A exposição ao chumbo afeta até 815 milhões de crianças em todo o mundo e esteve associada a mais de 3,5 milhões de mortes em 2023, principalmente por doenças cardiovasculares, segundo estimativas citadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em outubro de 2026, a entidade voltou a cobrar medidas para prevenir a contaminação, enquanto o Brasil se prepara para receber apoio técnico destinado a ampliar a capacidade de identificar a presença do metal no organismo.
A iniciativa integra um esforço internacional para reduzir a exposição a uma substância tóxica que pode comprometer o desenvolvimento cerebral, afetar a aprendizagem e provocar problemas de saúde ao longo da vida.
A campanha Semana Internacional de Prevenção do Envenenamento por Chumbo, promovida anualmente pela OMS e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), ocorrerá de 18 a 24 de outubro de 2026, com o tema “Da detecção à prevenção”.
Fonte: Boletim Epidemiológico | Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente | Ministério da Saúde, Número Especial | 13 jul. 2026Exposição pode ocorrer dentro de casa
O chumbo é um metal tóxico que pode atingir o organismo por diferentes vias. Entre as fontes de exposição estão tintas que contêm o metal, utensílios de cozinha, cosméticos, especiarias contaminadas, atividades industriais e a reciclagem inadequada de baterias.
A água potável também pode representar um risco quando há contaminação na fonte ou quando o metal é liberado por tubulações e outros materiais utilizados nos sistemas de abastecimento. A intensidade da exposição depende da fonte, das condições ambientais e do contato com os materiais contaminados.
As crianças são particularmente vulneráveis porque o cérebro e o sistema nervoso ainda estão em desenvolvimento. Mesmo concentrações relativamente baixas podem prejudicar a capacidade intelectual, a aprendizagem e o comportamento. Os efeitos podem persistir por toda a vida.
Nos adultos, a exposição está associada a doenças cardiovasculares e renais. Gestantes também precisam de atenção, pois o chumbo pode atingir o feto durante a gravidez. Não há um nível de exposição conhecido como totalmente seguro para a saúde.
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Países de baixa e média renda enfrentam maior impacto
O problema também tem uma dimensão socioeconômica. Segundo a OMS, os países de baixa e média renda suportam a maior parte dos custos sanitários e econômicos relacionados à exposição ao chumbo. A entidade estima que 90% das mortes associadas ao envenenamento por chumbo ocorram nesses países.
A contaminação pode afetar especialmente comunidades próximas a atividades de mineração, fundição, fabricação industrial e reciclagem informal. Trabalhadores dessas atividades e populações que vivem em áreas contaminadas estão entre os grupos que exigem maior atenção.
Além dos custos de tratamento e acompanhamento médico, os efeitos sobre o desenvolvimento cognitivo podem prejudicar o desempenho escolar, a renda futura e a produtividade. A prevenção, portanto, envolve políticas de saúde pública, fiscalização ambiental, segurança do trabalho e controle da composição de produtos comercializados.
Santo Amaro da Purificação, na Bahia, sediou a antiga atividade da Companhia Brasileira de Chumbo, conhecida como COBRAC/Plumbum, que deixou escória metalúrgica com chumbo e outros metais pesados, causando a contaminação do solo e o potencial risco de exposição da população (Ministério da Ciência e Tecnologia)Brasil receberá apoio para ampliar exames
O Brasil está entre os locais selecionados para receber capacitação laboratorial e suporte técnico por meio da Iniciativa de Prevenção do Envenenamento por Chumbo. O objetivo é fortalecer a capacidade de medir a concentração do metal no sangue, aprimorar a identificação de pessoas expostas e orientar ações de prevenção.
O programa também contempla cinco estados da Índia, o Nepal e seis países da África Subsaariana: Etiópia, Gana, Maláui, Ruanda, África do Sul e Tanzânia. A iniciativa é coordenada pela OMS em parceria com organizações internacionais.
A ampliação dos exames pode ajudar a identificar a exposição e direcionar investigações sobre suas origens. No entanto, a testagem, isoladamente, não elimina o risco: é necessário localizar e controlar as fontes de contaminação, além de garantir o cumprimento das normas de segurança.
Até o momento, as informações divulgadas pela OMS não detalham quantos laboratórios brasileiros receberão suporte, quais estados serão contemplados nem o volume de recursos destinado ao país.
O Brasil registrou 1.546 notificações de intoxicação por chumbo entre 2015 e 2024, das quais 834 foram confirmadas e 12 evoluíram para óbito, segundo o Ministério da Saúde. São Paulo liderou os registros estaduais, com 254 casos, seguido por Paraná (169), Minas Gerais (164) e Espírito Santo (162). A maioria das notificações envolveu homens (69,3%), e 62,8% dos episódios ocorreram em residências. Os números representam os casos registrados nos sistemas de vigilância e podem não refletir toda a dimensão da exposição ao metal no país.
Fundada em 1958, a antiga fábrica de baterias Ajax, localizada no Distrito Industrial de Bauru (SP), tornou-se símbolo de um dos episódios de contaminação ambiental por chumbo mais conhecidos do estado de São Paulo; o caso envolveu a poluição do solo e riscos à saúde da população; a empresa encerrou definitivamente as atividades e teve a falência decretada em 2015, passando a ser alvo de processos judiciais e leilões de bens da massa falida (@BauruMidia)Novo plano global está previsto para 2027
A OMS prepara o pacote técnico PREVENT, previsto para lançamento em 2027, com orientações práticas para ajudar os países a identificar fontes prioritárias de exposição, fortalecer a fiscalização, responder a níveis elevados de chumbo no sangue e acompanhar os resultados das medidas adotadas.
A organização também prevê apresentar um Plano de Ação Global para a Mitigação do Chumbo à Assembleia Mundial da Saúde em 2027. A proposta deverá orientar ações coordenadas entre governos, serviços de saúde, setor privado e sociedade civil.
O desafio é transformar a capacidade de detectar a contaminação em medidas efetivas para impedir que o metal alcance o organismo. Isso inclui eliminar o chumbo de produtos quando possível, controlar emissões industriais, melhorar a gestão de resíduos e reforçar a fiscalização de tintas e outros materiais.
A campanha internacional de outubro pretende ampliar a conscientização e estimular ações que priorizem a prevenção, especialmente entre crianças e outros grupos vulneráveis.
Com informações da Organização Mundial da Saúde (OMS).
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