USP estima impacto de R$ 141 bilhões das bets sobre a economia brasileira
Pesquisa do Made/FEA-USP calcula que a redução do consumo associada às apostas equivaleu a até 1,1% do PIB de 2025, além de perda líquida de até R$ 46 bilhões para as contas públicas
17 SET 2026 - 10H14 • Por Wilson LopesAs apostas esportivas on-line podem ter reduzido entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões a atividade econômica brasileira em 2025, segundo estimativa do Made, da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP).
O valor corresponde a 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) e resulta da redução do consumo provocada pela transferência de renda das famílias para as plataformas de apostas.
O estudo, publicado em agosto de 2026, parte de uma estimativa anterior do Centro Celso Furtado, segundo a qual as famílias brasileiras transferiram R$ 62,5 bilhões líquidos para as plataformas de apostas em 2025. O cálculo considera a diferença entre o dinheiro apostado e os valores que retornaram aos jogadores.
A dimensão do fenômeno aparece também nas estatísticas de pagamentos. Segundo o Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, o volume adicional de transações via Pix atribuído às bets chegou a R$ 350,97 bilhões ao longo de 2025. O valor representa o fluxo de pagamentos associado à expansão das apostas e não deve ser confundido com o dinheiro efetivamente perdido pelas famílias.
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Expansão do mercado de apostas esportivas
A análise mostra que a mudança foi rápida. Até meados de 2024, as transferências mensais de pessoas físicas para empresas do segmento de artes, cultura, esporte e recreação permaneciam relativamente estáveis. A partir do início de 2025, a série passou de aproximadamente R$ 5 bilhões para mais de R$ 25 bilhões por mês, chegando a um pico próximo de R$ 42 bilhões em meados daquele ano. O estudo atribui essa ruptura principalmente à expansão do mercado de apostas esportivas.
Para estimar o impacto, os pesquisadores construíram um cenário contrafactual, utilizando um modelo estatístico para projetar como as transações teriam evoluído na ausência do choque provocado pelas bets. A diferença entre o comportamento observado e essa trajetória estimada foi utilizada como aproximação do efeito das apostas. O próprio boletim ressalva que o procedimento fornece uma estimativa de ordem de grandeza, e não uma mensuração causal precisa.
O impacto calculado sobre a economia decorre principalmente do comportamento das famílias. De acordo com o estudo do Made, uma parcela da renda direcionada às apostas deixa de ser utilizada na compra de alimentos, roupas, serviços, bens duráveis e outros produtos. Como famílias de menor renda tendem a transformar uma parcela maior da renda disponível em consumo, a concentração das perdas nessas faixas produz um efeito maior sobre a demanda da economia.
52% dos apostadores recebiam até dois salários mínimos
Os autores trabalharam com diferentes cenários para estimar a distribuição das perdas. Em uma das referências utilizadas, 52% dos apostadores recebiam até dois salários mínimos, enquanto 35% estavam na faixa entre dois e seis salários mínimos e 13%, acima de seis salários mínimos. Outra pesquisa utilizada no estudo apresentou distribuição diferente, razão pela qual os pesquisadores construíram cenários combinados.
O efeito estimado também alcança as contas públicas. Considerando uma relação entre variação do PIB e arrecadação, o Made calcula que a menor atividade econômica poderia representar perda de R$ 31,1 bilhões a R$ 54,8 bilhões em receitas tributárias. Descontando cerca de R$ 9 bilhões de arrecadação direta das plataformas de apostas, o impacto líquido sobre as contas públicas seria negativo entre R$ 22 bilhões e R$ 46 bilhões, segundo o exercício apresentado.
O estudo ainda estima possíveis efeitos sobre a distribuição de renda. Como hipótese, os pesquisadores calculam que a transferência de R$ 62,5 bilhões das famílias para o setor de apostas poderia elevar a concentração de renda no 1% mais rico entre 0,5% e 2,1%, dependendo de quem recebe os lucros das plataformas. O resultado é uma simulação e não uma medição direta da alteração do índice de desigualdade.
14% do aumento do endividamento das famílias
Há ainda um cenário relacionado ao endividamento. O estudo considera que o saldo de crédito das pessoas físicas aumentou cerca de R$ 450 bilhões em 2025. Se toda a transferência líquida de R$ 62,5 bilhões para as bets tivesse sido financiada por novo crédito, hipótese classificada pelos próprios autores como extrema, ela equivaleria a aproximadamente 14% do aumento do endividamento das famílias naquele ano.
Outro ponto observado ocorreu em outubro de 2025, quando entrou em vigor a proibição de apostas por beneficiários do Bolsa Família. O boletim fiscal identificou desaceleração das transações e aproximação da série observada em relação ao cenário contrafactual. Para os autores, o comportamento indica que as famílias de menor renda tinham participação relevante no mercado de apostas.
O resultado coloca em perspectiva a arrecadação direta gerada pelo setor. Embora as bets tenham produzido receitas tributárias, a análise do Made sustenta que o efeito econômico não pode ser avaliado apenas pelo imposto recolhido pelas plataformas. O cálculo também considera a redução do consumo, a atividade econômica e a arrecadação associada a outros setores da economia.
O que os números não permitem afirmar
Os dados não permitem concluir que R$ 141 bilhões tenham sido “perdidos do PIB” de forma direta, nem que R$ 351 bilhões tenham sido efetivamente perdidos pelos apostadores. O primeiro valor é uma estimativa de redução da atividade econômica e o segundo representa volume adicional de transações.
Também não é possível afirmar, com base nesse estudo, quantas pessoas apostaram em cada estado ou município, nem estabelecer quais cidades sofreram maior impacto. A análise é nacional e utiliza hipóteses econômicas para estimar os efeitos agregados.
Com informações do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades | FEA-USP.
@made_usp
Acesse o estudo ‘O custo econômico das bets: efeitos sobre PIB, arrecadação e desigualdade’
Acesse o Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros
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