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Reprodução da espécie

População de baleias-jubarte passa de 1,5 mil para 35 mil na costa brasileira

Após três décadas de recuperação da população no Brasil, baleias-jubarte registram queda na proporção de filhotes na temporada de 2026, enquanto pesquisadores investigam possíveis impactos ambientais sobre a reprodução

2/11/2026 - 14:19 Por Wilson Lopes

A população de baleias-jubarte que utiliza a costa brasileira para reprodução passou de cerca de 1,5 mil animais no início da década de 1990 para mais de 35 mil, segundo o Instituto Baleia Jubarte. A recuperação da espécie, associada à proibição da caça, à proteção de áreas marinhas e ao monitoramento científico, contrasta com um dado registrado na temporada de 2026: a proporção de filhotes entre as baleias avistadas caiu para 3,35%, abaixo da média histórica de 9,98%. Pesquisadores investigam se as mudanças climáticas e a redução da disponibilidade de alimento na Antártida podem estar afetando a reprodução. 

Centro de visitação do Projeto Baleia Jubarte, no Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, em Caravelas, na Bahia Tânia Rêgo/ABr

Menos filhotes em 2026

As jubartes percorrem quase 4 mil quilômetros entre as áreas de alimentação na Antártida e o litoral brasileiro. O Arquipélago dos Abrolhos, no sul da Bahia, é o principal ponto de reprodução da espécie no país, concentrando grande parte dos animais que chegam às águas brasileiras.

Até setembro, os filhotes representavam 3,35% das baleias registradas no monitoramento do Instituto Baleia Jubarte. O percentual ficou abaixo da média de 9,98% observada desde 2014 e também do índice de 10,7% registrado durante toda a temporada de 2025. Em 2024, a proporção havia alcançado 16,69%, o maior resultado recente. 

Em 11 cruzeiros científicos realizados em Abrolhos, pesquisadores contabilizaram 431 baleias, incluindo 42 filhotes. Paralelamente, está em andamento um levantamento aéreo entre os litorais de São Paulo e do Rio Grande do Norte para atualizar a estimativa da população que frequenta o país.

O último levantamento desse tipo, realizado em 2022, estimou 34,5 mil baleias. A contagem de 2026 ainda não foi concluída, e uma eventual redução no número de animais observados não significa, por si só, uma reversão na recuperação da espécie, já que a distribuição das jubartes varia entre as temporadas. 

As imagens das caudas funcionam como uma forma de identificação individual, pois cada baleia possui um padrão próprio de marcas Tânia Rêgo/ABr

Clima e alimentação estão sob investigação

Uma das hipóteses analisadas pelos pesquisadores envolve a disponibilidade de krill na Antártida. Esses pequenos crustáceos são a principal fonte de alimento das baleias-jubarte.

Antes da migração para o Brasil, as baleias acumulam reservas de gordura que sustentam a longa viagem e o período de reprodução. As fêmeas gestantes e aquelas que amamentam dependem ainda mais dessas reservas. Segundo os pesquisadores, alterações na oferta de alimento podem afetar a fertilidade e aumentar os riscos durante a gestação.

O instituto também observa que a redução dos nascimentos encurtou a temporada de 2026. Normalmente, as jubartes começam a chegar ao Brasil em junho, têm maior presença entre julho e outubro e permanecem até novembro. As mães ficam mais tempo nas águas brasileiras porque os filhotes precisam desenvolver musculatura e acumular gordura antes da viagem até as áreas de alimentação.

Recuperação em três décadas

O crescimento da população representa uma mudança significativa em relação ao cenário encontrado pelos pesquisadores no início dos anos 1990. A caça às baleias foi proibida no Brasil em 1987, após décadas de exploração da espécie.

O Projeto Baleia Jubarte foi criado em 1988, durante o processo de implantação do Parque Marinho dos Abrolhos, e tornou-se Instituto Baleia Jubarte em 1996. Ao longo desse período, o trabalho de pesquisa permitiu acompanhar a expansão da população e identificar mais de 10 mil animais por meio de registros fotográficos.

As imagens das caudas funcionam como uma forma de identificação individual, pois cada baleia possui um padrão próprio de marcas. Atualmente, esses registros também são utilizados em plataformas de pesquisa que empregam ferramentas de inteligência artificial para comparar indivíduos observados em diferentes regiões. 

Abrolhos é o principal ponto reprodutivo da espécie e local de concentração de cerca de 90% das jubartes que chegam ao Brasil, onde permanecem no inverno e primavera (junho a novembro) Tânia Rêgo/ABr

Turismo amplia atividade econômica no litoral

A recuperação das jubartes também impulsionou o turismo de observação em cidades costeiras, como Caravelas, na Bahia. A atividade passou a movimentar visitantes durante o inverno, período que antes tinha menor fluxo turístico em comparação com os meses de verão.

Para reduzir a interferência sobre os animais, a observação segue regras estabelecidas pelo poder público. Uma portaria publicada em agosto determina distância mínima de 100 metros das baleias e limita a permanência das embarcações próximas aos animais a 60 minutos. No caso de fêmeas acompanhadas de filhotes, o limite é de 30 minutos. Apenas duas embarcações podem se aproximar ao mesmo tempo.

Também são proibidos o toque, a captura, a perseguição, o cerco e outras ações que alterem o deslocamento das baleias.

O Instituto Baleia Jubarte participa de iniciativas de capacitação de trabalhadores do setor em parceria com municípios. 

Monitoramento mantém atenção sobre a espécie

A temporada de 2026 terminou com menos filhotes, enquanto a população de jubartes no Brasil permanece em patamar muito superior ao registrado três décadas atrás. O principal desafio agora é compreender se a redução da reprodução representa uma oscilação temporária ou está relacionada a mudanças ambientais que podem afetar o ciclo de vida da espécie.

Além das alterações climáticas, os pesquisadores acompanham fatores como poluição e a disponibilidade de alimento nos oceanos. Os próximos levantamentos serão importantes para avaliar a evolução da população e os efeitos dessas mudanças sobre uma espécie que voltou a ocupar grande parte da costa brasileira.

Com informações do Instituto Baleia Jubarte.
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Tags: Meio Ambiente, Mudança do Clima, extinção, Biodiversidade, Turismo

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