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Trabalho rural

Na fruticultura, além da informalidade, 61% dos empregos são encerrados antes do fim do ano

Oxfam Brasil mostra que as cadeias de manga, uva e maçã convivem com forte sazonalidade, contratos temporários, baixos rendimentos e desigualdades de gênero e raça

12/10/2026 - 11:59 Por Wilson Lopes
Embora 69,2% dos ocupados no setor agropecuário brasileiro estejam na informalidade, o estudo da Oxfam não apresenta uma taxa específica de informalidade para os trabalhadores das cadeias de manga, uva e maçã (@prefeiturapetrolina)

A Oxfam Brasil publicou em 2026 um diagnóstico sobre as condições do trabalho assalariado rural no país e identificou um mercado marcado pela informalidade e pela instabilidade, mesmo nos polos mais estruturados da fruticultura. 

Segundo o estudo, 69,2% dos ocupados na agropecuária estavam na informalidade no terceiro trimestre de 2025, enquanto as cadeias de manga, uva e maçã analisadas no Vale do São Francisco e na Serra Gaúcha registraram 117.341 vínculos formais em 2024, dos quais 71.383 foram encerrados ao longo do ano, o que equivale a 60,8%. 

O levantamento utiliza dados da PNAD Contínua, RAIS, Caged, Pesquisa de Produção Agrícola Municipal e Censo Agropecuário, além de oito entrevistas qualitativas realizadas em abril de 2026. O objetivo foi identificar padrões nacionais e particularidades de dois importantes territórios da fruticultura brasileira.

Quase sete em cada dez ocupados estão na informalidade

O setor agropecuário reunia 7,968 milhões de pessoas ocupadas no terceiro trimestre de 2025 e representava 7,8% do total de ocupados do país. A participação, entretanto, era muito maior entre empregados privados sem carteira, categoria na qual o setor respondia por 15,1% do total nacional.

A taxa de 69,2% de informalidade considera trabalhadores por conta própria sem CNPJ e empregados sem carteira no setor primário — agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura. Agroindústria, agrosserviços e indústria de insumos ficam fora desse cálculo. 

A informalidade não é composta apenas por trabalhadores sem registro. O relatório identifica a combinação entre ausência de carteira, contratos temporários, sazonalidade e descontinuidade ocupacional. No Vale do São Francisco, entrevistas mencionam as chamadas "turmas", grupos contratados informalmente para atividades específicas, como poda, raleio e aplicação de insumos.

Mais de 117 mil vínculos formais, mas a maioria não durou o ano inteiro

Nos 21 municípios estudados, foram registrados 117.341 vínculos formais em 2024. Apenas 39,2% permaneciam ativos em 31 de dezembro. Os outros 71.383 foram encerrados ao longo do ano, fazendo da sazonalidade um dos principais elementos da organização do trabalho. 

O Vale do São Francisco concentrava 78.575 vínculos, ou 67% do total. A cadeia da uva sozinha reunia 56.740 registros, enquanto a manga somava 21.835. A Serra Gaúcha respondia por 38.766 vínculos, com forte concentração na cadeia da maçã. 

O contraste entre os territórios é significativo. Na Serra Gaúcha, 80,2% dos vínculos da maçã e 90,2% dos vínculos da uva foram encerrados antes do fim de 2024. No Vale do São Francisco, 51,2% dos vínculos da manga e 48,6% dos vínculos da uva permaneciam ativos em dezembro. 

A conclusão é que formalização não significa estabilidade. Um trabalhador pode ter carteira assinada durante a safra e, ainda assim, permanecer sem emprego formal durante parte significativa do ano.

No Vale do São Francisco, Petrolina é o principal polo identificado pelo levantamento (Prefeitura Petrolina/PE)

Petrolina concentra produção, emprego e acidentes registrados

No Vale do São Francisco, Petrolina é o principal polo identificado pelo levantamento. A cidade pernambucana aparece com 45.103 vínculos nas cadeias de manga e uva e concentra parcela expressiva da produção regional.

Na uva, Petrolina registrou 610.739 toneladas em 2024, segundo a tabela de produção do estudo, enquanto Lagoa Grande teve 109.800 toneladas e Juazeiro, na Bahia, 59.819 toneladas. 

A região também apresenta forte concentração dos acidentes oficialmente comunicados. Das 400 CAT registradas entre janeiro e outubro de 2025, Petrolina respondeu por 195, ou 48,8% do total. Lagoa Grande teve 39 registros e Santa Maria da Boa Vista, oito. 

Vacaria domina a cadeia da maçã na Serra Gaúcha

Na Serra Gaúcha, o principal destaque é Vacaria, município que responde por 62,7% do volume de maçãs da cadeia considerada pelo estudo. A produção municipal chegou a 233.520 toneladas em 2024. Caxias do Sul aparece em seguida, com 60.786 toneladas, e Bom Jesus, com 44.100 toneladas. 

