Cidades do interior podem perder até 10,8% da renda com mudanças em benefícios sociais
Congelamentos nos reajustes de aposentadorias, pensões, BPC e Bolsa Família podem levar 2,7 milhões de pessoas à pobreza, principalmente no Norte e Nordeste
19 OUT 2026 - 09H41 • Por Wilson LopesMunicípios brasileiros fora das capitais e de suas regiões metropolitanas podem registrar uma renda agregada até 10,8% inferior à trajetória de referência em 2029, caso benefícios sociais sejam congelados em valores nominais, segundo estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (Made/FEA-USP), publicado em 17 de outubro de 2026.
A simulação indica que mudanças nas regras de reajuste de aposentadorias, pensões, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e Bolsa Família podem afetar não apenas os beneficiários, mas também o comércio, os serviços e a renda de outros moradores.
Com autoria de Luiza Nassif-Pires, Clara Brenck, Clara Saliba e Theo Diogo, o estudo "Quanto perdem as economias do interior quando os benefícios sociais deixam de crescer?" compara a continuidade do crescimento real dos benefícios observado entre 2022 e 2025 com três cenários alternativos: congelamento dos valores nominais, aplicação das taxas reais de crescimento registradas durante o governo Jair Bolsonaro e aplicação dessas taxas com a inclusão dos efeitos do Auxílio Emergencial e do Auxílio Brasil.
Os resultados são simulações condicionais, e não previsões de que as mudanças serão implementadas. A análise foi motivada pela discussão, atribuída à equipe econômica do candidato Flávio Bolsonaro, de um ajuste fiscal equivalente a cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), estimado em R$ 250 bilhões, que poderia incluir alterações nas regras de reajuste de benefícios.
Efeito sobre a economia local
No cenário de congelamento, a renda agregada dos municípios analisados ficaria 10,8% abaixo da trajetória de referência em 2029. Na hipótese de aplicação das taxas reais de crescimento observadas no governo Bolsonaro, a diferença seria de 8,4%. Já no cenário que incorpora os efeitos do Auxílio Emergencial e do Auxílio Brasil, a renda ficaria 6,8% abaixo da referência.
A trajetória de referência considera a continuidade do crescimento real dos benefícios verificado entre 2022 e 2025, durante os três primeiros anos do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
De acordo com os pesquisadores, aproximadamente um terço da diferença projetada decorre dos efeitos indiretos sobre o consumo e a atividade econômica. A redução do ritmo de crescimento dos benefícios pode diminuir as compras das famílias, afetar o faturamento do comércio e dos serviços e limitar o avanço da renda de trabalhadores e empresários que não recebem transferências públicas.
O estudo considera um multiplicador econômico de 1,81, que combina o efeito direto da renda transferida às famílias com o efeito adicional sobre a atividade econômica. As estimativas, porém, mantêm constantes outras fontes de renda, como os rendimentos do trabalho, para isolar o impacto dos benefícios.
>>Siga a Agência Cidades no Instagram
>>Siga a Agência Cidades no Facebook
Norte e Nordeste concentram os maiores impactos
As maiores diferenças em relação ao cenário de referência aparecem nos municípios do Nordeste, onde a discrepância regional chega a aproximadamente 20% no cenário de congelamento.
Na simulação baseada nas regras de reajuste observadas durante o governo Bolsonaro, o Rio Grande do Norte apresenta a maior diferença estadual: 18,5% abaixo da referência em 2029. Em seguida aparecem o Amapá, com 18,2%, e o Piauí, com 17,2%.
Nos interiores do Amazonas, de Sergipe e de Pernambuco, as perdas projetadas ficam próximas de 15%. No Ceará, no Maranhão, em Alagoas e na Bahia, variam de 10% a 13%.
Em contrapartida, as diferenças estimadas são menores em estados como Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde ficam entre 4% e 6,5% no mesmo cenário.
As estimativas dizem respeito à renda agregada dos municípios abrangidos pelo estudo, não a uma perda individual uniforme para todos os moradores.
Benefícios têm maior peso no interior
Com base nos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) Anual de 2025, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os pesquisadores identificaram que aposentadorias, pensões públicas, BPC e Bolsa Família representam uma parcela maior da renda familiar nos municípios fora das capitais e regiões metropolitanas do que nas áreas metropolitanas da maioria dos estados.
O contraste é mais evidente no Ceará. No interior cearense, os três grupos de benefícios correspondem a cerca de 40% da renda total das famílias, ante 22% nas capitais e regiões metropolitanas.
Entre as famílias de baixa renda — definidas no estudo como aquelas com renda domiciliar per capita inferior ou próxima de 1,5 vez a linha de pobreza —, a participação conjunta dos benefícios varia de 18% a quase 50% da renda, dependendo do estado.
Piauí e Ceará registram as maiores participações, próximas de 48%. Na sequência aparecem Sergipe e Rio Grande do Norte, com 46%, e Alagoas e Maranhão, com 45%.
Na outra ponta, Mato Grosso e Santa Catarina apresentam participação próxima de 18%. Mato Grosso do Sul e São Paulo registram cerca de 21%.
