39% das pessoas que tiveram Covid usaram cloroquina, ivermectina ou azitromicina
Estudo revela uso elevado de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid
16 SET 2026 - 09H58 • Por Wilson LopesQuase quatro em cada dez pessoas que relataram ter tido Covid-19 utilizaram cloroquina, ivermectina e/ou azitromicina para tratar a doença, segundo estudo baseado no Epicovid 2.0, realizado em 2024 em 133 municípios de todas as 27 unidades da Federação.
Entre os 9.591 participantes** incluídos na análise, **39,0% relataram o uso de pelo menos um desses medicamentos, classificados pelos pesquisadores como substâncias off-label sem comprovação científica de eficácia contra a Covid-19.
O levantamento mostra que o uso de medicamentos foi ainda mais amplo: 63,0% dos participantes disseram ter utilizado algum medicamento para tratar a Covid-19. Os antitérmicos, usados para controlar febre e sintomas, foram os mais frequentes, com 53,7%, seguidos pelos antibióticos, com 36,2%. A azitromicina apareceu em 27,2% dos relatos, enquanto ivermectina e cloroquina foram mencionadas por 23,6% e 12,1%, respectivamente.
O estudo também identificou que 4,9% dos participantes utilizaram simultaneamente cloroquina, ivermectina e azitromicina. O resultado aparece no diagrama de Venn apresentado pelos pesquisadores, que detalha a sobreposição entre os três medicamentos.
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Norte concentra maiores taxas
As diferenças regionais estão entre os principais resultados do levantamento. A Região Norte apresentou as maiores frequências de uso, seguida por Nordeste e Centro-Oeste. No indicador que reúne cloroquina, ivermectina e azitromicina, o índice chegou a 54,0% no Norte, contra 43,5% no Nordeste e 43,6% no Centro-Oeste. No Sudeste, foram 34,2%, e no Sul, 32,9%.
A diferença também aparece no uso isolado de cloroquina. A proporção foi de 19,9% no Norte, 12,1% no Nordeste, 17,6% no Centro-Oeste, 8,5% no Sudeste e 12,0% no Sul. Para ivermectina, o Norte apresentou 32,7%, ante 29,8% no Nordeste, 31,8% no Centro-Oeste, 18,3% no Sudeste e 19,4% no Sul.
O artigo não divulga taxas individualizadas por cidade ou Estado. Assim, embora o Epicovid 2.0 tenha alcançado todas as 27 unidades federativas, o estudo analisado não permite estabelecer um ranking estadual ou municipal.
Mulheres usaram mais medicamentos, mas cloroquina teve exceção
As mulheres apresentaram maior frequência de uso de antibióticos, antitérmicos, azitromicina, do conjunto CIA e de qualquer medicamento. No indicador CIA, a diferença foi de 43,1% entre mulheres contra 34,4% entre homens.
A cloroquina, porém, apresentou comportamento diferente: 13,5% dos homens relataram seu uso, contra 10,7% das mulheres. A diferença foi considerada limítrofe pelos pesquisadores, com p = 0,056.
A faixa etária de 40 a 59 anos concentrou as maiores frequências para vários medicamentos, embora o padrão não tenha sido uniforme para todas as substâncias.
Menor renda aparece associada a maior consumo
O levantamento encontrou uma relação inversa entre renda familiar e uso de medicamentos. O consumo caiu à medida que aumentou a renda, especialmente no caso de antitérmicos, cloroquina e qualquer medicamento.
Entre aqueles com renda inferior a um salário mínimo, por exemplo, 13,7% relataram uso de cloroquina, contra 8,1% entre aqueles com renda de cinco salários mínimos ou mais. Para qualquer medicamento, os índices foram de 70,1% e 55,1%, respectivamente.
Na escolaridade, os pesquisadores encontraram maiores frequências, para algumas categorias, entre pessoas com cinco a oito anos de estudo. O artigo ressalta, portanto, que a relação entre escolaridade e consumo não é uniforme para todos os medicamentos.
