Pinhais receberá bicicletas movidas a hidrogênio verde
Cidade paranaense contará com hub pioneiro de mobilidade sustentável que combinará bicicletas elétricas, hidrogênio verde, transporte de cargas e integração com o transporte público
14 AGO 2026 - 09H16 • Por Wilson LopesPinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, será uma das duas cidades brasileiras a receber a operação-piloto do HUBMOB, projeto de mobilidade sustentável que combina bicicletas elétricas, bicicletas com propulsão a hidrogênio verde, triciclos de carga, estruturas inteligentes para estacionamento e uma plataforma digital de Mobility as a Service (MaaS). A outra cidade escolhida é Niterói, no Rio de Janeiro.
A iniciativa é desenvolvida pela startup paranaense Bike Fácil e recebeu R$ 9,134 milhões em recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), por meio de subvenção da Finep, com contrapartida de R$ 501,16 mil. O convênio tem vigência de março de 2025 a março de 2027.
O projeto prevê a integração de diferentes soluções de micromobilidade em um mesmo sistema. Além das bicicletas elétricas e movidas a hidrogênio verde, estão previstos triciclos para transporte de cargas, lockers ou estruturas inteligentes para guarda das bicicletas e um aplicativo capaz de integrar diferentes serviços de deslocamento.
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As estações deverão ser conectadas ao transporte público, criando pontos de integração entre a bicicleta e outros meios de transporte. A expectativa divulgada pelos responsáveis pelo projeto é de que cada veículo compartilhado possa evitar a emissão de até 2 quilos de CO por mês. A tecnologia de hidrogênio verde também é apresentada como capaz de ampliar significativamente a autonomia das bicicletas elétricas.
A operação-piloto foi anunciada para começar em 2026 em Pinhais e Niterói. A escolha das duas cidades é relevante porque coloca lado a lado municípios de regiões metropolitanas distintas — Curitiba, no Sul, e Rio de Janeiro, no Sudeste — para testar uma mesma solução de mobilidade em realidades urbanas diferentes.
A Bike Fácil já possui projetos ou operações em mais de 50 cidades brasileiras e informou que pretende levar a tecnologia posteriormente para outros países da América Latina, especialmente Argentina, Chile e Colômbia.
Ecossistema de inovação de Pinhais
O desenvolvimento do HUBMOB está ligado ao ecossistema de inovação de Pinhais. A proposta foi estruturada no âmbito do Conecta Pinhais, que reúne poder público, empresas, startups, instituições de ciência e tecnologia e entidades de apoio ao empreendedorismo. Entre os parceiros científicos e tecnológicos citados estão o Instituto Federal do Paraná (IFPR), a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Coppe/UFRJ, centro de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A articulação contribuiu para a elaboração da proposta apresentada ao edital da Finep em 2024.
O projeto também se encaixa em uma estratégia mais ampla de Pinhais para transformar inovação em política pública. O Decreto Municipal nº 425/2024 regulamentou o Programa Sandbox Pinhais, criando ambientes experimentais de inovação científica, tecnológica e empreendedora nos quais soluções podem ser testadas sob regras e condições controladas.
A própria administração municipal aponta o sandbox, o Conecta Pinhais, o Programa Municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação (PRODEIP) e o Fundo Municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação (FUNDEI) como instrumentos para fortalecer o ecossistema local.
Sistema integrado de micromobilidade compartilhada
Fontes como o Sebrae/PR e a Bike Fácil apresentam o HUBMOB como o primeiro sistema brasileiro desse tipo, no recorte específico de um sistema integrado de micromobilidade compartilhada que inclui bicicletas com propulsão a hidrogênio verde.
Isso não significa, entretanto, que Pinhais esteja criando o primeiro hub de mobilidade sustentável do Brasil, nem que o conceito de sandbox regulatório seja inédito. Já existem outras estruturas brasileiras de inovação e mobilidade com características semelhantes.
O Sistema Fiep, por exemplo, mantém o Habitat Mobilidade, ambiente para empresas e startups desenvolverem e testarem soluções de mobilidade, além de um Centro de Mobilidade Sustentável e Inteligente. Da mesma forma, Niterói já regulamentava seu próprio Sandbox Regulatório desde agosto de 2023, antes do Decreto 425/2024 de Pinhais, e Curitiba aprovou em junho de 2024 uma lei específica para seu ambiente regulatório experimental.
