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Maceração mecânica

Indústria tritura pintinhos machos com menos de 24 horas de vida

Organização Mercy For Animals identifica o descarte de aproximadamente 35 mil pintinhos machos em apenas um dia em um grande incubatório da indústria de ovos na Região Sul do Brasil

9 SET 2026 - 10H01 • Por Wilson Lopes
35 mil pintinhos machos, segundo a Mercy For Animals, foram mortos em apenas um dia no incubatório investigado no Sul do Brasil - Magnific

Uma investigação divulgada pela organização Mercy For Animals identificou o descarte de aproximadamente 35 mil pintinhos machos em apenas um dia em um grande incubatório da indústria de ovos na Região Sul do Brasil. Os animais tinham menos de 24 horas de vida e, segundo a entidade, eram encaminhados para máquinas de maceração mecânica

O caso ocorre em um setor que registrou produção recorde de ovos em 2025 e que já dispõe de uma tecnologia capaz de identificar o sexo dos embriões antes da eclosão.

A investigação não identificou publicamente a empresa onde as imagens foram registradas. De acordo com a Mercy For Animals, o objetivo foi documentar uma prática considerada recorrente na indústria de ovos, na qual pintinhos machos são separados das fêmeas logo após o nascimento. Como não produzem ovos e pertencem a linhagens selecionadas para postura, os machos têm baixo valor econômico para o sistema convencional de produção de ovos.

O número de animais registrado pela investigação ganha dimensão quando comparado à escala da cadeia produtiva. O Brasil produziu 4,95 bilhões de dúzias de ovos em 2025, segundo o IBGE, alta de 5,7% sobre o ano anterior. Foi o 28º ano consecutivo de recorde da produção nacional na série histórica iniciada em 1998.

São Paulo lidera a produção nacional, respondendo por 25,2% do total em 2025. Na sequência aparecem Minas Gerais, com 9,9%; Paraná, com 9,6%; e Espírito Santo, com 7,7%. A concentração da produção nos principais estados ajuda a dimensionar a importância econômica da atividade e também indica onde estão parte relevante dos empreendimentos que integram a cadeia de produção de ovos.

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Tecnologia pode evitar o nascimento dos machos

Uma alternativa ao descarte após o nascimento é a sexagem in ovo. O procedimento identifica o sexo do embrião durante a incubação, permitindo retirar os ovos que dariam origem a machos antes da eclosão. Dessa maneira, o animal não chega a nascer para posteriormente ser descartado.

No Brasil, a primeira máquina de sexagem in ovo mencionada na investigação foi instalada em **julho de 2025**, no incubatório da Hy-Line do Brasil, em Nova Granada, no interior de São Paulo. A iniciativa teve como cliente-âncora a Raiar Orgânicos, que possui aproximadamente 400 mil aves e assumiu o compromisso de converter todo o plantel. Os primeiros ovos produzidos com a tecnologia chegaram ao mercado em dezembro de 2025.

O problema está na escala de adoção. Segundo o panorama da Innovate Animal Ag, a máquina instalada no país opera abaixo da capacidade. O principal obstáculo apontado é econômico.

A estimativa é que o sistema convencional custe aproximadamente R$ 7 por ave, enquanto a adoção da sexagem in ovo acrescente entre R$ 5 e R$ 10 por ave. O aumento inicial, portanto, pode representar entre 80% e 150% do custo convencional. 

O impacto sobre o consumidor, entretanto, tende a ser menor quando o investimento é distribuído durante o ciclo produtivo. Uma poedeira produz aproximadamente 350 ovos ao longo da vida produtiva considerada pelo estudo. Assim, o custo adicional por animal pode ser diluído em centenas de ovos, reduzindo o efeito sobre cada dúzia comercializada. 

