Brasil mantém 21 vacinas gratuitas enquanto EUA recomendam 11 para todas as crianças
Contraste entre as políticas de imunização dos dois países evidencia modelos diferentes de proteção infantil, com o Brasil privilegiando a vacinação gratuita, enquanto nos Estados Unidos a dose de vacina contra HPV pode alcançar US$ 328,24 (R$ 1.967)
11 AGO 2026 - 10H26 • Por Wilson LopesBrasil e Estados Unidos passaram a adotar, em agosto de 2026, estratégias distintas para a vacinação infantil. Enquanto o Brasil mantém um dos programas públicos de imunização mais abrangentes, com 21 vacinas previstas no Calendário Nacional de Vacinação e oferecidas pela rede pública do Sistema Único de Saúde (SUS), os Estados Unidos reduziram de 18 para 11 o número de doenças para as quais o governo federal recomenda vacinação para todas as crianças.
A mudança norte-americana foi determinada pelo presidente Donald Trump em 10 de agosto e estabelece ainda categorias específicas para grupos de maior risco e para decisões tomadas individualmente entre médicos e famílias.
No Brasil, as 21 vacinas do calendário nacional estão distribuídas ao longo de diferentes fases da vida, da gestação ao envelhecimento. Entre os imunizantes estão BCG, hepatite B, penta, poliomielite, rotavírus, pneumocócicas 20 e 10-valente, meningocócicas C e ACWY, influenza, covid-19, febre amarela, tríplice viral, DTP, varicela, hepatite A, HPV, dengue, dTpa e vacina contra o vírus sincicial respiratório. A lista, portanto, não significa que uma criança receba as 21 vacinas: o calendário define quais imunizantes devem ser aplicados de acordo com a idade, histórico vacinal e condições específicas.
A abrangência da política brasileira aparece também na Campanha Nacional de Multivacinação 2026, iniciada em agosto e que segue até 1º de setembro, com o ‘Dia D’ marcado para 22 de agosto. A mobilização oferece 20 imunizantes e tem como público crianças e adolescentes menores de 15 anos. O objetivo é atualizar as cadernetas, recuperar esquemas atrasados e elevar as coberturas vacinais. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 94,8 milhões de doses das vacinas previstas no Calendário Nacional já haviam sido aplicadas em 2026 até a divulgação da campanha.
A campanha também incorpora novidades importantes. É a primeira edição da multivacinação brasileira com a vacina pneumocócica 20-valente, incorporada ao calendário em 2026 para ampliar a proteção contra doenças provocadas pelo pneumococo, incluindo pneumonias e meningites. A estratégia também contempla a vacina contra a dengue para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos e a vacinação contra a covid-19 conforme as indicações específicas.
Outro indicador da intensidade da política brasileira é a resposta ao sarampo. Em 2026, mais de 7,2 milhões de doses da tríplice viral já haviam sido distribuídas aos estados e municípios, das quais cerca de 2,9 milhões haviam sido aplicadas. Em São Paulo, 3,2 milhões de doses foram destinadas ao reforço do abastecimento. A intensificação ocorre depois do registro de casos relacionados à importação do vírus, levando o Ministério da Saúde a ampliar a oferta da vacina para pessoas de 6 meses a 59 anos nos municípios de São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo.
A estratégia brasileira também tem respaldo legal. O Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que é obrigatória a vacinação de crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias. Assim, no Brasil, a vacinação não é apenas uma oferta do sistema público: existe uma obrigação legal vinculada às recomendações das autoridades de saúde.
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Política federal dos EUA recomenda que todas as crianças sejam imunizadas contra 11 doenças
Nos Estados Unidos, a mudança anunciada por Trump segue direção diferente. A nova política federal recomenda que todas as crianças sejam imunizadas contra 11 doenças: sarampo, caxumba, rubéola, difteria, tétano, coqueluche, poliomielite, Haemophilus influenzae tipo B, doença pneumocócica, HPV e varicela. A própria Casa Branca afirma que esse número representa uma redução em relação às 18 doenças que estavam contempladas nas recomendações do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) em 2024. O CDC é uma agência federal de saúde pública dos Estados Unidos, ligada ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS).
A redução, porém, não significa que as demais vacinas tenham sido simplesmente eliminadas dos Estados Unidos. A nova política coloca imunizações contra vírus sincicial respiratório, hepatite A, hepatite B, meningococo B, meningococo ACWY e dengue entre as destinadas a determinados grupos de maior risco ou populações específicas. Hepatite A, hepatite B, rotavírus, doenças meningocócicas, influenza e covid-19 também aparecem na categoria de decisões clínicas compartilhadas, em que a indicação deve ser discutida entre o profissional de saúde e a família.
