Goiânia é a capital com maior presença de calçadas
Capital de Goiás registra 98% dos domicílios com presença de calçada ou passeio, mas ainda apresenta trechos sem rampas e com obstáculos para cadeirantes
23 OUT 2026 - 10H22 • Por Wilson LopesGoiânia registrou 98,19% dos domicílios com presença de calçada ou passeio, segundo dados do Censo Demográfico 2022 sobre as características urbanísticas do entorno dos domicílios, e aparece na primeira posição entre as capitais consideradas nesta comparação. Mas o levantamento do IBGE mostra que a simples existência da calçada não significa que ela ofereça condições adequadas de circulação e acessibilidade.
No conjunto do país, 146,4 milhões de moradores, equivalentes a 84,0% da população residente nos setores selecionados para a pesquisa, viviam em trechos de vias com calçada ou passeio em 2022. Outros cerca de 27,8 milhões estavam em locais sem esse tipo de estrutura. O universo pesquisado correspondia a 174,2 milhões de pessoas em áreas com características urbanas.
A diferença aparece quando o indicador é associado à qualidade da circulação. Apenas 32,8 milhões de pessoas, ou 18,8% dos moradores pesquisados, viviam em trechos com calçadas sem obstáculos. O número cai ainda mais quando se considera a acessibilidade: somente 26,5 milhões, ou 15,2%, estavam em vias com rampa para cadeirantes.
Na prática, isso significa que ter uma calçada não é necessariamente ter uma rota acessível. O levantamento do IBGE considera a existência do espaço destinado ao pedestre, mas não avalia se ele está conservado, se possui largura adequada em toda a extensão, se é contínuo ou se oferece condições efetivas de acessibilidade. O próprio instituto ressalta que os elementos foram investigados independentemente de seu estado de conservação, funcionamento ou eficácia.
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Goiânia fica acima da média de Goiás
O desempenho de Goiânia ganha dimensão quando comparado ao resultado de seu estado. Em Goiás, 92,6% dos moradores dos setores abrangidos pela pesquisa residiam em vias com calçada ou passeio. O índice estadual ficou 8,6 pontos percentuais acima da média brasileira, de 84,0%.
Entre as capitais utilizadas nesta comparação, Goiânia aparece com 98,19%, seguida por Curitiba, no Paraná, com 95,38%; Teresina, no Piauí, com 93,28%; São Paulo, no estado homônimo, com 90,77%; e Palmas, no Tocantins, com 88,98%.
Os números absolutos informados para o indicador são de 537.693 domicílios em Goiânia, 653.104 em Curitiba, 246.014 em Teresina, 3.881.212 em São Paulo e 91.004 em Palmas.
A comparação mostra também diferenças importantes dentro das próprias unidades da Federação. O Paraná registrou 88,1% dos moradores em vias com calçada; o Piauí, 83,1%; São Paulo, 91,6%; e Tocantins, 84,7%.
Esses percentuais estaduais, entretanto, não devem ser comparados diretamente com os percentuais municipais apresentados acima sem observar a unidade estatística utilizada. O relatório do IBGE trabalha tanto com domicílios quanto com moradores, e os resultados podem mudar conforme a base escolhida.
O problema não termina na existência da calçada
O levantamento revela uma diferença expressiva entre a presença de infraestrutura e sua adequação para o pedestre.
Na análise das faces de quadra, o IBGE identificou calçadas em 68,5% das faces pesquisadas. Entre essas estruturas, quase metade apresentava obstáculos, enquanto somente 12,3% das faces contavam com rampa para cadeirantes.
A acessibilidade também varia fortemente entre os estados. Enquanto Mato Grosso do Sul tinha 41,1% dos moradores em vias com rampa, o Amazonas apresentava apenas 5,6%. Paraná chegava a 37,3%, Distrito Federal a 30,4% e Goiás a 16,9%.
Outro indicador reforça a fragilidade da infraestrutura voltada aos deslocamentos não motorizados: somente 1,9% dos moradores viviam em trechos de vias com alguma sinalização para bicicletas, como ciclovias, ciclofaixas ou ciclorrotas. O IBGE observa que os percentuais baixos indicam uma infraestrutura urbana ainda fortemente direcionada aos veículos automotores.
Diferenças entre cidades
O cenário municipal é bastante heterogêneo. Segundo o IBGE, 253 municípios — 4,5% do total — tinham menos de 40% dos moradores vivendo em vias com calçada ou passeio. No outro extremo, 1.102 municípios apresentavam mais de 95% dos moradores nessa condição.
Entre as concentrações urbanas, Sertãozinho (SP) alcançou 99,6%, Uberaba (MG), 99,4%, Birigui (SP) e São Carlos (SP), 99,2%. Na outra ponta, São Bento do Sul–Rio Negrinho (SC) registrou 45,9%, Petrópolis (RJ), 51,6%, Cametá (PA), 54,2%, e Santarém (PA), 54,6%.
O caso da Região Norte exige, porém, uma leitura territorial. O próprio IBGE chama atenção para municípios cuja configuração urbana não segue o modelo tradicional de ruas, calçadas e lotes. Em Afuá, por exemplo, a circulação ocorre por passarelas e pontes, o que ajuda a explicar percentuais baixos sem necessariamente significar ausência absoluta de infraestrutura para pedestres.
Infraestrutura urbana e desigualdade
A pesquisa foi realizada em cerca de 340 mil setores censitários e alcançou 174,2 milhões de moradores, equivalentes a 86,2% dos moradores de domicílios particulares permanentes enumerados pelo Censo. Entre os setores selecionados, a cobertura dos domicílios pesquisados chegou a 99,7%.
O IBGE ressalta que as informações foram produzidas para apoiar o planejamento urbano e permitir a análise das condições de infraestrutura no entorno dos domicílios. O levantamento contempla, além das calçadas, pavimentação, iluminação pública, drenagem, pontos de ônibus, sinalização para bicicletas, arborização e rampas para cadeirantes.
O resultado mais relevante para o debate urbano, portanto, não é apenas saber onde existe calçada, mas identificar onde ela permite caminhar efetivamente com segurança e acessibilidade.
Em uma cidade caminhável, a calçada é parte da infraestrutura de mobilidade. Os dados de 2022 mostram que o Brasil avançou na presença desse elemento, mas ainda apresenta uma distância significativa entre a existência física do passeio e as condições necessárias para que ele seja utilizado por todos.
Com informações do IBGE.
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