Caverna guarda pinturas rupestres a 37 metros de profundidade no litoral da França
Localizada no litoral de Marselha, a Caverna de Cosquer preserva centenas de pinturas e gravuras de até 32,5 mil anos, mas a elevação do nível do mar é uma ameaça permanente
10 SET 2026 - 10H32 • Por Wilson LopesUma das mais importantes cavernas decoradas do Paleolítico está parcialmente submersa no Mediterrâneo, no litoral de Marselha, no sul da França, e enfrenta uma ameaça permanente: a elevação do nível do mar.
A Caverna de Cosquer foi frequentada por grupos humanos entre aproximadamente 32,5 mil e 19 mil anos atrás, quando o nível do mar na região era até 135 metros inferior ao atual.
Hoje, sua entrada está a cerca de 37 metros de profundidade e menos de um quarto da cavidade permanece fora d’água, segundo o Ministério da Cultura francês.
Localizada no Cap Morgiou, dentro do Parque Nacional das Calanques, a caverna pertence administrativamente à cidade de Marselha, no departamento de Bouches-du-Rhône. A região fica entre Marselha, Aubagne e Cassis e é caracterizada por falésias calcárias que avançam sobre o Mediterrâneo.
Uma entrada que já foi seca
O aspecto mais singular de Cosquer é também um dos mais facilmente distorcidos quando a história é contada atualmente. Os seres humanos pré-históricos não entravam em uma caverna submersa.
Durante a última glaciação, enormes volumes de água estavam retidos nas geleiras e o nível do mar na região chegou a estar até 135 metros abaixo do atual. O litoral ficava quilômetros mais distante da posição contemporânea. O corredor que hoje está inundado era então uma passagem seca utilizada pelos grupos humanos que frequentavam a cavidade.
Com o fim da glaciação e o aquecimento do planeta, o nível do Mediterrâneo começou a subir. Há aproximadamente 10 mil anos, a água alcançou a entrada da caverna e interrompeu definitivamente o acesso humano.
O processo transformou a configuração do sítio. Atualmente, o acesso original está a 37 metros de profundidade, seguido por um túnel submerso que avança até as áreas preservadas. O percurso submarino total até a parte emersa da caverna chega a aproximadamente 174 metros.
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Centenas de pinturas, gravuras e sinais
As paredes de Cosquer apresentam cerca de 500 pinturas e gravuras, segundo o Departamento de Pesquisas Arqueológicas Subaquáticas e Submersas da França. Aproximadamente metade das representações identificadas corresponde a animais.
O conjunto inclui cavalos, bisões, cervos, íbex, felinos, antílopes, focas e aves marinhas, além de mãos humanas, sinais geométricos e gravuras. A presença de animais marinhos é uma das características que diferencia Cosquer de outros grandes conjuntos de arte rupestre paleolítica.
Entre os elementos catalogados estão ainda cerca de 200 sinais geométricos e 55 mãos negativas, feitas pela aplicação de pigmento ao redor da mão posicionada contra a parede. Há também uma representação excepcional interpretada como um homem atingido ou morto, com características associadas a um animal marinho.
A pesquisa arqueológica atual indica que a presença humana na caverna é antiga: o período de frequentação vai de aproximadamente 32,5 mil a 19 mil anos antes do presente, uma duração de pelo menos 13,5 mil anos.
Um registro de mudanças ambientais de milhares de anos
A própria localização das representações ajuda a reconstruir o ambiente ocupado pelos seres humanos do Paleolítico.
Na época, a região reunia três ambientes principais: o litoral, com recursos marinhos; uma extensa planície com vegetação favorável aos grandes herbívoros; e áreas montanhosas, onde havia espécies como íbex e camurças. Esse mosaico ambiental aparece, de certa forma, no repertório de animais representados nas paredes da caverna.
A presença de focas e aves marinhas é especialmente significativa. Ela demonstra que os artistas paleolíticos registraram não apenas a fauna terrestre, mas também animais associados ao ambiente costeiro que fazia parte do cotidiano das populações que habitavam a região.
O mar já destruiu parte do patrimônio
A ameaça à Caverna de Cosquer não é apenas uma projeção futura. Parte das representações identificadas no passado já desapareceu ou apresenta sinais de degradação.
O Ministério da Cultura francês informa que algumas obras visíveis quando a caverna foi oficialmente declarada, em 1991, já desapareceram quase totalmente ou estão em processo de deterioração. A ação da água do mar, a poluição transportada pelas ondas, a atividade sísmica regional e a evolução geológica da cavidade contribuem para esse processo.
A situação é particularmente delicada porque somente cerca de um quinto das superfícies da cavidade utilizadas pelos artistas do Paleolítico permanece preservado fora d’água. O restante está atualmente inundado pelo Mediterrâneo.
Projeção aponta risco de desaparecimento
Segundo o portal oficial de arqueologia do Ministério da Cultura francês, a parte ainda preservada da caverna tem uma perspectiva de conservação estimada em 150 a 200 anos, considerando a evolução das condições ambientais. O mesmo órgão informa que, de acordo com projeções baseadas no IPCC, o nível do mar poderá subir aproximadamente 5 metros até 2300, o que levaria à perda definitiva da arte paleolítica existente na cavidade.
A conservação, portanto, passou a depender também da documentação científica. O governo francês realizou levantamentos tridimensionais da cavidade para registrar com precisão as estruturas e manifestações artísticas antes que novas perdas ocorram. Uma campanha de levantamento integral em 3D foi iniciada em 2017.
Descoberta oficial ocorreu em 1991
A existência da caverna foi declarada oficialmente pelo mergulhador Henri Cosquer em 3 de setembro de 1991, embora registros de mergulhadores já mencionassem a cavidade anteriormente. A formalização ocorreu poucos dias após um acidente de mergulho que matou três pessoas e evidenciou os riscos do acesso ao local.
O sítio passou a ser protegido e estudado pelo Estado francês e é hoje classificado como monumento histórico. O acesso à caverna original é proibido ao público, justamente em razão das condições de preservação e dos riscos associados ao mergulho subterrâneo.
Para permitir que o público conheça o patrimônio sem colocar o sítio arqueológico em risco, foi inaugurado em Marselha, em 2022, um espaço de interpretação dedicado à Caverna de Cosquer, com uma reprodução da cavidade e de seu contexto arqueológico e ambiental.
O que os dados revelam
O caso de Cosquer reúne três dimensões que ultrapassam a arqueologia: história humana, transformação ambiental e conservação do patrimônio. A caverna preserva registros produzidos milhares de anos antes das primeiras grandes civilizações, mas o mesmo processo natural que ajudou a conservar parte dessas manifestações — o isolamento provocado pela subida do mar — tornou-se uma ameaça à sua sobrevivência.
O dado mais expressivo é a proporção da cavidade que já foi perdida: cerca de 80% das superfícies utilizadas pelos artistas paleolíticos estão atualmente submersas. O que permanece acessível representa apenas uma fração do conjunto original.
A Caverna de Cosquer, portanto, não é apenas uma caverna pré-histórica sob o Mediterrâneo. É também um registro físico de como o nível do mar mudou desde a última glaciação — e de como essa transformação continua afetando um patrimônio humano produzido há dezenas de milhares de anos.
Com informação do Ministério da Cultura da França.
@gsarcheo
Acesse o site A Caverna Cosquer: 30 anos de pesquisa
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