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R$ 1,2 bilhão em investimentos

Curitiba planeja enterrar 120 km de cabos elétricos e de telecomunicações

Projeto prevê retirada de cabos da paisagem urbana, priorizando regiões mais adensadas, turísticas, históricas e áreas consideradas vulneráveis a problemas de resiliência urbana

4/08/2026 - 12:29 Por Wilson Lopes

Curitiba, capital do Paraná, avança em um dos mais ambiciosos projetos de modernização de sua infraestrutura urbana. A cidade pretende enterrar até 120 quilômetros de redes aéreas de energia elétrica e telecomunicações, priorizando regiões mais adensadas, turísticas e históricas e áreas consideradas vulneráveis a problemas de resiliência urbana.

A estimativa apresentada pela Prefeitura é de que a iniciativa possa demandar aproximadamente R$ 1,2 bilhão em investimentos, o equivalente, em uma conta simplificada, a cerca de R$ 10 milhões por quilômetro, embora o custo efetivo dependa das características e intervenções necessárias em cada trecho.

A dimensão financeira ajuda a explicar por que o município trabalha na estruturação de uma Parceria Público-Privada (PPP), com participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A proposta vem sendo discutida desde 2025 e poderá resultar em um modelo considerado inovador para o País.

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Com cerca de quatro quilômetros de extensão, entre a trincheira da Rua Ubaldino do Amaral, no Alto da Rua XV, e a Rua Castro Alves, no Batel, a Avenida Visconde de Guarapuava integra o trinário formado pelas avenidas Sete de Setembro e Silva Jardim, corredor estrutural que conecta moradia, comércio, serviços, empregos, equipamentos públicos e mobilidade urbana (Prefeitura Curitiba/PR)

Corredor de 4 quilômetros será remodelado

A estratégia ganhou uma frente concreta com a publicação, pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), da concorrência para contratação de serviços de engenharia e arquitetura destinados à elaboração dos anteprojetos de requalificação da Avenida Visconde de Guarapuava.

O trecho principal compreende a avenida entre as ruas Ubaldino do Amaral e Castro Alves, além de intervenções complementares em vias próximas.

Com aproximadamente quatro quilômetros de extensão, entre a trincheira da Rua Ubaldino do Amaral, no Alto da Rua XV, e a Rua Castro Alves, no Batel, a Visconde de Guarapuava é um dos principais corredores viários de Curitiba.

A avenida integra o trinário formado com as avenidas Sete de Setembro e Silva Jardim e concentra deslocamentos relacionados a moradia, comércio, serviços, empregos e equipamentos públicos.

O estudo elaborado pelo Ippuc estabelece uma transformação mais ampla do corredor, indo além da substituição da rede aérea pela subterrânea.

O futuro anteprojeto deverá detalhar novas seções viárias, calçadas, ciclovia, paisagismo, mobiliário urbano, acessibilidade, drenagem, iluminação pública e sinalização. Também deverá apresentar estimativas de custos e um cronograma preliminar para a implantação das intervenções.

Uma das mudanças mais visíveis será justamente a retirada dos postes e cabos instalados atualmente no canteiro central.

O espaço liberado deverá receber infraestrutura cicloviária contínua, enquanto a eliminação da rede aérea permitirá ampliar a arborização e utilizar espécies de maior porte, reduzindo conflitos entre árvores, postes e cabos.

Curitiba pretende enterrar até 120 quilômetros de redes aéreas de energia elétrica e telecomunicações, e a resiliência da infraestrutura urbana é uma das principais justificativas para a mudança (Ricardo Marajó/Prefeitura Curitiba/PR)

Projeto também mira eventos climáticos

O enterramento dos fios não é tratado apenas como uma intervenção estética. Os estudos e discussões conduzidos pela Prefeitura apontam a resiliência da infraestrutura urbana como uma das principais justificativas para a mudança.

Cabos subterrâneos ficam menos expostos a tempestades, ventos fortes, quedas de árvores e outros eventos capazes de provocar danos às redes aéreas e interrupções no fornecimento de energia e nos serviços de telecomunicações.

A proposta também busca reduzir riscos de choques e incêndios, além da ocorrência de vandalismo e furtos de cabos.

Outro efeito esperado é a melhoria da confiabilidade das redes de telecomunicações e das condições para expansão de tecnologias associadas a 5G, internet das coisas (IoT) e soluções de cidades inteligentes.

Jardins de chuva e combate às ilhas de calor

Na Avenida Visconde de Guarapuava, o projeto vai combinar infraestrutura subterrânea com medidas ambientais.

O estudo do Ippuc incorpora Soluções Baseadas na Natureza (SbN), conceito que utiliza elementos naturais como parte da infraestrutura urbana.

Entre as diretrizes estão o aumento da cobertura vegetal e das superfícies permeáveis, além da adoção de estratégias de drenagem capazes de reter ou retardar o escoamento da água das chuvas.

