Cidades ocupam 1% da superfície do planeta, mas 80% das terras já sofreram influência humana
Estimativas globais mostram que cidades ocupam uma pequena fração da superfície terrestre, enquanto agricultura e diferentes formas de uso humano transformam áreas muito maiores do planeta
19 AGO 2026 - 10H45 • Por Wilson LopesAs cidades ocupam uma parcela relativamente pequena da superfície da Terra, apesar da concentração populacional e da dimensão visual das grandes metrópoles.
Uma estimativa publicada em 2009 por Akbari, Menon e Rosenfeld, baseada na máscara de extensão urbana do Global Rural-Urban Mapping Project (GRUMP), desenvolvido pelo Center for International Earth Science Information Network (CIESIN), centro de pesquisa ligado à Columbia University, nos Estados Unidos, calculou cerca de 3,5 milhões de km² de áreas urbanas, aproximadamente 2,4% das terras do planeta e 0,7% de toda a superfície terrestre.
O número, porém, não representa apenas áreas cobertas por edifícios e ruas: trata-se de uma delimitação de extensão urbana, cuja definição é mais ampla que a de superfície efetivamente construída.
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A dimensão estimada das áreas urbanas varia bastante conforme a metodologia. O Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), criado em 1988 pela Organização Meteorológica Mundial (OMM/WMO), registra estimativas que vão de 276 mil km² a 3,5 milhões de km², correspondentes a aproximadamente 0,2% a 2,7% da área terrestre livre de gelo. A diferença decorre, entre outros fatores, dos critérios utilizados para definir o que é uma área urbana e das técnicas empregadas para mapeá-la.
Essa distinção é importante porque área urbana, área construída e superfície impermeabilizada não são necessariamente sinônimos. Levantamentos baseados em imagens de satélite podem adotar critérios relacionados a superfícies construídas e infraestrutura, enquanto outras metodologias consideram a extensão espacial associada aos assentamentos humanos. Por isso, não existe um único número universal para definir quanto do planeta é "urbano".
A comparação muda de escala quando entram lavouras e pastagens. Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), compilados pela Our World in Data, indicam que cerca de 48 milhões de km² são utilizados pela agricultura, somando áreas de cultivo e pastagens. Esse território corresponde a aproximadamente 44% da terra considerada habitável. Dois terços da área agrícola são formados por pastagens e um terço por lavouras.
Quando a referência passa a ser toda a superfície do planeta, incluindo oceanos, os 48 milhões de km² equivalem a aproximadamente 9,4% da Terra. A diferença entre esse percentual e os cerca de 44% da terra habitável mostra por que estatísticas sobre uso do solo podem parecer contraditórias quando diferentes denominadores são utilizados.
A agricultura, portanto, ocupa uma área muito maior que a das cidades. E mesmo essa comparação não descreve toda a dimensão da transformação provocada pela humanidade. Um estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) estimou que, em 2017, mais de 80% da biosfera terrestre havia sido transformada em algum grau por populações humanas e pelo uso da terra. O estudo classificou 51% como áreas de uso intensivo, 30% como áreas "cultivadas" e 19% como terras classificadas como selvagens.
O dado de mais de 80%, entretanto, não significa que 80% das terras estejam ocupadas por cidades, plantações ou estruturas humanas. O conceito utilizado pelo estudo é muito mais abrangente: considera diferentes graus de presença e transformação humana. Uma área pode ter baixa densidade populacional e ainda assim estar submetida a pastoreio, exploração de recursos, alteração da vegetação ou outras formas de uso da terra.
É justamente aí que está o principal paradoxo dos números globais sobre ocupação humana. A humanidade pode exercer influência sobre uma parcela enorme das terras sem que essa superfície esteja fisicamente coberta por construções ou agricultura intensiva.
Dados mais recentes da FAO, compilados pela Our World in Data, reforçam a necessidade de separar esses conceitos. Em 2023, a área classificada como agrícola correspondia a cerca de 36,9% de toda a área terrestre, considerando terras agrícolas como a soma de lavouras, culturas permanentes e pastagens. Essa estatística usa como denominador a terra, e não toda a superfície do planeta.
Outra diferença importante está na própria definição de "terra agrícola". A FAO inclui nas pastagens áreas que podem ser extensas e apresentar baixa intensidade de uso, inclusive regiões de vegetação natural utilizadas para pastoreio. Por isso, considerar toda essa superfície como equivalente a uma área densamente ocupada ou intensivamente cultivada produziria uma interpretação distorcida.
A escala planetária também ajuda a explicar por que a percepção cotidiana pode enganar. As grandes cidades concentram população, edifícios, estradas, atividade econômica e infraestrutura em espaços relativamente pequenos. Sua importância social e econômica é enorme, mas isso não significa que elas ocupem uma proporção equivalente da superfície terrestre.
O contraste é ainda mais evidente quando se observa a diferença entre ocupação física e transformação ecológica. Uma cidade pode ocupar poucos quilômetros quadrados e alterar significativamente o ambiente de uma área muito maior por meio de infraestrutura, consumo de água, energia, alimentos e matérias-primas. Da mesma forma, uma pastagem extensiva pode ocupar uma área enorme sem apresentar a aparência de uma paisagem densamente urbanizada.
Assim, os números não são necessariamente contraditórios. Eles respondem a perguntas diferentes:
- Quanto do planeta é urbano? A resposta é uma pequena fração.
- Quanto da terra é utilizada pela agricultura? A resposta é uma parcela muito maior.
- Quanto da natureza terrestre foi transformada ou influenciada pela humanidade? A resposta pode superar 80%, dependendo do conceito e da metodologia adotados.
A principal conclusão é que não se deve confundir urbanização, ocupação física, uso agrícola e influência humana sobre os ecossistemas. Cada indicador mede uma dimensão diferente da relação entre a sociedade e o território. Quando essas categorias são colocadas na mesma escala, fica evidente que as cidades ocupam pouco espaço no planeta, enquanto a produção de alimentos e outras formas de uso da terra respondem por uma transformação territorial muito mais extensa.
Com informações do GRUMP/CIESIN, IPCC, Our World in Data.
@ipcc · @nasa · @fao · @columbiaclimate · @columbia · @ourworldindata · @UNEP · @wmo_omm
Acesse o artigo "Global Cooling: Increasing World-Wide Urban Albedos to Offset CO"
Acesse o Global Rural-Urban Mapping Project (GRUMP)
Acesse o Proceedings of the National Academy of Sciences* (PNAS)
Acesse o Our World in Data
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