Evangélicos apresentaram maiores frequências
O levantamento também investigou religião. Entre os evangélicos, 15,1% relataram uso de cloroquina e 27,7% de ivermectina. Entre católicos, os índices foram de 12,2% e 23,6%; entre pessoas sem religião, 10,0% e 18,8%.
Os pesquisadores, entretanto, classificam essas associações como limítrofes do ponto de vista estatístico e recomendam cautela na interpretação. O artigo menciona que as diferenças podem refletir padrões socioculturais relacionados à influência de discursos de líderes religiosos, mas não estabelece uma relação causal.
Desconfiança nos cientistas coincide com maior uso de cloroquina
Uma das diferenças mais marcantes aparece quando os participantes são divididos conforme a confiança nos cientistas. O uso de cloroquina foi relatado por 20,6% daqueles que disseram desconfiar dos cientistas, contra 10,1% entre os que afirmaram confiar. O estudo considera a primeira proporção aproximadamente duas vezes maior, com p < 0,001.
No caso da combinação cloroquina/ivermectina, o índice também foi maior entre os desconfiados: 34,0% contra 26,2%, diferença estatisticamente significativa, com p = 0,022.
Apesar disso, o indicador mais amplo CIA não apresentou diferença estatisticamente significativa segundo confiança nos cientistas: 43,5% entre os que desconfiavam e 37,9% entre os que confiavam, com p = 0,232. Esse detalhe é importante porque impede generalizar o efeito observado para todas as substâncias analisadas.
Atendimento médico não significa necessariamente tratamento adequado
Outro resultado chama atenção: o consumo foi maior justamente entre os participantes que disseram ter procurado algum serviço médico durante o episódio de Covid. O indicador CIA chegou a 44,7% nesse grupo, contra 26,1% entre aqueles que não buscaram atendimento.
Os autores, porém, alertam que os dados não permitem saber se os medicamentos foram prescritos por médicos ou utilizados por iniciativa própria. Por isso, o estudo não permite atribuir o resultado exclusivamente à automedicação. Os pesquisadores consideram possível que parte do consumo esteja relacionada a prescrições ou orientações inadequadas.
Estimativa pode estar subestimada
O próprio estudo ressalta que os resultados podem representar uma estimativa inferior ao uso real. Pessoas que morreram em decorrência da Covid não puderam participar da pesquisa retrospectiva; além disso, o levantamento não contabilizou o uso preventivo de medicamentos off-label. Também ficaram potencialmente de fora pessoas com episódios assintomáticos ou que não foram testadas.
Os autores destacam ainda que os municípios pesquisados são cidades-sentinelas, geralmente maiores e mais desenvolvidas, o que exige cautela para extrapolar os resultados para municípios pequenos e áreas rurais.
O estudo conclui que os resultados reforçam a necessidade de comunicação de risco, campanhas educativas sobre uso racional de medicamentos e estratégias de comunicação capazes de alcançar os grupos com maior frequência de consumo, incluindo mulheres, moradores da metade norte do país, evangélicos e pessoas de menor nível socioeconômico.
O estudo “Padrões de uso de medicamentos em indivíduos com covid-19 no Brasil: Epicovid 2.0” foi elaborado pelos pesquisadores Romina Buffarini, Cesar Gomes Victora, Pedro Curi Hallal e Mariângela Freitas da Silveira, no âmbito do projeto Epicovid 2.0, vinculado à Universidade Federal de Pelotas (UFPel). O trabalho foi publicado em 2026 na Revista de Saúde Pública e contou com financiamento do Ministério da Saúde, por meio do Termo de Execução Descentralizada nº 25/2023.
Com informações da Revista de Saúde Pública (RSP)
@ufpeloficial @minsaude @revistadesaudepublica @illinois1867
Acesse o estudo “Padrões de uso de medicamentos em indivíduos com covid-19 no Brasil: Epicovid 2.0”
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