Os chamados jardins de chuva deverão fazer parte dessa estratégia.

Essas estruturas ajudam a absorver parte da água que normalmente seguiria diretamente para galerias pluviais, contribuindo para diminuir a sobrecarga da drenagem durante chuvas intensas.

A ampliação da arborização e das áreas permeáveis também deverá contribuir para reduzir ilhas de calor e melhorar o conforto térmico ao longo do corredor.

Projeto começou a ser estruturado em 2025

A proposta de expansão das redes subterrâneas começou a ganhar forma em junho de 2025, quando representantes da Prefeitura e do BNDES discutiram a possibilidade de Curitiba participar de projetos-piloto relacionados ao enterramento de redes elétricas.

No mês seguinte, Prefeitura, BNDES, Copel e técnicos municipais iniciaram as discussões para desenvolver um modelo de PPP.

Na ocasião, representantes do banco apontaram Curitiba como candidata a receber um projeto que pudesse futuramente servir de referência para outras cidades brasileiras.

Em novembro de 2025, o projeto já havia avançado para a perspectiva de contratação do BNDES para a realização dos estudos de viabilidade e modelagem da parceria.

A proposta passou a considerar inicialmente 120 quilômetros de redes, concentradas principalmente em áreas pavimentadas de maior densidade populacional, interesse turístico e histórico ou que apresentem problemas de resiliência.

Em julho de 2026, durante discussão realizada na Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), a Prefeitura apresentou uma primeira estimativa financeira: R$ 1,2 bilhão.

Considerando o orçamento municipal anual citado pela própria administração, de aproximadamente R$ 16 bilhões, o investimento projetado representaria cerca de 7,5% de um orçamento anual da Prefeitura, o que reforça a opção pela busca de um modelo de PPP em vez do financiamento integral com recursos municipais.

Curitiba já implantou redes subterrâneas em intervenções pontuais, como no Centro da cidade, onde o enterramento dos cabos fez parte de um projeto de revitalização urbana (José Fernando Ogura/Prefeitura Curitiba/PR)

Curitiba já tem experiência com fios subterrâneos

O projeto não parte completamente do zero. Curitiba já implantou redes subterrâneas em intervenções pontuais, como na Rua Voluntários da Pátria, no Centro, onde o enterramento dos cabos fez parte de um projeto de revitalização urbana.

A diferença agora está na escala. A proposta em estudo pretende transformar uma solução até então utilizada de maneira localizada em uma política de infraestrutura capaz de alcançar dezenas de quilômetros da cidade.

Principais números

  • 120 km — extensão máxima inicialmente prevista para enterramento de redes elétricas e de telecomunicações;
  • R$ 1,2 bilhão — investimento estimado para o projeto mais amplo;
  • R$ 10 milhões/km — valor médio aproximado obtido pela divisão da estimativa total pelos 120 km, sem considerar diferenças de complexidade entre os trechos;
  • 4 km — extensão aproximada da Avenida Visconde de Guarapuava que será objeto da grande requalificação urbana;
  • 9 de setembro de 2026 — prazo para apresentação das propostas da concorrência do anteprojeto da Visconde de Guarapuava;
  • R$ 16 bilhões — orçamento anual municipal mencionado pela Prefeitura ao contextualizar a dificuldade de financiar integralmente o projeto.

O que os estudos indicam

O conjunto de documentos e discussões realizadas desde 2025 aponta que Curitiba não pretende simplesmente substituir fios aéreos por cabos subterrâneos. A estratégia é utilizar o enterramento das redes como parte de uma requalificação urbana mais abrangente.

Na prática, a retirada de postes e cabos abre espaço para reorganizar calçadas e canteiros, implantar ciclovias, aumentar a arborização, melhorar a acessibilidade e introduzir sistemas de drenagem mais adaptados aos eventos climáticos extremos.

Há ainda uma segunda conclusão importante: o principal obstáculo à expansão da rede subterrânea é econômico e regulatório. Com custo preliminar de R$ 1,2 bilhão para 120 quilômetros, a Prefeitura considera difícil financiar o programa exclusivamente com recursos próprios.

Por isso, a modelagem com o BNDES e a estruturação de uma PPP são decisivas para determinar como serão divididos investimentos, responsabilidades, operação e manutenção da futura infraestrutura.

A terceira conclusão é que a Avenida Visconde de Guarapuava poderá funcionar como uma vitrine dessa nova concepção urbana. O corredor reúne, em uma mesma intervenção, enterramento de fios, mobilidade ativa, arborização, acessibilidade, drenagem sustentável e adaptação climática.

Se o modelo mais amplo de PPP avançar, Curitiba poderá deixar de tratar a fiação subterrânea como intervenção isolada de revitalização e passar a adotá-la em escala de rede, começando pelas áreas consideradas mais estratégicas da capital.

Com informações da Prefeitura de Curitiba.
@curitiba_pmc @bndesgovbr

Acesse o edital no site do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc)


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