Outro ponto importante é que a decisão federal norte-americana não equivale a uma lista nacional de 11 vacinas obrigatórias. A própria ordem presidencial orienta estados e territórios a avaliar suas respectivas leis e regulamentos sobre exigências de imunização para matrícula e frequência escolar. Portanto, nos Estados Unidos, a obrigatoriedade para frequentar escolas continua dependendo, em grande medida, das regras de cada estado.
No Brasil, vacinas são ofertadas pela rede pública; nos EUA, só para elegíveis
A comparação também precisa considerar o custo. No Brasil, as vacinas previstas no calendário são ofertadas pela rede pública do SUS, cujo acesso aos serviços de saúde é universal e gratuito. Nos Estados Unidos, existe o programa federal Vaccines for Children (VFC), que oferece vacinas sem custo para crianças elegíveis. O programa atende menores de 19 anos que, entre outros critérios, sejam não segurados, estejam no Medicaid, sejam indígenas americanos ou nativos do Alasca ou estejam em determinadas situações de subseguro.
Fora desses mecanismos de cobertura, entretanto, o custo das vacinas pode ser elevado. A tabela de preços do CDC para abril de 2026 registra, por exemplo, preço privado de referência de US$ 328,24 por dose para a vacina contra HPV Gardasil 9; US$ 299,25 para a pneumocócica 20-valente; US$ 191,37 para a vacina contra varicela; entre US$ 95,74 e US$ 97,99 para a tríplice viral; US$ 47,81 para a vacina contra poliomielite; e entre US$ 30,69 e US$ 31,52 para algumas apresentações da DTaP. Esses valores são referências do setor privado por dose e não representam necessariamente o preço final pago pelo paciente, que pode variar conforme seguro, estabelecimento e outros custos.
A existência do VFC impede, portanto, uma conclusão simplista de que “nos Estados Unidos as vacinas são pagas”. Para as crianças elegíveis, as vacinas fornecidas por prestadores participantes são gratuitas, embora o profissional possa cobrar uma taxa de administração dentro dos limites estabelecidos pelo estado. O CDC informa ainda que há mais de 37 mil prestadores participantes do programa em todo o país.
Estrutura nacional de vacinação X decisão clínica compartilhada
O contraste entre os dois países fica mais evidente quando se observa a filosofia de cada política. O Brasil trabalha com uma estrutura nacional de vacinação, financiamento público e campanhas de busca ativa para atualizar cadernetas e elevar a cobertura coletiva. Em 2026, essa política ganhou novos elementos, como a pneumocócica 20-valente, o segundo reforço da vacina inativada contra poliomielite aos quatro anos e a intensificação da vacinação contra o sarampo em municípios paulistas.
Nos Estados Unidos, a mudança de agosto de 2026 prioriza uma recomendação federal mais restrita, maior participação dos pais e médicos na decisão sobre determinadas vacinas e maior diferenciação entre vacinação universal, vacinação para grupos de risco e decisão clínica compartilhada. A própria Casa Branca apresenta a mudança como uma forma de ampliar as opções dos pais e aproximar as recomendações norte-americanas das práticas adotadas em outros países desenvolvidos.
A conclusão da comparação, portanto, não é que um país tenha “21 vacinas contra 11” de forma direta. O Brasil possui 21 tipos de vacinas em seu calendário nacional, enquanto os Estados Unidos passaram a recomendar universalmente a vacinação contra 11 doenças. São medidas diferentes e não diretamente equivalentes. A diferença mais relevante está no desenho da política pública: o Brasil mantém uma estratégia nacional ampla, gratuita e baseada na expansão da cobertura coletiva; os Estados Unidos adotaram uma estratégia federal mais seletiva, com parte das vacinas direcionada a grupos específicos ou sujeita à decisão clínica individual.
Outro resultado importante da análise é que o fator econômico também produz diferenças no acesso. No Brasil, a vacina prevista no calendário do SUS é oferecida gratuitamente ao usuário. Nos Estados Unidos, há uma combinação de seguro privado, programas públicos e pagamento direto, com o VFC garantindo acesso sem custo para crianças elegíveis, enquanto os preços privados de referência de algumas vacinas podem superar US$ 300 por dose.
O momento também chama atenção para o papel da cobertura vacinal no controle de doenças transmissíveis. Enquanto o Brasil amplia a mobilização contra sarampo, pneumonias, meningites, poliomielite, dengue e outras doenças preveníveis, os Estados Unidos reduzem o conjunto de imunizações consideradas universais pelo governo federal. A experiência brasileira em 2026 mostra que a política de vacinação continua sendo tratada como instrumento de proteção individual e coletiva, especialmente diante do risco de reintrodução de doenças como o sarampo e a poliomielite.
De fato, Brasil e Estados Unidos estão seguindo caminhos diferentes em um mesmo tema: enquanto o Brasil aposta na ampliação e na universalização da oferta pública, os Estados Unidos caminham para uma maior individualização de parte das decisões sobre vacinação infantil.
Com informações do Ministério da Saúde.
@minsaude
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