A tecnologia capaz de evitar o nascimento dos pintinhos que seriam descartados já está disponível no país, mas a adoção permanece limitada por questões de custo e escala (Imagem gerada por IA)

Europa avança mais rapidamente

A diferença de adoção é mais evidente quando o Brasil é comparado com países europeus. Segundo a Innovate Animal Ag, em junho de 2026, cerca de 130 milhões das aproximadamente 340 milhões de galinhas poedeiras comerciais da União Europeia estavam vinculadas a sistemas que utilizavam sexagem in ovo

Alemanha, França, Áustria e Itália adotaram legislações que proíbem a trituração de pintinhos. Noruega e Suíça avançam pela pressão de mercado, mesmo sem depender exclusivamente de uma proibição legal.

O cenário europeu cria uma referência para o debate brasileiro, mas há diferenças importantes entre os mercados, incluindo legislação, estrutura produtiva, poder de compra e disposição dos consumidores em absorver eventuais custos adicionais.

Consumidor demonstra interesse

Uma pesquisa realizada pela Innovate Animal Ag com 1.553 compradores de ovos no Brasil indica que existe espaço para mudança no comportamento do mercado. Segundo o levantamento, 73% dos entrevistados afirmaram sentir desconforto com o abate de pintinhos machos, enquanto 76% disseram que a indústria deveria encontrar uma alternativa.

O interesse por produtos associados à tecnologia também apareceu no levantamento: 79% afirmaram ter interesse em comprar ovos produzidos com sexagem in ovo e 76% disseram estar dispostos a pagar mais pelo produto. A disposição média adicional declarada foi de R$ 3,87 por dúzia. 

Os números, contudo, precisam ser interpretados com cautela. A pesquisa foi realizada pela própria Innovate Animal Ag, organização que atua na promoção da tecnologia. Portanto, os resultados indicam uma tendência de percepção dos consumidores, mas não equivalem a uma pesquisa oficial de opinião pública.

Congresso discute proibição

O Brasil ainda não possui uma norma federal específica proibindo o descarte de pintinhos machos recém-eclodidos. O tema está em discussão no Congresso Nacional.

O PL 783/2024, de autoria da deputada Professora Luciene Cavalcante (PSOL-SP), propõe proibir o descarte por trituração, eletrocussão, sufocamento ou métodos semelhantes e prevê a adoção de tecnologias de sexagem in ovo.

O projeto foi aprovado na Comissão de Meio Ambiente, mas recebeu parecer pela rejeição na Comissão de Agricultura, cujo parecer foi aprovado em agosto de 2025. A tramitação avançou posteriormente, e a situação atual é de aguardo de designação de relator na Comissão de Finanças e Tributação.

Em 1.º de setembro de 2026, o PL 3034/2026 foi apensado ao PL 783/2024. A apensação foi registrada pela Comissão de Finanças e Tributação em 3 de setembro. Portanto, os dois textos passaram a tramitar conjuntamente.

Uma cadeia em expansão diante de uma mudança tecnológica

O debate ocorre em um momento de expansão da produção brasileira de ovos. O IBGE registrou 265 milhões de dúzias adicionais em 2025 em relação a 2024, resultado de crescimento em 25 das 26 unidades da Federação pesquisadas. Minas Gerais, São Paulo, Pernambuco, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Norte tiveram os maiores aumentos absolutos. 

O cenário coloca a cadeia de ovos diante de uma transição tecnológica. De um lado, a produção cresce e alcança sucessivos recordes; de outro, uma tecnologia já disponível permite alterar uma etapa do processo produtivo que atualmente resulta no descarte de pintinhos machos.

A questão central, portanto, deixou de ser apenas tecnológica. O debate envolve custo, escala, legislação, pressão dos consumidores e capacidade da indústria de incorporar a nova tecnologia sem comprometer a competitividade da produção brasileira.

Com informações de Mercy For Animals; Innovate Animal Ag; Rafael Cardoso, Agência Brasil.
@mfa_brasil @raiarorganicos @ibgeoficial @camaradeputados @proflucienecavalcante @agencia.brasil

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Acesse o vídeo ‘Trituração de pintinhos vivos na Indústria de ovos é exposta no Brasil’: