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Apostas online

Do celular ao SUS: bets transformam apostas em problema social e deixam conta bilionária

Avanço das apostas online entre jovens e mulheres, endividamento, problemas de saúde mental e pressão sobre o SUS revelam a dimensão social de um mercado que movimenta centenas de bilhões de reais

22 SET 2026 - 09H21 • Por Wilson Lopes
O Ministério da Saúde também registra crescimento da procura por atendimento relacionado ao transtorno do jogo - Magnific

As apostas online deixaram de ocupar apenas o espaço do entretenimento esportivo e passaram a produzir efeitos mensuráveis sobre a saúde, o orçamento das famílias, a educação e a própria atividade econômica brasileira.

Dados reunidos pela Agência Cidades mostram que o fenômeno alcança diferentes faixas etárias e grupos sociais e já mobiliza ações específicas do governo federal, que ampliou o atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e criou mecanismos para restringir o acesso às plataformas.

O tamanho do mercado ajuda a dimensionar o problema. Segundo levantamento elaborado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), com dados do Banco Central, as famílias brasileiras transferiram às plataformas de apostas um valor líquido estimado em R$ 62,5 bilhões em 2025 — diferença entre o total enviado pelos apostadores e os valores devolvidos em prêmios. 

No mesmo período, as bets movimentaram aproximadamente R$ 350,97 bilhões em transferências via Pix. O valor líquido retirado das famílias correspondeu a cerca de 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta dos domicílios.

A magnitude econômica também aparece em estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da FEA/USP. A pesquisa estima que, em 2025, as apostas tenham retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica, equivalentes a 0,9% a 1,1% do PIB. Os pesquisadores estimam ainda uma perda de arrecadação entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões. Trata-se, entretanto, de uma estimativa acadêmica, e não de uma estatística oficial de contas nacionais.

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Pesquisa estima que, em 2025, as apostas tenham retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica, equivalentes a 0,9% a 1,1% do PIB (Magnific)

Um mercado que chegou ao celular — e aos mais jovens

A expansão preocupa especialmente quando o recorte é etário. Pesquisa realizada em 2026 pela Frente Parlamentar Mista da Educação, com 1.912 estudantes de 191 escolas de todo o país, identificou que 20,4% dos alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio já haviam feito apostas online. Entre estudantes do 3.º ano do ensino médio, o percentual chegou a 49,7%.

O levantamento também identificou início precoce: 9,5% dos estudantes disseram ter feito a primeira aposta aos 11 anos. Entre os meninos, 27,8% declararam já ter apostado, contra 12,6% das meninas. No ensino médio, 41,7% dos meninos relataram experiência com apostas.

A legislação brasileira proíbe menores de 18 anos de apostar. Desde 1.º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podem operar nacionalmente no mercado regulado.

O problema, porém, não se restringe aos adolescentes. Levantamento citado pela Agência Brasil aponta que pelo menos 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024, e quase metade teria enfrentado algum nível de endividamento relacionado às apostas.

Apostas também avançam entre as mulheres

Uma pesquisa nacional realizada em 2026 com 2.008 homens e mulheres, baseada na distribuição populacional do Censo 2022 e da PNAD 2025, identificou que 42% das mulheres brasileiras já apostaram ou continuam apostando online. Desse total, 20% declararam apostar atualmente e 22% disseram ter apostado no passado.

O levantamento encontrou diferenças importantes dentro desse grupo. Entre as mulheres que apostam, 72% têm filhos, e mulheres com filhos apresentaram frequência de apostas aproximadamente 1,6 vez superior à das mulheres sem filhos.

A pesquisa também identificou um componente financeiro: parte das entrevistadas relatou utilizar as apostas com a expectativa de complementar a renda ou conseguir dinheiro para despesas domésticas.

Outro dado chama atenção: 7% das mulheres que apostam afirmaram já ter recorrido a agiotas para conseguir dinheiro para apostar. Considerando as mulheres impactadas pelas apostas, 8% disseram que elas próprias ou alguém próximo precisou recorrer a esse tipo de empréstimo.

A lógica da recuperação da perda

O endividamento aparece como um dos principais pontos de ruptura entre o entretenimento eventual e o comportamento problemático.

