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Distração digital

PISA 2025: Shakespeare de menos, smartphone de mais

Desempenho em leitura no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes atinge pior média da história

9 SET 2026 - 14H53 • Por Wilson Lopes
Em leitura, a média dos países da organização caiu 28 pontos entre 2015 e 2025, uma perda estimada em cerca de um ano e meio de aprendizagem - Magnific

Avaliação aplicada em 2025 a 760 mil estudantes de 15 anos em 91 países e economias registrou o menor desempenho médio em leitura e matemática já observado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). 

Em leitura, a média dos países da organização caiu 28 pontos entre 2015 e 2025, uma perda estimada em cerca de um ano e meio de aprendizagem. O resultado amplia uma trajetória de deterioração que, segundo a própria OCDE, começou em muitos sistemas educacionais antes da pandemia de Covid-19.

O PISA, Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, mede o que jovens de 15 anos conseguem fazer com conhecimentos de ciências, matemática e leitura em situações que exigem interpretação, aplicação e resolução de problemas. Portanto, o resultado não representa simplesmente a quantidade de livros lidos ou o hábito de leitura: ele mede a capacidade de compreender, avaliar, interpretar e refletir sobre textos.

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Queda de leitura é a mais acentuada

Entre 2015 e 2025, a média de leitura dos países da OCDE caiu de 489 para 461 pontos, uma redução de 28 pontos. Em matemática, a queda foi de 22 pontos, de 485 para 463. Em ciências, a média recuou de 489 para 482 pontos.

O período mais recente também chama atenção. Entre 2018 e 2025, a leitura caiu 25 pontos em média entre 35 países da OCDE com dados comparáveis. Segundo a OCDE, isso significa que, em 2025, estudantes de 15 anos apresentavam, em leitura, um nível de desempenho semelhante ao esperado de alunos de 14 anos sete anos antes.

A deterioração não ocorreu de maneira isolada. Dos 74 países e economias com dados comparáveis entre 2018 e 2025, 56 apresentaram queda estatisticamente significativa em leitura, enquanto apenas cinco registraram melhora — e mesmo esses cinco permaneceram abaixo da média da OCDE.

Um em cada cinco estudantes está abaixo do nível mínimo nas três áreas

Outro indicador de impacto é a parcela de estudantes com desempenho baixo simultaneamente em ciências, matemática e leitura. Na média da OCDE, ela chegou a 20% em 2025, contra 16% em 2022.

Isso significa que um em cada cinco adolescentes avaliados nos países da OCDE não alcança o nível básico esperado nas três áreas simultaneamente. São estudantes que, segundo a definição do PISA, não dominam conhecimentos fundamentais necessários para avançar na educação, no trabalho e em situações cotidianas.

Brasil: estabilidade, mas distância elevada

O Brasil apresenta um quadro diferente da média da OCDE. Os resultados nacionais de 2025 ficaram estatisticamente próximos aos registrados em 2022 nas três disciplinas e, de acordo com a OCDE, permanecem relativamente estáveis desde 2015. Isso significa que o país não acompanhou a queda acentuada observada na média da organização no período mais recente, mas também não conseguiu reduzir de forma relevante a distância em relação aos sistemas de melhor desempenho.

O Brasil obteve 408 pontos em leitura, contra 461 da média da OCDE; 377 em matemática, ante 463; e 403 em ciências, frente a 482.

A diferença aparece também quando se observa o domínio mínimo de leitura. Apenas 49% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível 2 ou superior, considerado o patamar básico de proficiência. Na média da OCDE, a proporção foi de 69%. Em matemática, somente 28% dos brasileiros atingiram esse nível, contra 65% na OCDE. 

No extremo superior, o contraste é ainda maior: apenas 1% dos estudantes brasileiros alcançou o nível 5 ou superior em leitura, enquanto a média da OCDE foi de 6%. Nesses níveis, o estudante consegue compreender textos longos e complexos, lidar com conceitos abstratos e distinguir fatos de opiniões utilizando informações implícitas e pistas relacionadas à fonte do texto.

Ásia concentra os melhores resultados

Os melhores desempenhos do PISA 2025 estão concentrados no Leste Asiático.

Singapura apresentou a maior média mundial em leitura, com 535 pontos, seguida por B-S-J-Z (China), agrupamento que reúne Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang, com 527 pontos. A média da OCDE foi de 461.

B-S-J-Z liderou em matemática, com 612 pontos, e em ciências, com 597. Singapura ficou em segundo lugar nessas duas áreas, com 563 em matemática e 560 em ciências.

