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8.379 cachaças

No Brasil, 844 municípios produzem cachaça

Cadeia produtiva da cachaça cresce 61% em oito anos e o Brasil chega a 1.538 produtores registrados

3 AGO 2026 - 15H02 • Por Wilson Lopes
A produção de cachaça é tão importante na cidade baiana de Abaíra, na região da Chapada Diamantina, que o local tem um monumento de 3,5 metros de altura na praça, como forma de homenagear a tradição bicentenária - Prefeitura de Abaíra (BA)

Anuário do Ministério da Agricultura mostra avanço da formalização e das exportações; Minas Gerais concentra mais de um terço dos estabelecimentos, Salinas lidera entre as cidades e Paraguai e Estados Unidos são os principais mercados externos

O mercado formal de cachaça ganhou força no Brasil em 2025, com crescimento expressivo do número de estabelecimentos e produtos registrados e recuperação das exportações. O movimento, porém, ocorreu simultaneamente a uma redução do volume produzido. 

O país encerrou o ano com 1.538 estabelecimentos elaboradores registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), alta de 21,5% em relação a 2024, enquanto a produção declarada caiu 15,77%, para aproximadamente 234,5 milhões de litros.

Os números fazem parte do Anuário da Cachaça 2026, elaborado pela Secretaria de Defesa Agropecuária do Mapa. O levantamento utiliza registros do Sipeagro, dados de comércio exterior do Comex Stat e Portal Único, informações de emprego do Novo Caged e as declarações anuais de produção apresentadas pelos estabelecimentos registrados.

O crescimento de 21,5% no número de estabelecimentos significou a incorporação de 272 unidades em apenas um ano. Foi o maior avanço absoluto e relativo da série apresentada pelo anuário. Desde 2018, o número de estabelecimentos registrados cresceu 61,7%.

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Minas Gerais concentra 36,7% dos estabelecimentos

A geografia da cachaça continua fortemente concentrada no Sudeste. A região reúne 961 estabelecimentos, equivalentes a 62,5% do total brasileiro. Minas Gerais, isoladamente, possui 564, ou 36,7%, de todos os estabelecimentos registrados no país. São Paulo aparece em seguida, com 230, enquanto o Rio Grande do Sul possui 106.

Uma das mudanças relevantes de 2025 ocorreu no Sul. Com crescimento de 51,4%, a região chegou a 277 estabelecimentos e ultrapassou o Nordeste, que possui 211, tornando-se a segunda região brasileira em número de unidades registradas.

Em crescimento proporcional, os maiores avanços ocorreram em bases menores. Sergipe passou de um para três estabelecimentos, expansão de 200%, enquanto o Distrito Federal passou de quatro para dez, alta de 150%. O Acre cresceu 100%. Maranhão e Mato Grosso foram os únicos estados que perderam estabelecimentos. Amapá e Roraima permanecem sem unidades elaboradoras de cachaça registradas no Mapa.

A presença da atividade também ficou mais disseminada territorialmente. Há pelo menos um estabelecimento em 844 municípios, contra 735 em 2024, aumento de 14,8%. Isso significa que a produção formal está presente em 15,2% dos municípios brasileiros.

O Espírito Santo apresenta a maior dispersão territorial: 41 de seus 78 municípios, ou 52,6%, possuem pelo menos um estabelecimento. Minas Gerais, por sua vez, possui o maior número absoluto de municípios produtores: são 274 cidades, correspondentes a 32,1% dos municípios mineiros.

Salinas volta ao topo entre as cidades

Entre os municípios, Salinas (MG) recuperou a liderança nacional em número de estabelecimentos, com 27, seguida por Alto Rio Doce (MG), com 25, e Viçosa do Ceará (CE), com 24. Na sequência aparecem Rio Espera (MG), com 17; Areia (PB), com 15; São Roque do Canaã (ES), com 13; e Luiz Alves (SC), com 12.

Brasília e São Paulo entraram no grupo de cidades com pelo menos dez estabelecimentos, ambas com dez.

Outro indicador utilizado pelo estudo é a chamada “densidade cachaceira”, que relaciona população e quantidade de estabelecimentos. Minas Gerais lidera entre os estados, com um estabelecimento para cada 37.806 habitantes. A média brasileira é de um para cada 138.221 habitantes, uma melhora de 17,7% em relação a 2024.

Entre as cidades, Rio Espera (MG) registra a maior densidade do país: um estabelecimento para cada 322 habitantes. Dos 22 municípios brasileiros com até 1.500 habitantes por estabelecimento, 15 estão em Minas Gerais, três em Santa Catarina, três no Rio Grande do Sul e um no Espírito Santo.

