36,5% dos idosos brasileiros perderam todos os dentes
Estudo aponta que o problema está diretamente relacionado às desigualdades sociais e às condições de oferta de serviços de saúde bucal
14 AGO 2026 - 09H01 • Por Wilson LopesMais de um em cada três brasileiros com idade entre 65 e 74 anos perdeu todos os dentes, revela um estudo publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia. A pesquisa, intitulada ‘O silêncio dos sorrisos perdidos: análise multinível do edentulismo em pessoas idosas nas interfaces contextuais e individuais no Brasil (SB Brasil 2023)’, analisou 9.745 idosos distribuídos pelas 27 unidades da Federação e identificou prevalência de edentulismo — perda total dos dentes naturais — de 36,5%.
O trabalho mostra que o problema está diretamente relacionado às desigualdades sociais e às condições de oferta de serviços de saúde bucal.
O levantamento utilizou dados do ‘SB Brasil 2023’, pesquisa nacional que combina entrevistas, questionários e exames clínicos padronizados. A análise considerou características individuais dos participantes e fatores relacionados aos municípios onde vivem, permitindo avaliar como as condições socioeconômicas e a estrutura de atendimento odontológico interferem na perda total dos dentes.
A amostra contemplou pessoas de 65 a 74 anos em todas as 27 unidades da Federação. O estudo, portanto, tem abrangência nacional, mas não apresenta, em seu resumo publicado, um ranking de estados ou cidades com as maiores e menores prevalências de edentulismo.
Um dos resultados mais expressivos aparece na relação entre escolaridade e perda total dos dentes. Pessoas com baixa escolaridade apresentaram 4,25 vezes mais chances de serem edêntulas em comparação com os grupos de maior escolaridade, mantendo-se a associação mesmo após o ajuste estatístico para outros fatores. O resultado reforça a relação entre trajetória educacional, condições socioeconômicas e saúde bucal ao longo da vida.
A idade também aparece como fator relevante. Entre os participantes com idade igual ou superior à mediana de 69 anos, a chance de perda total dos dentes foi 74% maior do que entre os mais jovens da faixa de 65 a 74 anos, com odds ratio de 1,74. As mulheres também apresentaram maior probabilidade de edentulismo: o odds ratio foi de 1,24, indicando uma chance 24% superior em relação aos homens, depois dos ajustes realizados pelos pesquisadores.
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O estudo encontrou ainda uma associação importante entre privação socioeconômica e perda dentária. O Índice Brasileiro de Privação, utilizado para medir as condições sociais dos municípios, manteve associação positiva com o edentulismo. No grupo situado no quinto quintil, correspondente ao maior nível de privação, a chance de perda total dos dentes foi 92% maior, com odds ratio (razão de possibilidade) de 1,92. O resultado indica que a saúde bucal dos idosos está relacionada não apenas às características individuais, mas também ao contexto social em que vivem.
A estrutura disponível para atendimento odontológico também apresentou associação com o problema. Municípios com maior número de cirurgiões-dentistas em relação à população registraram efeito protetor: a presença de mais profissionais por grupo de 3.500 habitantes esteve associada à redução da chance de edentulismo, com odds ratio de 0,96. Embora o efeito individual pareça pequeno, a associação foi estatisticamente significativa, com p<0,001.
A ausência de serviços especializados também foi relacionada à maior prevalência de perda total dos dentes. Nos municípios sem Centros de Especialidades Odontológicas (CEO), a chance de edentulismo foi 25% maior, com odds ratio de 1,25. Nos municípios sem Laboratórios Regionais de Prótese Dentária (LRPD), a chance foi 24% maior, com odds ratio de 1,24. Ambos os resultados apresentaram significância estatística, com p=0,03.
Manifestação de desigualdades sociais e estruturais
Os resultados ajudam a explicar por que a perda dentária não deve ser tratada apenas como consequência natural do envelhecimento. Para os pesquisadores, o edentulismo é uma manifestação de desigualdades sociais e estruturais em saúde bucal. A combinação de baixa escolaridade, maior privação socioeconômica, idade avançada e menor disponibilidade de profissionais e serviços especializados aumenta a vulnerabilidade dos idosos à perda completa dos dentes.
O estudo também chama atenção para a dimensão territorial do problema. A pesquisa foi realizada em municípios de todas as regiões brasileiras e considerou indicadores da estrutura local de saúde bucal. Entretanto, o artigo não estabelece, nos resultados disponibilizados no resumo, uma classificação individual de municípios ou estados. Assim, não é possível apontar, com base neste estudo específico, qual cidade ou qual unidade da Federação lidera ou apresenta a menor taxa de edentulismo sem recorrer aos microdados ou às tabelas completas do SB Brasil 2023.
Apesar do cenário ainda preocupante, o percentual encontrado em 2023 representa uma melhora em relação às pesquisas anteriores. A evolução indica redução importante do edentulismo entre os idosos brasileiros ao longo dos últimos anos, mas o patamar atual ainda significa que aproximadamente 36 em cada 100 pessoas de 65 a 74 anos vivem sem nenhum dente natural. O desafio, portanto, passa a ser não apenas reduzir a ocorrência de novas perdas, mas ampliar a prevenção, o tratamento e a reabilitação das pessoas que já sofreram perdas dentárias.
Para os autores, a resposta exige o fortalecimento da rede pública de saúde bucal, ampliação da assistência odontológica e redução das desigualdades que determinam o acesso aos cuidados. A conclusão central é que perder todos os dentes não é simplesmente uma consequência inevitável da idade: o fenômeno reflete condições sociais, econômicas, educacionais e territoriais acumuladas ao longo da vida. O estudo defende, por isso, políticas públicas capazes de ampliar a oferta de atendimento odontológico e fortalecer os serviços especializados, especialmente nos territórios socialmente mais vulneráveis.
O trabalho foi publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia, volume 29, suplemento 1, em 2026, e teve como autores Rafael da Silveira MoreiraI, Camila Caroline da Silva, Lucas Fernando Rodrigues dos Santos, Tainá Faustino Mafra e Herika de Arruda Mauricio.
@abrascooficial