Além desses sistemas, Estônia, Japão, Coreia do Sul, Macau, Taipei Chinês e Reino Unido ficaram entre os dez melhores sistemas nas três áreas avaliadas.

A Estônia é um caso de destaque europeu. O país registrou 499 pontos em leitura, figurando entre os oito melhores sistemas participantes, e somente 17% de seus estudantes ficaram abaixo do nível 2 de proficiência em leitura.

Desigualdade socioeconômica continua determinante

O desempenho escolar continua fortemente relacionado à condição socioeconômica dos estudantes. Na média da OCDE, adolescentes de origem socioeconômica mais favorecida obtiveram 85 pontos a mais em ciências do que os estudantes desfavorecidos.

A OCDE registra uma aparente redução dessa diferença entre 2022 e 2025, mas o dado exige cautela: a diminuição ocorreu principalmente porque os estudantes mais favorecidos tiveram desempenho pior, e não porque os estudantes mais vulneráveis tenham avançado de forma significativa.

Esse é um dos principais paradoxos do levantamento: a distância socioeconômica diminuiu, mas isso não representa necessariamente melhora na equidade educacional.

A distração digital apareceu associada a resultados mais baixos em ciências em 59 dos 82 sistemas educacionais analisados nessa dimensão (Magnific)

Telas: associação, não prova de causa

O relatório também analisa a relação entre tecnologia e desempenho. Nos países da OCDE, os estudantes relataram utilizar dispositivos digitais, em média, por 3,4 horas por dia útil para lazer, além de cerca de três horas diárias para aprendizagem na escola e em casa.

A distração digital apareceu associada a resultados mais baixos em ciências em 59 dos 82 sistemas educacionais analisados nessa dimensão. Mais de um em cada quatro estudantes afirmou que colegas ficam distraídos com dispositivos digitais na maioria ou em todas as aulas de ciências.

A relação, porém, não deve ser transformada em causalidade automática. A própria OCDE aponta que a tecnologia pode contribuir para a aprendizagem quando utilizada de maneira direcionada. O problema identificado está relacionado principalmente ao uso que substitui atenção, esforço e compreensão.

Inteligência artificial acrescenta um novo desafio

A inteligência artificial aparece pela primeira vez como elemento importante no diagnóstico. Quase metade dos estudantes relata utilizar chatbots de IA regularmente para aprender.

O desempenho varia conforme a finalidade. Estudantes que utilizam IA para tarefas como resumir textos, escrever redações ou pesquisar assuntos apresentaram, em média, resultados mais baixos em ciências do que aqueles que não recorrem a essas ferramentas nessas atividades. A diferença chega a cerca de 20 pontos, equivalente aproximadamente a um ano de aprendizagem.

O dado não permite concluir que a IA provoque queda no desempenho. Estudantes com maiores dificuldades podem ser justamente os que mais recorrem a ferramentas desse tipo. A OCDE trata a relação como complexa e defende o uso da tecnologia para complementar, e não substituir, o esforço cognitivo do aluno.

O que os dados mostram

O PISA 2025 não aponta apenas uma crise de leitura. O levantamento revela uma deterioração mais ampla dos resultados educacionais, especialmente em leitura e matemática, com efeitos observados em diferentes regiões e níveis socioeconômicos.

Ao mesmo tempo, os resultados mostram que a queda não é uniforme. Sistemas educacionais do Leste Asiático permanecem na liderança internacional, enquanto países como a Estônia demonstram que bons resultados também são possíveis fora da região. O Brasil, por sua vez, apresenta estabilidade desde 2015, mas mantém uma distância significativa dos países de melhor desempenho.

Outro dado relevante é que a piora começou, em muitos países, antes da pandemia. Por isso, atribuir os resultados exclusivamente ao período de fechamento das escolas seria insuficiente. A OCDE aponta para desafios estruturais relacionados à qualidade do ensino, desigualdades, engajamento dos estudantes, uso da tecnologia e preparação dos professores.

O cenário coloca a leitura no centro do debate porque essa competência é transversal às demais áreas: interpretar informações, avaliar fontes, compreender argumentos e refletir sobre textos são habilidades necessárias não apenas para o desempenho escolar, mas também para a vida profissional e para a participação em uma sociedade cada vez mais digital.

Com informações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
@the_oecd @inep_oficial @mineducacao @govbr @ocde

Acesse os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA 2025)

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