A composição também varia regionalmente. Em diversos estados do Norte e do Nordeste, o Bolsa Família responde por parcela expressiva da renda das famílias de baixa renda. No Sul e no Sudeste, aposentadorias e pensões têm maior peso relativo.
Simulação aponta milhões de pessoas a mais na pobreza
O relatório também reconstrói hipoteticamente a situação de 2025 para estimar o efeito de regras diferentes de reajuste entre 2022 e 2025.
Se os benefícios tivessem permanecido congelados nos valores nominais de 2022, cerca de 2,7 milhões de pessoas a mais estariam abaixo da linha de pobreza nos municípios analisados. Desse total, aproximadamente 2,4 milhões estariam em extrema pobreza.
No cenário que reproduz as taxas reais de crescimento por beneficiário observadas durante o governo Bolsonaro, sem incorporar a elevação temporária dos programas de transferência de renda em 2022, o aumento estimado seria de 1,8 milhão de pessoas na pobreza e 1,4 milhão na extrema pobreza.
Esses números não representam pessoas que efetivamente entraram na pobreza naquele período. São resultados contrafactuais: os pesquisadores alteraram os valores dos benefícios nos microdados de 2025 e mantiveram constantes os demais fatores, como a renda do trabalho, a composição familiar e o número de beneficiários.
O exercício sobre pobreza considera somente o efeito direto dos benefícios sobre a renda domiciliar. Diferentemente da projeção econômica até 2029, não incorpora os efeitos indiretos sobre consumo, emprego ou atividade local.
Ceará, Amazonas e São Paulo ilustram diferenças regionais
No cenário de congelamento, o Amazonas teria um aumento de 6,1 pontos percentuais na taxa de extrema pobreza nos municípios analisados, equivalente a aproximadamente 89 mil pessoas. No Ceará, o acréscimo seria de 5,7 pontos percentuais, ou 299 mil pessoas. Sergipe também registraria aumento de 5,7 pontos percentuais, correspondente a 75 mil pessoas.
Na taxa de pobreza, o Amazonas teria aumento de 4,6 pontos percentuais, equivalente a 67 mil pessoas. Alagoas registraria 4,4 pontos percentuais, ou 85 mil pessoas, enquanto o Amapá teria aumento de 4,3 pontos percentuais, correspondente a cerca de 8 mil pessoas.
Goiás aparece entre os estados em que o aumento estimado da pobreza seria de aproximadamente 1 ponto percentual ou menos nos dois cenários analisados. Em São Paulo, apesar da variação proporcional relativamente menor, o tamanho da população faz diferença: o estudo estima 263 mil pessoas a mais na pobreza no cenário de congelamento e 182 mil no cenário baseado nas regras do governo Bolsonaro.
Os resultados mostram que o impacto potencial depende tanto da participação dos benefícios na renda familiar quanto do tamanho da população de cada estado.
Estudo relaciona exposição econômica e mapa eleitoral
A pesquisa também compara os resultados econômicos com a variação do desempenho eleitoral de Flávio Bolsonaro em relação ao pai, Jair Bolsonaro, entre os primeiros turnos das eleições presidenciais de 2022 e 2026.
Segundo o relatório, os municípios fora das capitais e regiões metropolitanas concentraram 78% do ganho de votos bolsonaristas em relação à eleição anterior. No Ceará, o número de votos de Flávio Bolsonaro nesse recorte territorial cresceu mais de 43% em comparação com a votação do pai em 2022.
O estudo identifica uma sobreposição geográfica entre localidades nas quais o crescimento relativo dos votos foi maior e aquelas em que a renda depende mais das transferências públicas. A relação, contudo, não demonstra que os benefícios tenham determinado o voto dos eleitores.
Os autores destacam que a economia dessas localidades também depende de outros fatores, como o desempenho do agronegócio, os preços internacionais, o câmbio e as condições climáticas. O objetivo da análise é dimensionar como alterações nas regras de reajuste dos benefícios podem repercutir nas economias locais, caso sejam adotadas.
A principal conclusão é que o impacto potencial de uma mudança na política de reajustes ultrapassa os beneficiários diretos. Em municípios nos quais as transferências representam parcela significativa da renda, o ritmo de crescimento desses pagamentos também influencia o consumo e a atividade econômica.
Com informações do Made/FEA-USP.
@made_usp @fea.usp @ibgeoficial @tsejus @mdsgovbr
#BenefíciosSociais #BolsaFamília #BPC #PobrezaNoBrasil #EconomiaMunicipal #FEAUSP #JornalismoDeDados #AgênciaCidades
Acesse o estudo ‘Quanto perdem as economias do interior quando os benefícios sociais deixam de crescer? Simulações dos efeitos na renda e na pobreza’
Saiba Mais
- Pobreza reduz altura e aumenta peso de crianças brasileiras
- Brasil atingiu os menores níveis de pobreza desde 1995
- Brasil retirou 10 milhões de pessoas da pobreza extrema e saiu do Mapa da Fome da ONU