Logo Agência Cidades

69% de possibilidade

NOAA prevê El Niño mais intenso desde 1950

Fenômeno tem 69% de chance de atingir nível histórico entre outubro e dezembro de 2026, segundo o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos

14 AGO 2026 - 09H52 • Por Wilson Lopes
Trator trabalha no preparo da terra em fazenda de cultivo de soja na região da Batavo, em Balsas, no Maranhão, região que está entre as áreas com maior risco de seca e calor - Fernando Frazão/ABr

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou para mais de 90% a probabilidade de que o El Niño alcance intensidade “muito forte” durante o outono e o inverno de 2026/2027 no Hemisfério Norte. Na atualização divulgada em 13 de agosto pelo Centro de Previsão Climática (CPC), a agência também estimou em 69% a possibilidade de que, entre outubro e dezembro de 2026, o fenômeno atinja um nível considerado histórico, superando a intensidade dos eventos registrados desde 1950. A projeção considera um Relative Oceanic Niño Index (RONI) de três meses igual ou superior a +2,5 °C.

O alerta representa uma forte mudança em relação à previsão anterior da NOAA. Em julho, a agência estimava em 81% a probabilidade de um El Niño muito forte no trimestre outubro-dezembro. Agora, a projeção subiu para 95% para o mesmo período. O CPC afirma que o fenômeno vem se fortalecendo rapidamente, com as temperaturas da superfície do mar no Pacífico equatorial oriental já apresentando anomalias superiores a 2 °C.

Os dados também mostram que o cenário ainda está em evolução. Em julho, a anomalia registrada na região Niño 3.4, principal referência para o monitoramento do El Niño, foi de aproximadamente +1,4 °C. Portanto, o dado de +1,8 °C citado em algumas publicações não corresponde ao índice Niño 3.4 de julho divulgado pela NOAA. O centro de previsão projeta, porém, uma intensificação significativa ao longo dos próximos meses, justamente quando os efeitos atmosféricos do fenômeno tendem a ganhar maior expressão.

A possível intensidade histórica do El Niño aumenta a preocupação com agricultura, disponibilidade de água, energia, transportes e preços de alimentos em diferentes partes do mundo. Os efeitos, contudo, não serão iguais em todas as regiões. Na América do Sul, o padrão climático associado ao fenômeno tende a favorecer aumento das chuvas no sul do continente, enquanto eleva o risco de calor e estiagem em áreas do norte e oeste da América do Sul. Argentina, Paraguai, Uruguai e o Sul do Brasil podem registrar condições mais úmidas, com possibilidade de benefícios para algumas lavouras, mas também de enchentes, erosão do solo, doenças fúngicas e danos à infraestrutura.

>>Siga a Agência Cidades no Instagram
>>Siga a Agência Cidades no Facebook

No levantamento de julho, a produção brasileira de trigo foi estimada em 6,4 milhões de toneladas, queda de 18,6% em relação a 2025 e redução de 4,3% em relação à estimativa anterior (Prefeitura Içara/SC)

No Brasil, os efeitos potenciais são especialmente relevantes por causa do peso do país na produção e exportação mundial de alimentos. Segundo análises recentes, o Norte e o oeste brasileiro estão entre as áreas com maior risco de seca e calor, situação que pode afetar culturas agrícolas e a navegação dos rios amazônicos. Ao mesmo tempo, o Sul do país pode enfrentar excesso de chuvas. O comportamento desigual do clima significa que o mesmo fenômeno pode favorecer determinadas regiões agrícolas e prejudicar outras.

Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já mostram pressão sobre algumas culturas. No levantamento de julho, a produção brasileira de trigo foi estimada em 6,4 milhões de toneladas, queda de 18,6% em relação a 2025 e redução de 4,3% em relação à estimativa anterior. O resultado reforça a preocupação com as condições climáticas para as lavouras de inverno, embora a redução da produção não possa ser atribuída exclusivamente ao El Niño.

Na Índia, o risco também é significativo. As chuvas da monção estavam 12% abaixo da média até agosto, enquanto algumas áreas apresentavam déficits de até 34%. Estados como Andhra Pradesh estão entre os mais afetados. A monção responde por cerca de 70% da precipitação anual da Índia e é fundamental para a agricultura, especialmente porque quase metade das áreas cultivadas do país não possui irrigação. A expectativa de enfraquecimento das chuvas nas regiões oeste, central e sul aumenta a vulnerabilidade de lavouras como algodão, soja, milho e leguminosas.

Na América Latina, Peru e Chile também aparecem entre os países que podem enfrentar impactos importantes. O Peru pode registrar aumento de chuvas e riscos de enchentes, enquanto o Chile enfrenta possibilidade de déficit hídrico em algumas regiões. O setor pesqueiro peruano já sente alterações na distribuição dos peixes, que tendem a buscar águas mais profundas quando as condições oceânicas se modificam. Na América Central, a redução das chuvas também representa ameaça à disponibilidade de água e à agricultura.

Outro ponto de atenção é o Canal do Panamá. A perspectiva de condições mais secas aumenta a pressão sobre os reservatórios que abastecem o sistema de navegação e pode contribuir para restrições ao tráfego de embarcações e aumento dos custos de transporte internacional. O impacto é particularmente relevante porque o canal é uma das principais rotas mundiais para o comércio de commodities, energia e produtos manufaturados.

Apesar do alerta, especialistas ressaltam que um El Niño excepcionalmente forte não significa automaticamente que todos os impactos climáticos serão igualmente extremos. A intensidade do fenômeno é apenas um dos fatores que determinam chuva, temperatura, seca e tempestades em cada localidade. Além disso, a agricultura mundial dispõe atualmente de estoques de grãos elevados, variedades mais resistentes à seca, sistemas de irrigação, agricultura de precisão e ferramentas de previsão climática que podem reduzir parte dos efeitos sobre a oferta de alimentos.

A classificação oficial de intensidade é baseada no RONI e nas médias móveis de três meses. No relatório de agosto, a agência destaca que o El Niño está em processo de intensificação e projeta níveis muito fortes para os próximos meses.

A própria tabela oficial de agosto mostra:

A principal conclusão da atualização da NOAA é, portanto, que o planeta entrou em uma fase de alto risco climático para o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. O El Niño está se intensificando e há 95% de probabilidade de que seja muito forte entre outubro e dezembro, enquanto a chance de atingir uma intensidade histórica chega a 69%. Isso não permite prever uma crise global de alimentos ou determinar antecipadamente quais cidades sofrerão eventos extremos, mas indica que governos, produtores, empresas de logística e setores dependentes de água e energia terão de considerar um cenário de maior volatilidade climática nos próximos meses.

Com informações da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA)
@noaa

Acesse as Probabilidades oficiais de intensidade do ENSO do NOAA CPC

Acesse a publicação EL NIÑO/OSCILAÇÃO SUL (ENSO) - DISCUSSÃO DIAGNÓSTICA