A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) incluiu três locais brasileiros na Rede de Lugares de História e Memória relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas. O reconhecimento abrange o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro (RJ), a Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador (BA), e a Serra da Barriga, em União dos Palmares (AL).
A iniciativa busca preservar espaços ligados à escravidão, ampliar o conhecimento histórico e estimular ações educativas e o intercâmbio entre comunidades.
Com as três novas inclusões, o Brasil passa a contar com seis locais na rede internacional, criada em 2024. Já integravam a iniciativa o Museu da Inconfidência, em Ouro Preto (MG), o Museu Casa da Hera, em Vassouras (RJ), e o Museu da República, na cidade do Rio de Janeiro.
Os espaços reconhecidos representam diferentes dimensões da história da população negra no país: o desembarque forçado de africanos escravizados, a criação de organizações de apoio mútuo e a resistência coletiva ao regime escravista. A seleção também amplia a presença brasileira em uma iniciativa voltada à preservação do patrimônio histórico e ao enfrentamento do racismo e da discriminação.
Três locais, diferentes dimensões da história
Rio de Janeiro: vestígios do tráfico transatlântico
O Cais do Valongo, localizado na região portuária do Rio de Janeiro, foi um dos principais pontos de desembarque de africanos escravizados nas Américas. O local funcionou entre 1811 e 1831 e teve papel central no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. Seus vestígios arqueológicos foram revelados durante escavações realizadas em 2011.
O cais recebeu o título de Patrimônio Mundial da UNESCO em 2017. A nova inclusão, portanto, não representa a concessão de um segundo título mundial, mas a entrada em uma rede específica dedicada à história e à memória da escravidão.
A cidade do Rio de Janeiro, uma das principais metrópoles brasileiras, reúne patrimônio histórico, atividades culturais e estruturas portuárias que ajudam a explicar a importância econômica da região durante diferentes períodos da história nacional.
Salvador: organização e solidariedade da população negra
Em Salvador, capital da Bahia, a Sociedade Protetora dos Desvalidos representa outra dimensão desse passado. Fundada em 1832 por homens negros, a entidade desenvolveu iniciativas de auxílio mútuo, apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade e defesa da emancipação civil da população negra.
A organização também esteve associada a estratégias de apoio financeiro e social, em um contexto marcado pela escravidão e por restrições aos direitos da população negra. Sua trajetória evidencia como associações civis contribuíram para a construção de redes de solidariedade e mobilização social no século XIX.
Salvador ocupa posição central na história afro-brasileira. A cidade preserva referências culturais, religiosas e arquitetônicas ligadas às populações africanas e seus descendentes, além de espaços históricos associados à escravidão, à resistência e à formação da sociedade baiana.
Alagoas: a resistência na Serra da Barriga
Em União dos Palmares, no interior de Alagoas, a Serra da Barriga abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares. O território está associado à história do Quilombo dos Palmares, uma das mais importantes experiências de resistência à escravidão nas Américas.
O parque memorial foi implantado em 2007 e reúne estruturas que representam aspectos da vida comunitária quilombola, além de recursos educativos sobre a história e a cultura afro-brasileira. A Serra da Barriga foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1985.
A inclusão na rede internacional reforça o reconhecimento do território como espaço de memória da resistência negra. Diferentemente do Cais do Valongo, associado diretamente ao desembarque de pessoas escravizadas, a Serra da Barriga representa a formação de comunidades que enfrentaram o sistema escravista.
Rede internacional busca preservar a memória histórica
Criada em 2024, a rede da UNESCO integra o programa Rotas dos Povos Escravizados, lançado em 1994 para ampliar a pesquisa, a transmissão da memória e o diálogo intercultural sobre a escravidão e o tráfico de pessoas. A iniciativa permite que os locais participantes compartilhem experiências de conservação, desenvolvam atividades educativas e recebam apoio técnico para fortalecer suas ações de preservação.
O reconhecimento também tem potencial para ampliar a visibilidade dos locais e estimular atividades culturais e educativas com participação das comunidades. A UNESCO destaca a preservação desses espaços como instrumento de valorização da memória coletiva, de diálogo entre culturas e de combate ao racismo e à discriminação.
A iniciativa, porém, não equivale automaticamente a um tombamento nacional ou à concessão do título de Patrimônio Mundial. Trata-se de uma adesão a uma rede internacional de cooperação, com período de participação previsto de pelo menos cinco anos, renovável conforme as condições estabelecidas pela organização.
A entrada dos três locais amplia a representação brasileira na iniciativa e evidencia que a memória da escravidão não se restringe aos antigos pontos de desembarque. Ela também abrange formas de organização social, solidariedade e resistência construídas pela população negra.
Com informações da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
@unescobrasil @ocaisdovalongo @spd_sociedadeprotetora
#UNESCO #AgênciaCidades #MemóriaDaEscravidão #HistóriaDoBrasil #CaisDoValongo #SociedadeProtetoraDosDesvalidos #SerraDaBarriga #QuilomboDosPalmares #PatrimônioHistórico #CulturaAfroBrasileira #ConsciênciaNegra #CombateAoRacismo #PatrimônioMundial #HistóriaEMemória
Acesse a Rede de Lugares de História e Memória relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas