2ª maior safra de cana da história terá mais etanol e menos açúcar
Conab prevê crescimento de 4,7% e a produção de cana deve alcançar 705,2 milhões de toneladas na safra 2026/27
31 AGO 2026 - 14H28 • Por Wilson LopesA produção brasileira de cana-de-açúcar deve alcançar 705,2 milhões de toneladas na safra 2026/27, conforme o segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgado em 20 de agosto. O volume representa alta de 4,7% sobre as 673,3 milhões de toneladas estimadas para 2025/26 e coloca a temporada como a segunda maior da série histórica, iniciada em 2005/06. Segundo a Conab, a maior safra de cana-de-açúcar foi a de 2023/24, com aproximadamente 713,2 milhões de toneladas
O avanço resulta principalmente da melhoria da produtividade, favorecida pelas condições climáticas, combinada a uma expansão de 1,1% da área destinada à colheita.
A área colhida deve passar de 8,95 milhões para 9,05 milhões de hectares, enquanto a produtividade média sobe de 75.188 para 77.905 quilos por hectare, ganho de 3,6%. Em termos absolutos, a produção projetada é 31,9 milhões de toneladas superior à do ciclo anterior.
O dado indica que o crescimento da safra não depende apenas da incorporação de novas áreas: o principal impulso vem do maior rendimento dos canaviais.
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São Paulo responde por mais da metade da cana brasileira
O Sudeste permanece como o principal polo produtor, com 451,4 milhões de toneladas, ou cerca de 64% da produção nacional. A região terá 5,6 milhões de hectares destinados à colheita e produtividade média de 80.872 kg/ha. Dentro dela, São Paulo mantém ampla liderança: deve produzir 362,8 milhões de toneladas, 4,3% acima da safra anterior, mesmo com redução marginal de 0,2% na área colhida.
O resultado paulista também expõe uma das principais características da atual safra: mais produção com praticamente a mesma área, sustentada por ganhos de produtividade. A Conab atribui o desempenho às condições climáticas, embora registre um efeito negativo das chuvas atípicas de maio e junho, que atrasaram a colheita e prolongaram o crescimento vegetativo dos canaviais.
O Centro-Oeste, segunda maior região produtora, deverá alcançar 157 milhões de toneladas, crescimento de 4,6%. A região terá quase 2 milhões de hectares colhidos e produtividade média de 78.755 kg/ha. Mato Grosso do Sul se destaca pelo avanço de 12,2% na produção, para 57,8 milhões de toneladas, enquanto Goiás, apesar de continuar entre os principais produtores nacionais, apresenta pequena retração de 0,6%, para 79,7 milhões de toneladas.
Nordeste cresce com expansão da área
No Nordeste, a produção deve atingir 55,4 milhões de toneladas, alta de 4,1%. Diferentemente do Sudeste, o crescimento regional é explicado principalmente pela expansão da área, que aumenta 3,8%, enquanto a produtividade praticamente permanece estável, com alta de apenas 0,3%. Alagoas deverá produzir 18,8 milhões de toneladas e Pernambuco, 13,5 milhões.
Entre os estados, um dos maiores avanços proporcionais ocorre no Piauí, cuja produção deve crescer 27,3%, chegando a 1,47 milhão de toneladas. O ganho combina aumento de 11,1% na área e de 14,7% na produtividade.
O Sul, concentrado no Paraná, deve produzir 37,3 milhões de toneladas, alta de 3,6%. Já o Norte terá 4,1 milhões de toneladas, crescimento de 7,9%, apesar da pequena redução da área colhida. O Tocantins é responsável pelo avanço regional, com alta de 17,2% na produção.
Mais cana, menos açúcar
Um dos principais paradoxos da projeção está no destino da matéria-prima. A produção de cana cresce 4,7%, mas a fabricação de açúcar cai 2,9%, para 42,89 milhões de toneladas. A Conab relaciona o movimento ao direcionamento de maior parcela da cana para o etanol, em um cenário de mercado mais favorável ao biocombustível.
São Paulo continuará sendo o principal produtor de açúcar, com 25,75 milhões de toneladas, seguido por Minas Gerais, com 5,57 milhões. No Centro-Oeste, Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso somarão aproximadamente 5,3 milhões de toneladas, mas a região deverá registrar queda de 9,4% na produção do produto.
O movimento é particularmente relevante porque ocorre mesmo com uma safra maior de cana. A explicação está no mix industrial, isto é, na decisão das usinas sobre quanto da matéria-prima será transformado em açúcar ou em etanol. A redução das cotações internacionais do açúcar levou unidades produtoras a reavaliar essa divisão, enquanto a demanda doméstica por etanol ganhou força.