O Brasil alcançou 8.379 cachaças registradas, aumento de 16%, equivalente a 1.156 novos registros em relação a 2024 (Imagem gerado por IA)

País já tem 8.379 cachaças e mais de 11 mil marcas registradas

O crescimento da formalização também aparece no número de produtos. O Brasil alcançou 8.379 cachaças registradas, aumento de 16%, equivalente a 1.156 novos registros em relação a 2024.

Minas Gerais responde por 2.922 produtos, ou 34,9% do total nacional. A média brasileira é de 5,4 cachaças registradas por estabelecimento.

Quando são consideradas as marcas comerciais associadas aos produtos, o universo é ainda maior: o Mapa contabilizou 11.131 marcas, avanço de 16,8% sobre as 9.532 existentes no ano anterior. Minas Gerais concentra 4.043 marcas. Um mesmo produto registrado pode contemplar mais de uma marca comercial.

Salinas também lidera o ranking municipal de produtos, com 319 cachaças registradas, seguida por Areia (PB), com 139; Ivoti (RS), com 133; Viçosa do Ceará (CE), com 109; e Itaverava (MG), com 91.

O levantamento identifica 18 municípios com pelo menos 50 registros de cachaça, o dobro de 2024. Dracena (SP) possui a maior média: 50 produtos registrados por estabelecimento. Alexânia (GO) aparece em 16º lugar nacional, com 51 cachaças registradas, média de 12,8 por estabelecimento.

Produção cai para 234,5 milhões de litros

O aumento do número de empresas e produtos não se refletiu em maior volume produzido. Os estabelecimentos declararam 234.477.116,52 litros de cachaça em 2025, redução de 15,77% sobre 2024.

O Sudeste respondeu por 150,37 milhões de litros, ou 64,13% da produção nacional. Nordeste e Sul aparecem praticamente empatados, com 41,84 milhões e 41,60 milhões de litros, respectivamente.

O Centro-Oeste produziu 635,7 mil litros e foi a única região que aumentou a produção, com avanço de 11,12%. O Norte registrou somente 33,6 mil litros.

Outro dado ambiental e produtivo destacado pelo levantamento é a predominância da cana-de-açúcar crua. Ela respondeu por 81,60% da produção, enquanto 18,40%, ou 43,14 milhões de litros, vieram de cana queimada. O volume produzido com cana queimada recuou 30,02% em um ano.

Também houve alteração importante na abrangência comercial declarada pelos produtores. A categoria destinada simultaneamente aos mercados nacional e internacional chegou a 101,57 milhões de litros, ou 43,32% da produção, crescimento de 57,63%.

Exportações crescem quase 20% e chegam a 76 países

No comércio exterior, 2025 marcou uma recuperação. O Brasil exportou 7,96 milhões de litros, aumento de 19,4%, movimentando US$ 17,07 milhões, crescimento de 17,4%.

A cachaça chegou a 76 países, igualando a maior dispersão internacional registrada na série do anuário. Apesar da recuperação, o volume ainda permaneceu abaixo de 2022, quando foram embarcados 9,32 milhões de litros, e de 2023, com 8,62 milhões.

O Paraguai é o principal destino em quantidade, com 1,34 milhão de litros, equivalentes a 16,9% das exportações. Depois aparecem Alemanha, com 1,07 milhão; Estados Unidos, com 955,2 mil; Cuba, com 726,1 mil; Portugal, com 684,5 mil; e França, com 575,7 mil litros.

Quando o critério é faturamento, a liderança muda. Os Estados Unidos compraram US$ 4,12 milhões, praticamente 24,1% de toda a receita externa. Paraguai aparece em segundo lugar, com US$ 1,55 milhão, seguido de Portugal, US$ 1,53 milhão; Alemanha, US$ 1,24 milhão; e Cuba, US$ 987,5 mil.

O preço médio das exportações, entretanto, recuou de US$ 2,18 para US$ 2,15 por litro, queda de aproximadamente 1,4%. Entre os dois maiores parceiros, a diferença é significativa: o Paraguai pagou em média US$ 1,15 por litro, enquanto os Estados Unidos pagaram US$ 4,31.

Para o presidente do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), Vicente Bastos, a exportação da bebida “continua em um patamar pouco expressivo, especialmente quando consideramos o tamanho do setor e o mercado internacional de destilados”, conforme declara em nota à imprensa.

A nota do Ibrac assinala que “apesar do crescimento no número de estabelecimentos, produtos, marcas e exportações, o Anuário registra que o volume de produção declarado em 2025 foi de 234,48 milhões de litros, redução de 15,77% em relação ao ano anterior.”

Emprego fica praticamente estável

A fabricação de aguardente de cana-de-açúcar manteve 6.232 empregos diretos em estoque mensal em 2025, equivalentes a 4,4% dos 142.394 empregos da fabricação de bebidas.

