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Curas milagrosas

Agência Lupa adverte: 87,3% dos conteúdos sobre saúde são enganosos ou mentirosos

Relatório da Agência Lupa identificou, em quase 90% dos conteúdos checados, o uso de falsas autoridades científicas, alarmismo e ofertas comerciais para disseminar informações enganosas, mesmo após a pandemia

21 OUT 2026 - 10H09 • Por Wilson Lopes
O estudo descreve o uso de vídeos manipulados, anúncios pagos e conteúdos produzidos com inteligência artificial, incluindo deepfakes, para dar aparência de autenticidade a promessas de cura - Magnific
O resultado central é a continuidade de métodos de persuasão que atravessam diferentes crises sanitárias e podem ser reaproveitados para promover tanto teorias conspiratórias quanto produtos comerciais

Quase nove em cada dez alegações virais sobre saúde analisadas pela Agência Lupa foram classificadas como falsas. O levantamento, publicado em outubro de 2026 pelo Observatório Lupa com patrocínio da Afya, reuniu 764 alegações verificadas entre 2017 e 30 de junho de 2026 e identificou 667 falsidades. Os dados mostram que a desinformação sanitária persistiu após a pandemia de Covid-19, adaptou suas narrativas a outras doenças e passou a combinar, em casos recentes, vídeos manipulados, anúncios pagos e promessas comerciais de cura.

O relatório Raio-X da Desinformação em Saúde aponta que a pandemia ampliou a escala de estratégias que já circulavam no país. Entre 2020 e 2021, a Lupa analisou 452 conteúdos virais de saúde, contra 44 no período de 2017 a 2019. O volume de verificações foi aproximadamente dez vezes maior no ciclo pandêmico.

Fonte: Raio-X da Desinformação em Saúde

As principais técnicas de persuasão, porém, não surgiram com o coronavírus. A pesquisa identificou o uso de falsa autoridade médica ou científica em 21,59% das alegações falsas analisadas, seguido pela exploração do medo e da linguagem alarmista (17,09%), pela distorção de estudos e dados (15,74%) e pela promessa de soluções simples para problemas complexos (12,59%).

A apropriação da credibilidade científica ocorre quando declarações de profissionais são retiradas de contexto, conclusões de pesquisas são exageradas ou informações inexistentes são atribuídas a especialistas reais. Dessa forma, conteúdos enganosos podem adquirir aparência de legitimidade sem que médicos ou instituições tenham participado de sua produção.

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Fonte: Raio-X da Desinformação em Saúde

Vacinas continuam entre os principais alvos

A desinformação sobre vacinas e vacinação permaneceu relevante mesmo após o fim da emergência sanitária. Antes da pandemia, o tema correspondia a 9,1% das checagens de saúde da Lupa. A participação subiu para 33,2% entre 2020 e 2021 e chegou a 38,9% no período de 2022 a 2024.

Entre 2025 e junho de 2026, a proporção recuou para 20%, mas continuou acima do dobro do patamar anterior à pandemia. No conjunto do levantamento, 212 das 244 alegações sobre vacinas foram classificadas como falsas, o equivalente a 86,9%.

Depois que a Covid-19 perdeu protagonismo, parte das narrativas passou a atribuir supostos danos aos imunizantes e a divulgar métodos de “desintoxicação” do organismo. O relatório também registra a adaptação de antigas promessas de cura para outros temas, como dengue, câncer, doenças cardiovasculares, alimentação e diabetes.

Os dados permitem identificar estratégias recorrentes e mudanças nos temas explorados, além da continuidade de métodos de persuasão que atravessam diferentes crises sanitárias e podem ser reaproveitados para promover tanto teorias conspiratórias quanto produtos comerciais (Magnific)

Medo e urgência ganham espaço

No ciclo mais recente, de janeiro de 2025 a junho de 2026, o uso do medo e de mensagens alarmistas atingiu sua maior participação proporcional entre os quatro períodos examinados: 33,82% das alegações falsas analisadas nesse recorte.

A estratégia associa vacinas, tratamentos e produtos cotidianos a consequências graves, como infertilidade, câncer ou morte, sem apresentar evidências que sustentem as afirmações. Mensagens que criam sensação de urgência também podem pressionar o público a compartilhar conteúdos antes de verificar sua procedência.

