Uma cruz para o povo carregar
Monumento de 102 metros começa a ser construído em Cruz Alta com recursos de emendas parlamentares e custo aproximado de R$ 30 milhões
18 SET 2026 - 10H07 • Por Wilson LopesA Prefeitura de Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, iniciou na primeira semana de setembro de 2026 a construção de uma cruz monumental de 102 metros de altura, integrada a um complexo turístico religioso. O projeto é financiado por emendas parlamentares destinadas pelo deputado federal Bibo Nunes (PL-RS) e teve seu orçamento atualizado de aproximadamente R$ 15,5 milhões para cerca de R$ 30 milhões, segundo informações baseadas no plano de trabalho da emenda.
A obra prevê ainda parque temático, teleférico, jardins e um pomar com espécies associadas à Bíblia. A estrutura está sendo implantada em uma área de aproximadamente 20 hectares, às margens da BR-158 e em frente ao Parque de Exposições de Cruz Alta.
O terreno foi cedido pelo Exército Brasileiro ao município. O projeto havia sido apresentado publicamente pelo parlamentar em 2023, quando também foram anunciados elevador panorâmico, restaurante, iluminação especial e parque temático dedicado à história de Nossa Senhora de Fátima.
Na época do lançamento da pedra fundamental, em outubro de 2023, Bibo Nunes informou que havia R$ 5 milhões disponíveis para a execução do projeto. A atualização posterior elevou a previsão de investimento para aproximadamente R$ 30 milhões. A diferença entre o valor inicialmente anunciado e o orçamento atual é, portanto, um dos principais pontos a serem acompanhados durante a execução da obra.
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Cruz Alta: cidade de 60 mil habitantes
Cruz Alta está localizada na região noroeste do Rio Grande do Sul e tinha 60.454 habitantes na estimativa do IBGE para 2025. No Censo 2022, eram 58.913 moradores. O município possui 1.360,5 km² de área territorial e densidade demográfica de 43,3 habitantes por km². O PIB per capita registrado pelo IBGE foi de R$ 74.684,47 em 2023.
O município tem forte relação com atividades agropecuárias e logística regional. A localização junto à BR-158 e sua posição no território gaúcho são apontadas como elementos relevantes para a estratégia de atração de visitantes e circulação econômica associada ao empreendimento.
Projeto aposta no turismo religioso
A justificativa apresentada pelos responsáveis pelo projeto é transformar o monumento em um novo ponto turístico e estimular a atividade econômica local. Em discurso na Câmara dos Deputados em 2023, Bibo Nunes afirmou que o empreendimento poderia ampliar o turismo religioso e gerar circulação de visitantes, hospedagem, alimentação e comércio.
O complexo previsto vai além da cruz. O projeto contempla elevador panorâmico, parque temático, teleférico, jardins e um pomar bíblico com dezenas de espécies. Em uma apresentação de 2023, o parlamentar mencionou cerca de 70 plantas associadas a espécies citadas na Bíblia.
A expectativa de aumento do fluxo turístico, porém, permanece uma projeção, e não um resultado comprovado. Não foram apresentados, nas fontes consultadas, dados que permitam estimar quantos visitantes o complexo deverá receber, quanto poderá gerar em receita turística ou qual será o prazo para recuperar o investimento por meio da atividade econômica.
"Maior cruz do mundo" exige ressalva
A denominação utilizada na divulgação do projeto como "maior cruz do mundo" não deve ser reproduzida sem contextualização.
O Guinness World Records registra como maior cruz independente do mundo a estrutura no Vale dos Caídos, na Espanha, com 152,4 metros de altura. O monumento brasileiro, com 102 metros previstos, ficaria 50,4 metros abaixo dessa marca.
A afirmação de que será a maior pode ser apresentada como a denominação utilizada pelos responsáveis pelo projeto, mas não como um recorde mundial já comprovado.
O ponto central: dinheiro público e execução
As emendas parlamentares são instrumentos previstos no Orçamento da União por meio dos quais deputados e senadores indicam despesas específicas. No caso de Bibo Nunes, a Câmara registra transferências especiais e outras emendas destinadas ao Rio Grande do Sul.
A principal emenda identificada para a cruz foi de R$ 5 milhões, enquanto o custo atualizado do projeto chegou a aproximadamente R$ 30 milhões. Isso significa que não é correto afirmar, sem especificação, que "R$ 30 milhões em emendas já foram pagos para a construção da cruz". O dado disponível indica um projeto orçado em cerca de R$ 30 milhões, cuja fonte de financiamento inclui emendas parlamentares.
Outro aspecto que merece acompanhamento é a execução financeira: quanto foi empenhado, quanto foi efetivamente pago, quais parcelas correspondem especificamente à cruz e quais se destinam ao restante do complexo turístico. Essas informações são necessárias para dimensionar o gasto público efetivamente realizado.
Um projeto que começou em 2023
A ideia não é recente. O projeto foi anunciado publicamente em 2023, quando a cruz era apresentada com aproximadamente 100 metros e passou posteriormente a ser especificada com 102 metros. A pedra fundamental foi lançada em outubro daquele ano, com previsão inicial de conclusão em dois anos.
A retomada das obras em setembro de 2026 ocorre, portanto, cerca de três anos após o lançamento da pedra fundamental. O intervalo entre o anúncio inicial e o início efetivo da construção é outro elemento relevante para acompanhar cronograma, atualização de custos e execução das demais estruturas previstas.
O poder público não pode estabelecer, privilegiar ou financiar uma religião
O Brasil é um Estado laico, o que significa que o poder público não pode estabelecer, privilegiar ou financiar uma religião. O artigo 19, I, da Constituição determina que União, estados e municípios não podem estabelecer cultos ou igrejas, subvencioná-los ou manter com eles relações de dependência ou aliança. Mas o próprio dispositivo acrescenta uma exceção: "ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público".
O Supremo Tribunal Federal (STF) também já decidiu que a presença de símbolos religiosos em espaços públicos não viola, por si só, a laicidade do Estado, desde que esteja relacionada a manifestações culturais da sociedade e não represente promoção de uma determinada religião.
No caso da Cruz Monumental de Cruz Alta, portanto, a questão é verificar se o investimento está efetivamente justificado como equipamento turístico e de interesse coletivo ou se configura, na prática, financiamento público de uma finalidade religiosa. Essa distinção é fundamental para avaliar sua compatibilidade com a Constituição.
Com informações da Prefeitura de Cruz Alta.
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Acesse o Projeto do Parque Antônio Carlos Gomes Nunes e Conceito do Monumento da Cruz