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Floresta em Pó

Goiás lidera 'Rota Caipira' com 81 laboratórios de cocaína

Segundo estudo do Instituto Fogo Cruzado, Goiás ocupa posição central na chamada Rota Caipira, um dos principais corredores do tráfico brasileiro, por conta de sua posição geográfica, além das estruturas de processamento e redistribuição

3/07/2026 - 08:43 Por Wilson Lopes

O Instituto Fogo Cruzado, em parceria com organizações nacionais e internacionais, acaba de publicar o relatório ‘Floresta em Pó: Impactos da proibição da cadeia produtiva da coca e da cocaína na Bacia Amazônica e no Brasil’. O documento sustenta que a política global de proibição das drogas produziu uma profunda reorganização da cadeia da cocaína no país.

Segundo os autores, o Brasil deixou de ser apenas um país consumidor e corredor logístico para assumir papel estratégico no refino, processamento e distribuição internacional da cocaína, com impactos diretos sobre a violência, o desmatamento, a mineração ilegal e os conflitos territoriais.

O estudo indica que o Brasil pode abrigar até 5 mil estruturas de processamento de cocaína, embora o levantamento tenha identificado 550 laboratórios mapeados ao longo de cinco anos, responsáveis pelo movimento de cerca de US$ 6 bilhões por ano apenas no território brasileiro.

O relatório ‘Floresta em Pó’ identifica uma cadeia produtiva transnacional, com a Colômbia, Peru e Bolívia sendo os principais produtores da folha de coca. Após a fragmentação dos grandes cartéis colombianos e o aumento da repressão nas áreas tradicionais de cultivo, parte da industrialização da cocaína migrou para países vizinhos, especialmente para o Brasil. Esse fenômeno é descrito pelos pesquisadores como um "efeito-balão", em que a repressão desloca, mas não elimina, a atividade criminosa.

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Papel do Brasil

O estudo afirma que o Brasil passou a exercer três funções simultâneas: grande mercado consumidor; centro de processamento e adulteração da cocaína; e plataforma logística para exportação internacional.

As principais cargas deixam o país em direção à Europa, principalmente pelo Atlântico, utilizando portos brasileiros. Também foram identificadas rotas alternativas que passam por países africanos antes de chegar ao mercado europeu, além da expansão para mercados asiáticos.

Entre os estados brasileiros destacados pelo relatório estão:

Amazonas e Pará:
Esses estados deixaram de ser apenas corredores do tráfico para se tornarem áreas importantes para instalação de laboratórios; logística fluvial; armazenamento; lavagem de dinheiro; integração entre tráfico, garimpo ilegal e desmatamento.

Acre, Rondônia e Roraima:
Listados devido à proximidade com as fronteiras internacionais da Amazônia.

O Governo de Goiás argumentou que o elevado número de laboratórios identificados reflete, em grande parte, a atuação das forças de segurança na localização e desmantelamento dessas estruturas (Governo de Goiás)

Goiás no epicentro

O Fogo Cruzado relatou que a participação de Goiás no processamento da cocaína foi surpreendente. Conforme o instituto, o estado deixou de ser apenas um corredor logístico e passou a desempenhar um papel relevante como um dos principais polos brasileiros de processamento de cocaína e um nó estratégico das rotas do tráfico nacional e internacional. 

O levantamento identificou 125 laboratórios de processamento de cocaína em Goiás, o maior número entre todas as unidades da Federação no período analisado (2019 a julho de 2025). São 31 identificados como “varejo”, 50 como “atacado” e outros 44 que não puderam ser enquadrados na classificação com as informações disponíveis. O número representa 23% dos 550 laboratórios identificados em todo o país.

Os autores sustentam que a localização geográfica de Goiás favorece o processamento, a redistribuição e o escoamento da droga para outras regiões e para o mercado internacional, o que ajuda a explicar a concentração de laboratórios clandestinos identificada no levantamento.

“Em Goiás, foram identificados 44 laboratórios com larga capacidade produtiva, sendo 20 de refino e 24 de adulteração ou ‘engorda’. Essa concentração está relacionada a duas dinâmicas distintas do mercado de cocaína. A pasta base que entra no Brasil pelo Mato Grosso e pelo Mato Grosso do Sul é, em parte, transportada para refino em Goiás e, posteriormente, segue em direção aos portos do Nordeste e do Sudeste. Já os laboratórios de adulteração ou “engorda” alimentam um grande mercado de crack e cloridrato de cocaína no varejo de Goiás e dos estados vizinhos, especialmente em Brasília (DF)”, descreve o estudo.

A Secretaria de Segurança Pública de Goiás argumentou que o elevado número de laboratórios identificados reflete, em grande parte, a atuação das forças de segurança na localização e desmantelamento dessas estruturas, e destacou a integração entre Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado em Goiás (FICCO/GO) no combate ao tráfico.

Rota Caipira

No relatório "Floresta em Pó", a Rota Caipira é definida como um dos principais corredores terrestres do tráfico de cocaína no Brasil, responsável por conectar as áreas de produção andina aos grandes centros consumidores e aos portos utilizados para exportação da droga. O conceito é utilizado para explicar a importância estratégica do Centro-Oeste, especialmente de Goiás, na logística do narcotráfico.

Segundo o estudo, a rota começa com a entrada da cocaína no Brasil pelas fronteiras com Bolívia, Paraguai e Peru (indiretamente, por meio de outras rotas amazônicas). A partir daí, a droga segue por corredores rodoviários que atravessam Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e interior de São Paulo.

Nesses estados ocorre parte importante do refino, adulteração (engorda), armazenamento e redistribuição. Depois, a cocaína é direcionada principalmente para os portos de Santos (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Vitória (ES), destinados à exportação, além de mercados consumidores do Sudeste e outras regiões brasileiras.

O relatório destaca Goiás como um dos principais ‘hubs’ da Rota Caipira por conta de sua posição geográfica central, com conexão rodoviária para praticamente todas as regiões do país; concentração de estruturas de processamento e redistribuição da cocaína; além da facilidade de encaminhar cargas tanto para os portos do Sudeste quanto para o abastecimento do Nordeste e de outras regiões.

Com informações do Instituto Fogo Cruzado.
@fogocruzadobr @governogoias @sspgoias

Acesse o relatório ‘Floresta em Pó: Impactos da proibição da cadeia produtiva da coca e da cocaína na Bacia Amazônica e no Brasil’

 

 


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