O resultado representa uma pequena retração de 0,06%, ou quatro postos a menos que no ano anterior. Apesar da estabilidade recente, entre 2020 e 2025 o estoque de empregos da atividade acumulou crescimento de 10,67%.

O Sudeste concentra 2.890 empregos, ou 46,4% do total, seguido pelo Nordeste, com 2.521. O anuário ressalta que esses números correspondem apenas aos empregos diretos registrados no CNAE de fabricação de aguardente de cana-de-açúcar e não incluem os postos indiretos gerados por fornecedores, distribuição, supermercados, bares, restaurantes e serviços relacionados.

Caipirinha industrializada movimenta 56 estabelecimentos

O anuário também dimensiona um mercado derivado da cachaça: a caipirinha pronta para consumo. Em 2025, havia 56 estabelecimentos e 86 produtos registrados, distribuídos por 12 unidades da Federação: Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Juntas, essas empresas declararam produção de 34.481,65 litros de caipirinha industrializada.

Em um único ano, o Brasil ganhou 272 estabelecimentos registrados, mais de 1,1 mil registros de produtos e aproximadamente 1,6 mil marcas adicionais (Freepik)

O que o estudo revela

Os indicadores traçam um cenário de expansão estrutural e formalização da cadeia produtiva, mas com retração conjuntural da produção. Em um único ano, o Brasil ganhou 272 estabelecimentos registrados, mais de 1,1 mil registros de produtos e aproximadamente 1,6 mil marcas adicionais. A atividade também se espalhou para mais municípios e recuperou espaço no comércio internacional.

Ao mesmo tempo, a queda de 15,77% na produção e a estabilidade do emprego mostram que o aumento da base formal não significou, pelo menos em 2025, expansão equivalente do volume efetivamente produzido. No exterior, o crescimento das vendas ocorreu acompanhado de pequena redução no preço médio por litro.

O mapa territorial também permanece bastante desigual. Minas Gerais é o grande centro brasileiro da cachaça, liderando em estabelecimentos, produtos, marcas, municípios produtores e densidade cachaceira. Salinas confirma essa centralidade no nível municipal, enquanto o avanço de estados do Sul mostra uma diversificação gradual da produção formal pelo território.

Para o Mapa, a ampliação e divulgação dessas informações permite subsidiar políticas públicas e iniciativas privadas destinadas ao desenvolvimento, à valorização e ao fortalecimento da cadeia. O próprio anuário aponta como prioridades institucionais temas como qualidade, rastreabilidade, agregação de valor, inovação, certificação e internacionalização da bebida brasileira.

Consumo apenas de produtos registrados no ministério

O Mapa ressalta que é ilegal produzir e comercializar aguardente sem autorização do ministério. Também orienta que a população consuma apenas cachaças que tenham no rótulo o número do registro no ministério.

Produtos não registrados no Mapa podem ter origem em fabricação clandestina e ser falsificados, como aconteceu entre setembro e dezembro de 2025 nas dezenas de casos de mistura e adulteração de bebidas destiladas com metanol.

A intoxicação pelo consumo de bebidas adulteradas pode levar ao óbito. Por isso, sua ingestão é considerada uma emergência médica grave: não pode ser tratada em casa. O consumo pode causar cegueira irreversível, falência dos rins e morte se o tratamento não for iniciado nas primeiras horas.

Para o Ministério da Saúde, não existe quantidade segura para o consumo de qualquer bebida alcóolica. Em caso de dependência, há tratamento gratuito no Sistema Único de Saúde (SUS), nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS AD) e nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).

Dia Nacional da Cachaça

O Dia Nacional da Cachaça é celebrado em 13 de setembro. A data remete a 13 de setembro de 1661, relacionada ao fim da chamada Revolta da Cachaça e à liberação da produção e comercialização da bebida pela Coroa Portuguesa.

Mas não existe uma lei federal em vigor que institua oficialmente a data. O que existe é o Projeto de Lei nº 5.428/2009, do então deputado Valdir Colatto (SC), que propôs instituir o Dia Nacional da Cachaça em 13 de setembro. A Câmara aprovou a proposta e ela chegou ao Senado como PLC nº 173/2017.

O texto era bem objetivo: instituía o Dia Nacional da Cachaça, comemorado anualmente em 13 de setembro. Porém, o projeto não virou lei. No Senado, depois de passar pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte, a matéria acabou arquivada em 21 de dezembro de 2022, ao final da legislatura.

A data de 13 de setembro, portanto, é uma comemoração consolidada pelo setor — proposta originalmente com participação do Ibrac. Em 2026, a Comissão de Educação e Cultura do Senado aprovou requerimento para realização de audiência pública destinada a rediscutir a instituição do Dia Nacional da Cachaça Brasileira.

Com informações do Ministério da Agricultura e Pecuária e da Agência Brasil.
@mapa_brasil @ibraccachaca

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