente realizadas por profissionais de outras áreas. Por isso, a simples troca de um curso por outro não garante, por si só, melhor inserção profissional.
A própria política educacional chinesa indica uma resposta mais ampla: atualização periódica dos programas, integração entre áreas e acompanhamento da demanda por talentos. Em 2024, o Ministério já havia estabelecido mecanismos para atualizar anualmente o catálogo de graduação e aperfeiçoar os procedimentos de criação e cancelamento de cursos.
Assim, a experiência chinesa representa menos uma decisão isolada sobre quais profissões “vão acabar” e mais uma tentativa de reduzir o descompasso entre a velocidade da transformação econômica e o tempo necessário para formar profissionais.
Com informações do Ministério da Educação da República Popular da China.
@chinaxinhuanews
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