Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) identificou estratégias de planejamento capazes de ampliar em até cinco vezes a oferta de benefícios ambientais dos parques urbanos, em comparação com um cenário de seleção orientada pelo menor custo.
O estudo, publicado em abril de 2026 na revista científica Urban Forestry & Urban Greening, analisou 211 projetos de parques propostos para São Paulo e concluiu que a escolha dos locais deve considerar, além das despesas de implantação, os efeitos sobre o clima, a absorção da água da chuva e as oportunidades de recreação.
Os pesquisadores também identificaram um cenário em que a estratégia baseada na relação entre custos e benefícios reduziu as despesas em 60% em comparação com uma seleção aleatória de projetos. Os percentuais resultam de simulações matemáticas e não representam economias já realizadas pela prefeitura nem garantem os mesmos resultados em outras cidades.
O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Biociências da USP, com participação de técnicos da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo (SVMA). A pesquisa integrou informações sobre os benefícios potenciais de cada parque e estimativas de custos para ajudar gestores públicos a definir quais projetos devem receber prioridade quando os recursos financeiros são limitados.
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Parques podem ajudar a enfrentar calor e alagamentos
A ferramenta considera três serviços ecossistêmicos, expressão utilizada para designar os benefícios que a natureza proporciona à população. O primeiro é a regulação climática, associada à sombra das árvores, à evapotranspiração e à redução do calor em áreas urbanas. O segundo é a infiltração de água no solo, que pode contribuir para diminuir o escoamento superficial e os riscos de alagamentos. O terceiro é a recreação, que abrange as possibilidades de lazer e convivência oferecidas pelos espaços verdes.
O modelo não avalia apenas a capacidade de um parque de oferecer esses benefícios. Também considera onde eles são necessários e como podem chegar à população. Uma área verde pode apresentar grande potencial ambiental, por exemplo, mas estar distante de bairros que concentram moradores expostos ao calor ou com poucas opções de lazer.
Por isso, a análise integra três dimensões: oferta, demanda e fluxo dos serviços. A oferta corresponde à capacidade de um espaço de proporcionar determinado benefício; a demanda indica onde ele é necessário; e o fluxo considera a ligação entre o local que produz o benefício e as pessoas que podem usufruir dele.
Custos vão além da construção
A avaliação econômica dos 211 projetos levou em conta três componentes: desapropriação dos terrenos, implantação dos parques e manutenção. A inclusão dessas despesas permite comparar projetos que podem apresentar benefícios ambientais semelhantes, mas exigir investimentos diferentes ao longo do tempo.
A abordagem também permite simular prioridades distintas. Se o objetivo de uma administração for melhorar o conforto térmico, por exemplo, o modelo pode identificar os projetos com maior potencial para contribuir com esse resultado dentro de determinado orçamento. Outras simulações podem atribuir pesos diferentes à infiltração de água e à recreação.
Os resultados mostram que privilegiar apenas o menor custo não é necessariamente a melhor forma de utilizar o dinheiro público. Segundo o artigo científico, a estratégia de priorização baseada na relação custo-benefício apresentou maior oferta de serviços ecossistêmicos do que o cenário de custo mínimo.
Distribuição das áreas verdes é um desafio
São Paulo, a cidade mais populosa do Brasil, reúne cerca de 11,5 milhões de habitantes, segundo a referência populacional utilizada no estudo, baseada no Censo de 2022. Apesar da presença de vegetação em parte significativa do território, a distribuição das áreas verdes é desigual, o que torna relevante avaliar não apenas a quantidade de parques, mas também sua localização e a população atendida.
A pesquisa aponta que uma estratégia de planejamento para toda a cidade pode proporcionar mais benefícios e melhor relação entre custos e resultados do que a divisão das decisões por regiões isoladas. A conclusão reforça a importância de considerar o conjunto do território municipal, em vez de analisar cada área de forma independente.
Esse planejamento tem implicações para cidades brasileiras que enfrentam ondas de calor, enchentes e desigualdade no acesso a espaços públicos. A combinação de dados ambientais, demográficos e econômicos pode ajudar governos a identificar onde novos parques teriam maior potencial de atender às necessidades da população.
Mapas da oferta, demanda e provisão total de serviços ecossistêmicos dos 211 parques analisados; dados proporcionam quantificação dos custos, benefícios e provisões ecossistêmicas (clique para ampliar) – Imagem: Reprodução do artigo/Tradução: Jornal da USPMétodo pode ser adaptado a outras cidades
O estudo apresenta um modelo de otimização espacial baseado em programação linear, técnica matemática usada para selecionar combinações de projetos de acordo com objetivos e restrições, como o orçamento disponível. A metodologia foi concebida para ser transparente e adaptável a outros contextos urbanos, desde que existam dados adequados sobre os terrenos, os custos e os benefícios esperados.
A ferramenta, porém, não substitui decisões de política urbana nem comprova, por si só, os resultados futuros de cada parque. As estimativas dependem dos dados e dos critérios adotados nas simulações. A implementação efetiva também exige decisões sobre aquisição de terrenos, financiamento, manutenção e distribuição territorial dos investimentos.
Publicado na revista Urban Forestry & Urban Greening, o artigo Integrating ecosystem services and optimization analyses to prioritize green spaces implementation in a Global South megacity apresenta a metodologia e os cenários avaliados. A pesquisa integra as iniciativas de produção científica do programa Biota Síntese, voltado à geração de conhecimento para apoiar políticas públicas e soluções baseadas na natureza.
Com informações da Urban Forestry & Urban Greening e Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo.
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Acesse o artigo ‘Integrating ecosystem services and optimization analyses to prioritize green spaces implementation in a Global South megacity’