A uva, por sua vez, está mais distribuída entre municípios como Flores da Cunha, Bento Gonçalves, Caxias do Sul e Garibaldi. O relatório caracteriza a região como um território de forte especialização produtiva, integração com a agroindústria e tradição vinícola. 

Vacaria também aparece entre os municípios com maior número de acidentes registrados: foram 119 CAT entre janeiro e outubro de 2025, equivalentes a 29,8% do total analisado. 

Mulheres e população negra enfrentam desvantagens salariais

A desigualdade também aparece na composição da força de trabalho. Dos 7,969 milhões de ocupados analisados nacionalmente, 81,1% eram homens e 18,9%, mulheres. Pardos representavam 52,4%, brancos 35,6% e pretos 11,1%. 

No assalariamento, a distância de renda é ainda mais evidente. Homens brancos tinham rendimento médio de R$ 2.494, enquanto mulheres brancas recebiam R$ 2.443. Entre mulheres pardas, a média era de R$ 1.663; entre mulheres pretas, de R$ 1.449. O estudo calcula que o rendimento das mulheres pretas era cerca de 42% inferior ao dos homens brancos. 

O relatório também identifica baixa escolaridade como característica estrutural. Pessoas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto representavam mais da metade dos ocupados do setor, enquanto apenas 4% tinham ensino superior completo. 

Saúde: estatísticas oficiais podem mostrar apenas parte do problema

As 400 notificações de acidentes de trabalho registradas entre janeiro e outubro de 2025 não devem ser interpretadas como medida integral dos riscos existentes. O próprio relatório destaca que as CAT dependem da formalização e da notificação.

Os registros aumentaram a partir de junho, quando foram contabilizadas 123 ocorrências, contra sete em janeiro. O estudo relaciona o comportamento ao aumento da movimentação do trabalho nas cadeias, mas também ressalta que períodos com menor registro podem refletir subnotificação. 

As entrevistas apontam exposição a agrotóxicos, restrição de pausas, problemas de higiene, acidentes e adoecimento físico e mental. Uma liderança sindical ouvida no Vale do São Francisco relatou forte subnotificação de intoxicações. O estudo, contudo, trata esse depoimento como evidência qualitativa, e não como estimativa estatística nacional. 

Reconhecida como a Capital da Manga, a cidade de Juazeiro, no norte da Bahia, é atualmente a maior produtora e exportadora da fruta no país, alcançando uma produção anual superior a 417 mil toneladas e concentrando a maior área plantada de manga do Brasil (Rinaldo Lima/PMJ)

Migração e pressão por produtividade

Na Serra Gaúcha, as entrevistas registraram fluxos migratórios sazonais envolvendo trabalhadores provenientes de outros estados e do Paraguai. A mobilidade acompanha o calendário das safras e contribui para trajetórias profissionais descontínuas.

No Vale do São Francisco, trabalhadores entrevistados relataram deslocamentos diários entre municípios e áreas rurais, enquanto as metas de produção aparecem como mecanismo de intensificação do ritmo de trabalho. O relatório registra relatos de redução de pausas para alimentação, hidratação e uso do banheiro durante períodos de maior produção.

Impacto sobre os sindicatos

A combinação entre sazonalidade, rotatividade, contratos temporários e diversidade de formas de contratação também dificulta a organização sindical. Na Serra Gaúcha, a dificuldade está associada principalmente à concentração temporal das safras. No Vale do São Francisco, o desafio envolve maior permanência relativa dos trabalhadores, mas uma estrutura contratual mais fragmentada. 

O relatório conclui que manga, uva e maçã não podem ser tratadas como uma única realidade laboral. As cadeias apresentam diferenças de remuneração, composição social, concentração territorial e duração dos contratos.

A conclusão geral é que os dois territórios não rompem com o padrão nacional de precarização, mas revelam como ele se manifesta de maneiras diferentes em cadeias produtivas economicamente relevantes. 

Municípios analisados

O recorte territorial do estudo envolve 21 municípios em três estados:

  • Rio Grande do Sul: Vacaria, Muitos Capões, Monte Alegre dos Campos, Campestre da Serra, Bom Jesus, São Marcos, Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Garibaldi e Flores da Cunha.
     
  • Pernambuco: Belém do São Francisco, Lagoa Grande, Inajá, Petrolina e Santa Maria da Boa Vista.
     
  • Bahia: Abaré, Curaçá, Juazeiro, Sento Sé, Casa Nova e Sobradinho. O estudo concentra nesses municípios as cadeias de maçã e uva na Serra Gaúcha e de manga e uva no Vale do São Francisco.

Com informações da Oxfam Brasil.
@oxfambrasil @oitbrasil @ibgeoficial @dieese_online @basedosdados @prefeiturapetrolina @prefeituradejuazeiro @prefeituradevacaria @prefeiturabento @prefeituradecaxiasdosul @prefeituradegaribaldi

Acesse o estudo ‘Dinâmicas do Trabalho Assalariado Rural’

 

 


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