Etanol cresce em ritmo muito superior
A produção de etanol de cana deve alcançar 29,98 bilhões de litros, alta de 9,7%. Somando o combustível produzido a partir do milho, o país deverá chegar a 41,88 bilhões de litros, crescimento de 11,7%. O etanol de milho apresenta avanço ainda maior: 17%, para 11,91 bilhões de litros.
A mudança também tem relação com o mercado doméstico. No fim de julho, a mistura obrigatória de etanol anidro à gasolina passou de 30% para 32%, o que tende a ampliar a demanda pelo biocombustível e pode estimular as usinas a destinar mais cana para sua fabricação.
São Paulo continua como principal produtor de etanol de cana, com cerca de 13 bilhões de litros. No Centro-Oeste, a produção total de etanol chega a 19,83 bilhões de litros quando consideradas as diferentes matérias-primas, impulsionada pela expansão do etanol de milho.
Clima ajuda, mas também cria gargalos
O cenário climático é um dos principais fatores por trás da projeção positiva. A Conab aponta condições favoráveis em várias regiões, mas registra efeitos contraditórios. Em São Paulo, por exemplo, as chuvas acima da média prolongaram o desenvolvimento vegetativo, atrasaram a maturação e prejudicaram o cronograma de corte. Em Minas Gerais, a maior umidade também retardou a maturação.
Em Mato Grosso, a maior umidade favoreceu as lavouras, mas também contribuiu para a disseminação da Síndrome da Murcha da Cana-de-açúcar, doença que reduz principalmente a qualidade industrial da matéria-prima. Em Mato Grosso do Sul, chuvas e doenças também aparecem entre os fatores de atenção.
Outro indicador de transformação estrutural é a mecanização. A Conab estima que 92,2% da colheita brasileira será mecanizada em 2026/27. No Centro-Sul, o índice chega a 98%, enquanto São Paulo supera 99%. No Nordeste, apesar das limitações impostas pelo relevo, a mecanização deverá ultrapassar 40%.
Exportações recuam
O crescimento da produção também não significa aumento imediato das exportações. Entre abril e julho da safra 2026/27, o Brasil exportou 9,3 milhões de toneladas de açúcar, 13,1% menos que os 10,7 milhões de toneladas registrados no mesmo período anterior. No etanol, as exportações caíram 20,9%, para 350,1 milhões de litros.
A Conab associa essa retração, entre outros fatores, ao maior direcionamento da matéria-prima para o mercado interno de biocombustíveis. No caso do etanol, as importações também recuaram fortemente: foram 22,3 milhões de litros entre abril e julho, queda de 79,2% sobre o mesmo período da safra anterior. Com isso, o Brasil registrou saldo positivo de 327,8 milhões de litros no comércio externo de etanol no período.
Contexto e pontos de atenção
A fotografia apresentada pela Conab é, portanto, de expansão da produção agrícola acompanhada por uma mudança na composição industrial. O país terá mais cana, mas não necessariamente mais açúcar: o crescimento está sendo canalizado principalmente para os biocombustíveis.
A projeção ainda é uma estimativa, e não o resultado definitivo da safra. A própria Conab utiliza modelos estatísticos para estimar produtividade e ATR — indicador que mede a quantidade de açúcar recuperável da cana — e realiza levantamento censitário nas unidades produtivas.
Uberaba é a maior produtora de cana
O ranking dos principais municípios produtores de cana-de-açúcar do Brasil, com base nos dados da PAM 2024 do IBGE, mostra forte concentração da atividade no Centro-Sul. Uberaba (MG) lidera a produção nacional, com 9,6 milhões de toneladas, seguido por Nova Alvorada do Sul (MS), com 8,12 milhões, e Quirinópolis (GO), com 7,13 milhões. Entre os 20 maiores produtores, São Paulo concentra oito municípios, enquanto Mato Grosso do Sul e Goiás aparecem com quatro cada, reforçando o peso desses estados na produção sucroenergética brasileira.
O ranking também evidencia a importância de municípios de médio porte para a cadeia da cana. Além de Uberaba, destacam-se Frutal (MG), Morro Agudo, Barretos, Guaíra, Jaboticabal, Rancharia, Valparaíso, Itápolis e Batatais (SP), além de Rio Brilhante e Nova Andradina (MS) e Mineiros, Goianésia e Goiatuba (GO). A presença de Barra do Bugres (MT) e Coruripe (AL) entre os 20 primeiros mostra que a produção também mantém polos relevantes fora do eixo Sudeste–Centro-Oeste.
Com informações da Companhia Nacional de Abastecimento.
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Acesse o 2º Levantamento da Safra 2026/27
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