Custo da moradia compromete alimentação, saúde, poupança e planos de futuro
Pesquisa da Habitat for Humanity em 22 países revela que, no Brasil, 67% consideram que o sistema habitacional não funciona, enquanto 37% estão insatisfeitos com a própria moradia
8 OUT 2026 - 09H27 • Por Wilson LopesManter uma casa está levando milhões de pessoas a renunciar a outras necessidades básicas e projetos de vida. Pesquisa internacional da Habitat for Humanity International, realizada entre abril e junho de 2026 com 30.758 pessoas de 22 países, mostra que 75% dos entrevistados reduziram pelo menos uma despesa no último ano para conseguir pagar os custos de moradia.
O impacto aparece na alimentação, na poupança, no trabalho, na saúde e nos planos familiares, revelando que o preço da habitação vai muito além do valor do aluguel, financiamento ou manutenção.
Entre os entrevistados, 33% disseram ter reduzido gastos com comida ou supermercado, 32% recorreram à poupança ou a reservas de emergência, 31% passaram a trabalhar mais e 13% adiaram ou evitaram cuidados médicos para fazer frente às despesas da casa. Entre pessoas que vivem em arranjos habitacionais informais, 89% fizeram algum tipo de corte e 18% deixaram de procurar atendimento médico ou o adiaram.
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O estudo, intitulado Home at What Cost?, foi produzido para avaliar os efeitos da moradia sobre segurança, bem-estar, saúde e decisões de vida. A pesquisa foi conduzida pela Edelman Intelligence a pedido da Habitat for Humanity International e combinou uma amostra principal de 1.000 entrevistados por país com amostras adicionais de pessoas de baixa renda e em situações habitacionais informais.
A pesquisa mostra que o problema não termina quando o aluguel é pago ou a prestação é quitada. 48% dos entrevistados globais temem que um imprevisto possa ameaçar sua capacidade de continuar morando onde estão. Entre pessoas em arranjos informais, a proporção chega a 67%. Doença, desemprego, aumento do aluguel ou uma emergência financeira podem ser suficientes para romper a estabilidade habitacional.
A relação com a saúde também aparece de forma direta. 35% consideram a moradia uma das maiores fontes de estresse de suas vidas, percentual que chega a 64% entre pessoas em arranjos informais. Em contrapartida, 89% afirmam que uma moradia segura, confortável e confiável contribui para a saúde mental.
A pressão também interfere no planejamento familiar. 56% afirmam que os custos da moradia dificultam pensar em ter filhos, percentual que sobe para 62% entre Gen Z e millennials. Entre pais e responsáveis, 58% temem que as despesas com habitação limitem as oportunidades que conseguem oferecer às crianças. Entre os locatários, a preocupação chega a 68%, contra 54% entre proprietários.
Brasil tem percepção crítica do sistema habitacional
O Brasil aparece entre os 22 países pesquisados e é classificado como de renda média pela metodologia utilizada no estudo. O país apresenta 37% de insatisfação com a moradia, dois pontos percentuais acima da média global de 35%. O índice brasileiro fica distante dos 66% registrados na Costa do Marfim e dos 63% da Etiópia, mas supera países como Estados Unidos, Reino Unido, Polônia, Egito e Indonésia.
Quando o indicador é o estresse provocado pela moradia, entretanto, o Brasil aparece em posição diferente. 23% dos brasileiros entrevistados dizem que a habitação está entre as maiores fontes de estresse, contra 35% na média dos 22 países. O percentual brasileiro é inferior ao observado no Nepal, de 68%, e na Etiópia, de 58%, e fica acima apenas da Indonésia, com 21%.
O contraste aparece na percepção sobre o funcionamento dos sistemas habitacionais. No Brasil, 67% dos entrevistados dizem que o sistema habitacional do país está quebrado ou não funciona, percentual superior aos 56% registrados no total apresentado pelo estudo. O indicador expressa a percepção dos entrevistados sobre o funcionamento do sistema habitacional, e não uma avaliação técnica ou institucional dos países.
A pesquisa também aponta que 81% dos entrevistados globalmente consideram que o aumento dos custos dificulta comprar uma casa. Entre os não proprietários que não esperam conseguir comprar um imóvel, 53% apontam o preço das casas como barreira, 50% citam renda insuficiente e 41% dizem não ter poupança suficiente para a entrada. No Brasil, 8% dos não proprietários pesquisados afirmaram não esperar ter uma casa própria em algum momento da vida, abaixo da média global de 23%.
Segurança também entra na conta
O levantamento mostra ainda que o custo da moradia pode ser pago com perda de segurança. 40% dos entrevistados globais dizem aceitar algum risco relacionado à segurança da habitação porque opções mais seguras estão fora de seu alcance. Além disso, 18% afirmam que suas casas não os protegem adequadamente de eventos climáticos extremos, como calor, frio ou enchentes.
O clima acrescenta uma nova dimensão ao problema. Três em cada dez entrevistados dizem que eventos climáticos extremos dificultam a sensação de segurança onde vivem. A mesma proporção acredita que o clima extremo poderá dificultar vivendo onde está nos próximos três anos. Entre pessoas em arranjos informais, esse último índice chega a 41%.
A pesquisa encontrou ainda uma percepção praticamente universal sobre o papel da moradia. 89% consideram que uma habitação segura e adequada é um direito humano básico, e 77% gostariam de ter mais moradias sociais ou acessíveis em seus bairros. Para 89%, uma moradia segura, confortável e confiável contribui para a saúde mental; 87% associam esse tipo de habitação à saúde física.
O levantamento aponta, por isso, uma diferença entre a existência de uma moradia e sua capacidade de oferecer estabilidade. Para os entrevistados, uma casa adequada precisa combinar segurança, espaço, privacidade, condições físicas satisfatórias e possibilidade de pagamento sem comprometer outras necessidades.
A Habitat for Humanity recomenda que governos ampliem investimentos em habitação social e acessível, melhorem os imóveis existentes, facilitem o acesso ao financiamento, fortaleçam a proteção de inquilinos e passem a medir não apenas oferta, preços e propriedade, mas também segurança habitacional, estabilidade e os sacrifícios feitos pelas famílias para permanecer em suas casas.
A conclusão central do relatório é que a crise habitacional não pode ser medida apenas pelo número de pessoas sem teto ou pelo preço dos imóveis. Ela também está presente quando uma família tem onde morar, mas precisa comer pior, gastar suas reservas, trabalhar mais, adiar cuidados médicos ou postergar planos de vida para continuar pagando pela própria casa.
Com informações da Habitat para a Humanidade Brasil.
@habitatforhumanity @habitatbrasil @unhabitat @who
Acesse o relatório ‘Home at What Cost?’
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