A própria escolha de Niterói para a operação-piloto reforça essa distinção. O município fluminense possui um Sandbox Regulatório em funcionamento desde 2023 e já realizou ciclos de testes com startups em áreas como monitoramento urbano, saúde, reciclagem e cidades inteligentes. Em 2026, Niterói abriu o segundo ciclo do programa, permitindo novos testes de soluções tecnológicas em ambiente real.
Assim, o diferencial do HUBMOB não está simplesmente no uso de um sandbox, mas na combinação entre micromobilidade compartilhada, integração modal, tecnologia digital e hidrogênio verde.
Pinhais em números
Com apenas 61,01 km², Pinhais é um dos municípios mais densamente povoados do Paraná. O Censo 2022 contabilizou 127.019 habitantes, enquanto a estimativa do IBGE para 2025 chegou a 131.255 moradores. A densidade demográfica era de 2.086,76 habitantes por km² no Censo. O município fica imediatamente integrado à dinâmica urbana de Curitiba e faz parte de uma das maiores concentrações metropolitanas do Sul do país.
O perfil econômico ajuda a explicar a escolha da cidade para um projeto de mobilidade tecnológica. O PIB per capita de Pinhais chegou a R$ 77.567,93 em 2023, segundo o IBGE. Em levantamento do Tribunal de Contas do Paraná, com dados de 2021, o PIB municipal havia alcançado R$ 7,96 bilhões, com forte participação do comércio e dos serviços e também da indústria. Naquele ano, o PIB per capita de R$ 59.080 estava acima das médias regional e estadual utilizadas pelo estudo.
O mercado de trabalho também apresenta dimensão significativa para um município de pouco mais de 130 mil habitantes. Dados da RAIS compilados pelo Sebrae apontam 49.479 empregados formais em 2024, remuneração média de R$ 3.006,14 e 9.994 estabelecimentos registrados. Entre os setores que mais empregavam estavam o comércio varejista, com 6.337 trabalhadores, o comércio atacadista, com 5.464, e os serviços de escritório, apoio administrativo e serviços prestados principalmente às empresas, com 2.508.
O ambiente empresarial é predominantemente formado por pequenos negócios. Segundo dados da Receita Federal compilados pelo Sebrae, entre os estabelecimentos registrados até 2025, 48,4% eram Microempreendedores Individuais, 37,2% microempresas e 4,94% empresas de pequeno porte. O comércio varejista, os serviços especializados para construção e o transporte terrestre aparecem entre as atividades com maior número de empresas.
Na educação, Pinhais registrou 98,66% de escolarização entre crianças e adolescentes de 6 a 14 anos no Censo 2022. O município possui IDHM de 0,751, indicador calculado com base nos dados de 2010, e apresentou mortalidade infantil de 9,11 óbitos por mil nascidos vivos em 2023. Em 2024, havia 7.112 matrículas no ensino superior no município.
A densidade urbana, a proximidade de Curitiba, a concentração de atividades econômicas e a existência de um ecossistema de inovação ajudam a formar um ambiente particularmente adequado para testar soluções de micromobilidade. O desafio será transformar o projeto tecnológico em uma alternativa efetivamente utilizada pela população, sobretudo para deslocamentos curtos e para a conexão com o transporte coletivo.
O município foi escolhido como laboratório de uma solução que pretende combinar energia limpa, mobilidade ativa, transporte de cargas, tecnologia digital e integração com o transporte público. O investimento federal de mais de R$ 9 milhões reduz o risco inicial de desenvolvimento tecnológico e permite testar o modelo em condições reais.
O caráter pioneiro, contudo, deve ser comunicado com precisão: o ineditismo está na tecnologia e na integração proposta pelo HUBMOB — especialmente na utilização de hidrogênio verde em bicicletas compartilhadas — e não na existência de hubs de mobilidade sustentável ou de sandboxes regulatórios no Brasil. Se os testes em Pinhais e Niterói demonstrarem viabilidade técnica, segurança, demanda e sustentabilidade econômica, o projeto poderá criar um modelo replicável em outras cidades brasileiras e, posteriormente, em mercados latino-americanos como Argentina, Chile e Colômbia.
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