Pesquisa do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises do Rio de Janeiro (IFec-RJ), realizada com 1.024 moradores da Região Metropolitana do Rio, mostrou que 22,8% já haviam participado de apostas online.

Entre os apostadores, 22,3% disseram ter dificuldade para parar, 29,1% já haviam sentido culpa por apostar e 34,8% afirmaram ter sido criticados pelo hábito. Outros 42% disseram que, após perder dinheiro, voltaram a apostar na tentativa de recuperar o prejuízo.

O estudo estimou gasto médio mensal de R$ 96,30 por apostador. Na região pesquisada, o instituto calculou aproximadamente R$ 182 milhões movimentados por mês em apostas online.

A pesquisa também encontrou uma relação entre apostas e endividamento: 5,1% dos entrevistados que já haviam apostado afirmaram ter contraído dívidas por causa das apostas. O percentual precisa ser interpretado dentro do universo pesquisado e não deve ser extrapolado diretamente para toda a população brasileira.

O custo chega ao SUS

O impacto não termina na conta bancária. Estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), publicado pela Agência Brasil, estimou em R$ 30,6 bilhões por ano o impacto financeiro associado aos danos à saúde relacionados às apostas online. A estimativa considera despesas e perdas associadas a problemas como depressão, ansiedade e mortes por suicídio.

O Ministério da Saúde também registra crescimento da procura por atendimento relacionado ao transtorno do jogo. Segundo dados divulgados pelo governo, os atendimentos do SUS classificados com códigos relacionados ao jogo patológico cresceram 104% entre janeiro de 2018 e maio de 2025, totalizando 10.553 atendimentos no período, com predominância de pessoas entre 20 e 49 anos.

O próprio Ministério da Saúde reconhece o transtorno do jogo como um problema de saúde e informa que o SUS dispõe de atendimento pela Rede de Atenção Psicossocial, incluindo Unidades Básicas de Saúde e Centros de Atenção Psicossocial.

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A preocupação aumenta quando o endividamento passa a ser acompanhado por culpa, isolamento, desesperança e sofrimento psíquico (Magnific)

De 600 para até 100 mil atendimentos por mês

A resposta do governo federal foi ampliada em 2026. O serviço de teleatendimento especializado para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas começou com capacidade média de 600 atendimentos mensais. Em agosto, o SUS passou a oferecer capacidade de até 100 mil teleatendimentos por mês, por meio do Meu SUS Digital, em parceria com os ministérios da Saúde e da Fazenda e a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS).

O acesso começa pelo aplicativo ou pela versão web do Meu SUS Digital. O usuário realiza um autoteste e, nos casos classificados como de risco moderado ou elevado, pode ser encaminhado para o teleatendimento especializado. O serviço também está disponível para familiares.

Entre os sinais de alerta identificados pelo Ministério da Saúde estão dificuldade para reduzir ou interromper as apostas, alterações de sono e humor, ansiedade, irritabilidade, mentiras sobre o comportamento, comprometimento do orçamento e prejuízos nas relações pessoais e profissionais.

Saúde mental: quando a dívida se transforma em sofrimento

A preocupação aumenta quando o endividamento passa a ser acompanhado por culpa, isolamento, desesperança e sofrimento psíquico.

Profissionais ouvidos pela Agência Brasil durante o ‘Setembro Amarelo’ destacaram que pessoas com transtorno do jogo podem chegar aos serviços de saúde apresentando depressão, ansiedade, pensamentos de morte ou ideação suicida, especialmente quando acumulam perdas financeiras e conflitos familiares.

Os especialistas ressaltam, porém, que apostar não significa necessariamente desenvolver depressão ou apresentar comportamento suicida. O risco está associado principalmente aos casos em que o jogo passa a ocupar espaço central na vida, com perda de controle e consequências negativas.

Essa distinção é importante: a relação entre apostas e suicídio deve ser tratada como questão de saúde mental e de fatores associados, e não como uma relação automática de causa e efeito.

Educação também começa a perder espaço para as bets

Os efeitos chegam ao ambiente educacional. Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), citada pela Agência Brasil, mostrou que 34% dos entrevistados disseram que precisariam reduzir os gastos com apostas para conseguir iniciar uma graduação em 2026.

Entre estudantes que já estavam no ensino superior, 14% relataram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso por causa dos gastos com bets. Outros 34% disseram ter deixado de investir em cursos, idiomas ou outras formas de formação, enquanto 33% afirmaram ter deixado de gastar com academia ou atividades físicas.

