Desertificação ameaça 18% do território brasileiro
Área sob risco de desertificação cresce 170 mil km² no Brasil em duas décadas e atinge 26 municípios da Bahia, 22 do Rio Grande do Norte, 19 da Paraíba, 17 de Alagoas, 9 de Sergipe e 7 de Pernambuco
17 AGO 2026 - 10H36 • Por Wilson LopesCerca de 18% do território brasileiro está inserido em Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD) e seu Entorno, onde vivem aproximadamente 39 milhões de pessoas, segundo o *Boletim Temático Desertificação*, elaborado pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e instituições parceiras.
Entre 2000 e 2020, a área classificada como suscetível aumentou cerca de 170 mil km², extensão equivalente à soma dos territórios de Pernambuco, Paraíba e Alagoas. O avanço amplia os riscos para a disponibilidade de água, a produção agropecuária, a biodiversidade e a segurança alimentar.
O diagnóstico mostra que o problema não se restringe mais ao interior do Nordeste. Embora a maior parte das áreas suscetíveis esteja na região, a classificação avançou para o norte de Minas Gerais e do Espírito Santo, o nordeste do Rio de Janeiro e o noroeste de Mato Grosso do Sul. Em 2020, áreas do norte fluminense, tradicionalmente associadas à Mata Atlântica, e do Mato Grosso do Sul, em área de domínio do Pantanal, passaram a integrar a classificação de Áreas Suscetíveis à Desertificação.
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Mais área em estágio severo
O dado que diferencia a expansão da área suscetível do avanço efetivo da degradação é a evolução dos níveis mais graves de desertificação. O boletim estima que quase 33 mil km² passaram a apresentar os níveis 4 e 5 de degradação, considerados os estágios mais avançados. Ao mesmo tempo, outros 73,8 mil km² já estavam nesses níveis em 2001 e permaneceram nessa condição em 2021.
Com isso, a área nos níveis mais elevados passou de aproximadamente 74 mil km² para 107 mil km² em duas décadas. O próprio boletim ressalta que muitos desses novos pontos estão fora dos quatro Núcleos de Desertificação historicamente monitorados — Gilbués (PI), Irauçuba (CE), Seridó (RN) e Cabrobó (PE).
O índice utilizado no estudo considera três componentes: cobertura da terra, produtividade da vegetação e carbono orgânico do solo. Na prática, quanto maior for o nível de degradação, maior a perda da capacidade do solo de produzir, armazenar água e sustentar a vegetação.
Apesar do avanço das áreas críticas, o diagnóstico mostra um contraste: aproximadamente 75% das ASD e do Entorno permanecem classificadas como conservadas. Os níveis 1 e 2 representam cerca de 4% do território analisado, enquanto o nível 3, já associado a impactos sobre as atividades agropecuárias, corresponde a aproximadamente 14%. Os níveis 4 e 5 somam cerca de 7%.
Bahia concentra maior extensão de novas áreas críticas
O mapa de áreas com níveis elevados de desertificação mostra a Bahia com a maior extensão de novas áreas que avançaram para os níveis 4 e 5, com cerca de 13,3 mil km², seguida por Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. A Bahia também concentra a maior área que já estava nos níveis 4 e 5 em 2001 e permaneceu nessa condição em 2021, com aproximadamente 36,5 mil km².
O boletim identifica ainda novas frentes de degradação no oeste da Bahia e do Piauí, região que integra o MATOPIBA. Em Gilbués, no Piauí, o estudo aponta redução significativa da vegetação natural associada à expansão agrícola.
Distribuição dos 100 municípios com maior percentual do seu território com desertificação severa (níveis 4 e 5)
- Bahia: 26 municípios
- Rio Grande do Norte: 22
- Paraíba: 19
- Alagoas: 17
- Sergipe: 9
- Pernambuco: 7
Pequenas propriedades perdem área conservada
O avanço da degradação também aparece no campo. As pequenas propriedades rurais — definidas no estudo como imóveis de até quatro módulos fiscais — ocupam aproximadamente 573 mil km² nas ASD e no Entorno.
Em 2001, cerca de 429 mil km², ou 74,9% dessa área, estavam conservados. Em 2021, a parcela conservada caiu para aproximadamente 398 mil km², ou 69,4%. No mesmo período, os níveis 3 e 4 de degradação passaram a representar 16,2% e 10,5% do território, respectivamente.
O recuo da área conservada também foi observado em territórios indígenas, quilombolas e assentamentos da reforma agrária. Nos territórios indígenas situados nas ASD e Entorno, a área conservada passou de 88,6% em 2001 para 86,2% em 2021. Nos territórios quilombolas, caiu de 87,2% para 83,9%. Nos assentamentos da reforma agrária, passou de 90,2% para 85,5%.
Pressão sobre água e produção
O boletim define a desertificação como um processo de degradação da terra em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas. A perda da cobertura vegetal deixa o solo mais exposto à erosão, reduz a matéria orgânica e compromete a capacidade de retenção de água e nutrientes.
Na prática, o processo pode reduzir a produtividade agrícola, afetar a disponibilidade de água e comprometer a renda de agricultores e comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais. O documento destaca entre os grupos mais vulneráveis agricultores familiares, povos indígenas, comunidades quilombolas e assentados da reforma agrária.
A Agência Brasil, em reportagem publicada em 15/08/2026, reforça esse aspecto ao apontar que cerca de 39 milhões de brasileiros vivem em áreas ameaçadas e que os efeitos da degradação ultrapassam o campo, com impactos sobre a produção de alimentos, segurança hídrica e economia também nas cidades.
Brasil amplia políticas de enfrentamento
O Brasil é signatário da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação desde 1997. O país lançou em março de 2026 o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025–2043), que prevê ações integradas envolvendo meio ambiente, educação, saúde, assistência social, infraestrutura, acesso à água, inclusão produtiva e inovação tecnológica.
Entre as estratégias previstas estão o monitoramento e alerta precoce, práticas produtivas adaptadas ao clima, ampliação da infraestrutura hídrica e recuperação de ecossistemas degradados, com prioridade para a Caatinga.
A Agência Brasil também informa que o Programa Recaatingar, lançado em junho de 2026, estabeleceu como meta recuperar produtivamente 10 milhões de hectares de terras degradadas da Caatinga nos próximos 20 anos.
O desafio, porém, é territorialmente maior que os núcleos tradicionais. O próprio boletim conclui que as áreas de níveis elevados de desertificação continuam crescendo e que as novas frentes estão concentradas principalmente na Bahia, no Ceará e em Pernambuco, exigindo expansão do monitoramento, prevenção e recuperação.
Municípios com maior proporção de desertificação severa
O anexo do boletim lista os 100 municípios com maior percentual do território classificado nos níveis 4 e 5. Montadas (PB) lidera, com 95,83% do território nessa condição, seguida por Areial (PB), com 95,71%, e Gavião (BA), com 94,47%.
A concentração também chama atenção por estado. Entre os primeiros colocados aparecem municípios da Paraíba, Bahia, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe e Pernambuco, indicando que a desertificação severa está distribuída por diferentes áreas do Nordeste e não apenas pelos núcleos históricos identificados no século passado.
Com informações da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).
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Acesse o Boletim Temático Desertificação
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