A gosto de quem não acredita no aquecimento global
Agosto de 2026 entra para a história como o mês mais quente já registrado, e a temperatura média do planeta chega a 16,96°C
10 SET 2026 - 11H03 • Por Wilson LopesAgosto de 2026 foi o agosto mais quente já registrado no planeta e empatou como o mês de maior temperatura média global desde o início da série histórica utilizada pelo Copernicus Climate Change Service (C3S). A temperatura média da superfície do ar chegou a 16,96°C, ficando 1,65°C acima do nível pré-industrial, em meio ao aquecimento dos oceanos e ao fortalecimento do fenômeno El Niño.
Os dados foram divulgados (10/09) pelo serviço europeu de monitoramento climático, que utiliza informações do ERA5, conjunto de dados climáticos com registros desde 1940.
O resultado supera os recordes anteriores para agosto, registrados em 2023 e 2024. Nos dois anos, a temperatura média global havia alcançado 16,82°C. Em 2026, portanto, o planeta ficou 0,14°C mais quente que nesses dois meses recordistas.
Agosto de 2026 também praticamente empatou com julho de 2023 como o mês mais quente de toda a série histórica, independentemente da época do ano. Julho de 2023 registrou 16,95 °C, diferença inferior a 0,01 °C em relação ao valor de agosto deste ano, segundo o Copernicus.
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Agosto mais quente que julho
Um dos resultados mais incomuns aparece na comparação com o mês imediatamente anterior. Agosto de 2026 ficou 0,06 °C mais quente que julho, apesar de julho normalmente apresentar a maior temperatura média global do calendário.
Desde 1940, o Copernicus identificou apenas quatro outros anos em que agosto foi mais quente que julho: 1945, 1951, 1955 e 1985. Isso significa que o fenômeno não ocorria havia 41 anos.
O calor também se espalhou pelas áreas continentais. A temperatura média sobre as terras do planeta alcançou 15,73°C, maior valor registrado para um mês de agosto e ligeiramente superior aos 15,71°C observados em 2024.
Planeta volta a ultrapassar 1,5°C
Em relação ao período pré-industrial de 1850 a 1900, agosto ficou 1,65°C mais quente. Foi a primeira vez desde novembro de 2025 que um mês ultrapassou novamente a marca de 1,5°C.
O resultado mensal, porém, não significa que o limite de aquecimento estabelecido como referência internacional tenha sido definitivamente ultrapassado. Variações de curto prazo podem elevar ou reduzir temporariamente a temperatura global.
A diferença fica evidente quando se amplia o período analisado. Nos 12 meses entre setembro de 2025 e agosto de 2026, a temperatura média global ficou 1,48°C acima do nível pré-industrial, abaixo dos 1,65°C observados somente em agosto.
De janeiro a agosto, 2026 aparece como o segundo ano mais quente da série histórica, atrás de 2024 e à frente de 2023. O resultado final ainda poderá mudar porque o El Niño voltou a ganhar força no Oceano Pacífico.
Oceanos também batem recorde
O aquecimento não ficou restrito à atmosfera. A temperatura média da superfície dos oceanos fora das regiões polares alcançou 21,07°C em agosto, maior valor já registrado para o mês. O recorde anterior, de agosto de 2023, era de 20,98°C.
A média de agosto também empatou com março de 2024 como a maior temperatura mensal já registrada nessas áreas oceânicas.
Em determinado momento do mês, a média diária chegou a 21,11°C, estabelecendo um novo recorde. O Pacífico tropical apresentou temperaturas excepcionalmente altas, associadas ao desenvolvimento do El Niño.
O fenômeno ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial ficam persistentemente mais quentes que o normal. Como o oceano troca grandes quantidades de calor e umidade com a atmosfera, o El Niño é capaz de alterar padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.
Europa Ocidental supera recorde de 2003
Na Europa, agosto apresentou temperatura média de **20,26 °C**, ou 1,10 °C acima da média de 1991/2020. Apesar do calor, foi apenas o quarto agosto mais quente já registrado no continente.
O recorde apareceu quando os pesquisadores analisaram o verão inteiro. Entre junho e agosto, a Europa Ocidental registrou o verão mais quente de sua série histórica, com temperatura média de 21,69°C, 2,54°C acima do padrão de 1991/2020. O resultado superou o recorde estabelecido em 2003, ano marcado por uma das mais severas ondas de calor já registradas na região.
A diferença entre os dois períodos chama a atenção. Em 2003, aquele verão aparecia isolado em meio a anos predominantemente mais frios. Em 2026, o recorde ocorreu após uma sequência de verões quentes: todos os verões da Europa Ocidental desde 2015 ficaram acima da média.
Praticamente toda a Inglaterra e o País de Gales, além da maior parte da França, Espanha, Itália, Suíça e Áustria, registraram as maiores temperaturas médias de verão desde pelo menos 1979. Bélgica, França, Reino Unido, Irlanda, Países Baixos, Espanha e Áustria também tiveram recordes nacionais apontados por seus respectivos serviços meteorológicos.
Somente em agosto, áreas da França, Itália, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Hungria, Romênia e dos Bálcãs apresentaram temperaturas geralmente entre 3°C e 5°C acima da média. Em contraste, partes do norte europeu, da Islândia aos países bálticos, ficaram ligeiramente abaixo da média.
Calor acompanhado de seca
O calor europeu ocorreu simultaneamente à falta de chuva. Partes da Europa Ocidental e extensas áreas das regiões central e oriental tiveram agosto mais seco que o normal. O déficit de precipitação foi particularmente significativo em países como Áustria, República Tcheca, Eslováquia, Hungria e Romênia e nos Bálcãs.
A combinação de calor persistente, solo seco e baixa umidade favoreceu condições de seca e incêndios florestais. Grandes rios europeus também apresentaram vazões excepcionalmente baixas, entre eles Reno e Danúbio, corredores fundamentais para transporte de cargas, indústria e abastecimento no continente.
O verão europeu evidencia uma mudança no padrão observado nas últimas décadas. Enquanto 2003 permaneceu por anos como uma exceção histórica, a sequência recente de temporadas acima da média mostra que episódios de calor extremo estão ocorrendo sobre uma base climática cada vez mais quente.
Com informações do Copernicus Climate Change Service (C3S).
@copernicusecmwf
Acesse o estudo ‘Global surface air temperature anomalies for August’
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