Os pesquisadores alertam que esses números não significam que todos os jovens estejam sofrendo os mesmos efeitos. O estudo da ABMES, por exemplo, não avaliou desempenho acadêmico nem indicadores de saúde mental.

O governo já bloqueou milhões de CPF

A expansão do problema também provocou a criação de mecanismos de proteção. A Plataforma Centralizada de Autoexclusão permite que o cidadão solicite voluntariamente o bloqueio de seu CPF nas plataformas autorizadas. Em setembro de 2026, mais de 1 milhão de brasileiros já haviam utilizado o mecanismo. Entre os usuários, 35% apontaram perda de controle sobre as apostas como motivo para o bloqueio.

Paralelamente, o governo criou o chamado Módulo de Impedidos, que verifica automaticamente CPF de pessoas que não podem manter contas em plataformas licenciadas. A medida alcança beneficiários do Bolsa Família e BPC, além de participantes de determinados programas de renegociação de dívidas e beneficiários do Fies.

Desde outubro de 2025, o sistema já havia impedido o acesso de mais de 3 milhões de pessoas.

Em agosto de 2026, considerando autoexclusões e outros bloqueios, o governo informou que aproximadamente 5 milhões de brasileiros haviam deixado de acessar plataformas credenciadas, número equivalente a cerca de 12,5% dos 40 milhões de usuários ativos cadastrados no Sistema de Gestão de Apostas (Sigap).

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Um problema que ultrapassa o apostador

Os números revelam que a discussão sobre as bets não pode ser reduzida ao comportamento individual de quem aposta.

Há uma dimensão econômica, porque dezenas de bilhões de reais deixam o orçamento das famílias e deixam de ser destinados ao consumo, à educação, à alimentação ou à quitação de dívidas.

Há uma dimensão de saúde pública, porque o transtorno do jogo pode demandar tratamento psicológico e psiquiátrico e está associado a sofrimento emocional.

Há uma dimensão educacional, porque pesquisas recentes identificam estudantes sacrificando gastos relacionados à formação para manter apostas.

E há uma dimensão regulatória. Auditoria do Tribunal de Contas da União identificou riscos associados à atuação de operadores ilegais e estimou que esse segmento possa representar entre 41% e 51% do volume total de apostas, equivalente a até R$ 40 bilhões anuais. O TCU também apontou riscos de lavagem de dinheiro, manipulação de resultados e evasão fiscal. 

O desafio de conter um mercado que funciona 24 horas

O modelo das apostas online reúne características que ampliam a exposição: acesso permanente pelo celular, notificações, bônus, apostas em tempo real e mecanismos de recompensa variável.

O Ministério da Saúde considera que esses elementos podem estimular a repetição e prolongar o tempo ou o dinheiro destinado às apostas.

O desafio, portanto, deixou de ser apenas controlar um setor econômico em expansão. É também identificar precocemente comportamentos de risco, impedir o acesso de menores, reduzir a exposição de grupos vulneráveis, oferecer tratamento e evitar que perdas financeiras evoluam para endividamento, conflitos familiares e sofrimento psíquico.

Os dados disponíveis em 2026 mostram uma transformação importante: as bets já não representam somente dinheiro apostado. Elas passaram a representar dinheiro retirado das famílias, demanda adicional para o sistema de saúde, impactos sobre decisões educacionais e uma nova frente de regulação pública.

A dimensão exata desse fenômeno ainda está sendo mensurada. Parte dos números disponíveis são registros administrativos oficiais; outros são estimativas produzidas por universidades, entidades de pesquisa ou organizações privadas. Mas, quando observados em conjunto, os diferentes levantamentos apontam para um mesmo fato documentado: as apostas online se tornaram um fenômeno econômico e social de grande escala no Brasil e passaram a exigir respostas simultâneas nas áreas de saúde, educação, proteção social, finanças e fiscalização.

Com informações do Ministério da Saúde, Ministério da Fazenda, Banco Central do Brasil, Serpro, Tribunal de Contas da União (TCU) e Agência Brasil.

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Saiba Como pedir a autoexclusão das plataformas de apostas

Acesse a legislação e a regulamentação das apostas de quota fixa (online)

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