A pesquisa identificou a presença de figuras públicas em 142 das 498 verificações examinadas no capítulo dedicado a atores, formatos e plataformas. Jair Bolsonaro apareceu em 11 verificações; Bill Gates e o médico Drauzio Varella, em dez cada; João Doria, em sete; e Luiz Inácio Lula da Silva, em cinco.

A associação não significa que essas pessoas tenham produzido ou endossado as falsidades. O relatório destaca que nomes, imagens e reputações podem ser usados por terceiros para conferir credibilidade a conteúdos enganosos.

Fonte: Raio-X da Desinformação em Saúde

WhatsApp tem papel central na circulação

O WhatsApp foi mencionado isoladamente em 298 das 498 verificações analisadas sobre circulação de desinformação em saúde, o equivalente a 59,8%. Em outras 53 ocorrências, apareceu associado a pelo menos outra plataforma. Somados esses registros, mais de 70% das checagens partiram de conteúdos que circularam ou foram encontrados no aplicativo.

O Facebook aparece em 126 registros, ou 25,3%, e o Instagram, em 35, ou 7%. Os dados indicam que as falsidades transitam por diferentes ambientes digitais, combinando aplicativos de mensagens, redes sociais e páginas na internet.

A Lupa ressalva que esses resultados não permitem concluir que o WhatsApp seja a origem das informações falsas ou que concentre a maior parte da desinformação em saúde publicada no país. O recebimento de pedidos de checagem pelo aplicativo também pode influenciar a composição da amostra.

O relatório identificou ainda a combinação de formatos como uma característica recorrente. Texto associado a vídeo apareceu em 139 verificações, correspondendo a 27,9% da base desse capítulo. A combinação de imagem e texto foi registrada em 103 casos, ou 20,7%.

Fonte: Raio-X da Desinformação em Saúde

Diabetes se destaca nas falsas promessas comerciais

A exploração comercial da desinformação é um dos principais alertas do levantamento. Das 18 verificações relacionadas à promoção comercial de produtos ou serviços de saúde, sete envolviam diabetes, o equivalente a 38,9%. Quatorze dos 18 casos ocorreram após 2021.

Os anúncios analisados prometiam controlar ou reverter a doença, dispensar insulina ou outros medicamentos e permitir uma alimentação sem restrições. Entre os produtos promovidos estavam suplementos, fórmulas anunciadas como naturais, supostos medicamentos e até um medidor de glicose a laser.

Em 17 dos 18 casos comerciais, o percurso do usuário terminava na oferta de um produto ou serviço. No restante, havia direcionamento para um grupo de WhatsApp, utilizado para manter contato com potenciais consumidores e apresentar publicidade.

O risco vai além do prejuízo financeiro. Em cinco casos examinados, os conteúdos comerciais sugeriam substituir tratamentos ou procedimentos comprovados. A promessa de uma solução rápida pode levar pessoas a interromper medicamentos ou deixar de buscar acompanhamento profissional.

Fonte: Raio-X da Desinformação em Saúde

Inteligência artificial amplia os desafios

Na análise dos anos mais recentes, o estudo descreve o uso de vídeos manipulados, anúncios pagos e conteúdos produzidos com inteligência artificial, incluindo deepfakes, para dar aparência de autenticidade a promessas de cura.

O relatório conclui que o combate à desinformação não deve depender apenas de desmentidos publicados depois que uma mensagem viraliza. Entre as medidas recomendadas estão o monitoramento permanente de narrativas de risco, respostas rápidas a alegações que incentivem o abandono de tratamentos, maior controle sobre anúncios enganosos e ações de educação midiática.

A pesquisa também atribui responsabilidades a governos, órgãos reguladores, plataformas digitais, profissionais de saúde e veículos jornalísticos. O objetivo é identificar falsidades antes que alcancem grandes públicos, reduzir os incentivos financeiros associados à desinformação e facilitar o acesso a informações confiáveis.

O levantamento, contudo, tem limites: a base reúne conteúdos selecionados pela Lupa e não representa toda a circulação de informações falsas no Brasil. Também não mede quantas pessoas acreditaram nas alegações nem quantas mudaram suas decisões de saúde por causa delas.

Os dados permitem identificar estratégias recorrentes e mudanças nos temas explorados, mas não estimar a prevalência nacional da desinformação. O resultado central é a continuidade de métodos de persuasão que atravessam diferentes crises sanitárias e podem ser reaproveitados para promover tanto teorias conspiratórias quanto produtos comerciais.

Com informações do Observatório Lupa.
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