Desastre no Rio Grande do Sul não foi causado apenas pelas chuvas
Além das chuvas, a tragédia foi causada por um processo histórico de construção do risco, envolvendo fatores sociais, econômicos, ambientais e institucionais acumulados ao longo do tempo
14 MAI 2026 - 10H31 • Por Fabíola Sinimbú, Agência Brasil.O estudo 'Entendendo a Construção do Risco: causas raiz do desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul', publicado pelo World Resources Institute Brasil (WRI) com a participação de pesquisadores de universidades gaúchas, detalhou as causas que resultaram na maior tragédia climática enfrentada pelo estado do Rio Grande do Sul, em 2024.
Foram 478 municípios atingidos por enchentes e enxurradas que alcançaram mais de 2,4 milhões de habitantes e resultaram na morte de 185 pessoas, além de deixarem outras 23 desaparecidas até hoje.
Após dois anos do desastre, os pesquisadores mapearam eventos gatilho, identificaram as condições inseguras, as causas raiz e as pressões dinâmicas em um diagnóstico da cadeia de produção de risco.
O documento também aponta caminhos para diminuir exposição e vulnerabilidade nas cidades brasileiras.
"Buscamos entender as fragilidades que culminaram nesse desastre e propor uma discussão sobre as decisões e políticas que vão prevenir desastres futuros e promover um desenvolvimento resiliente", explica Henrique Evers, um dos autores do estudo.
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De acordo com a coordenadora de Adaptação Urbana do WRI Brasil, Lara Caccia, o estudo dimensionou o desastre que teve como gatilho o extremo climático, mas foi resultante de um processo histórico de construção do risco, a partir de fatores sociais, econômicos e de governança.
Foram classificadas em quatro categorias as 11 causas-raiz, que se relacionam com as 20 pressões dinâmicas, gerando condições inseguras para o desastre, que, associadas, amplificaram o risco e a vulnerabilidade.
Confira as causas-raiz nas quatro categorias:
Desenvolvimento urbano e rural
- Modelo de ocupação territorial pouco resiliente
Condições físicas e ambientais
- Variabilidade do clima
- Condições geomorfológicas e hidrológicas favoráveis ao desastre
Condições socioeconômicas
- Negacionismo climático
- Desigualdade socioeconômica e concentração de riqueza
- Falta de cultura de prevenção
Governança
- Modelo de desenvolvimento que prioriza a economia sobre pautas ambientais e sociais
- Arcabouço legal negligenciado para gestão de riscos
- Falta de priorização política da agenda socioambiental
- Insuficiência da governança para lidar com a questão climática entre os níveis de gestão
- Dualidade entre público e privado
Na prática, uma causa raiz como modelo de ocupação territorial pouco resiliente gera pressões dinâmicas como expansão urbana descontrolada, especulação imobiliária ou desigualdades socioespaciais, por exemplo.
"Esses fatores, comuns a outros cenários de desastres climáticos, destacam, sobretudo, o papel das decisões humanas e institucionais em gerar e disseminar socialmente o risco ao longo do tempo", destaca o relatório.
Para os pesquisadores, o fato de muitos desses riscos estarem presentes em todos os municípios afetados reforça a necessidade de articulação e integração multirregional, além das capacidades municipais, com a atuação de instâncias que podem, por exemplo, ser associadas às bacias hidrográficas.
A partir desse mapeamento, os pesquisadores concluíram que, para tornar cidades mais resilientes, é preciso ir além dos investimentos em infraestrutura, sendo necessário o fortalecimento da governança em diferentes níveis de governo, articulação e integração do planejamento, consolidação de uma cultura de prevenção e priorização de grupos vulnerabilizados.
"Se o risco foi construído historicamente, a resiliência também pode ser construída por meio de novas escolhas de desenvolvimento", avalia Lara Caccia.
Com informações da Agência Brasil.
@wribrasil @governo_rs
Acesse o estudo 'Entendendo a Construção do Risco: causas raiz do desastre climático de 2024 no Rio Grande do Sul'>>
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