Onze cidades brasileiras estão entre os grandes centros urbanos com maior risco associado ao calor extremo no mundo, segundo um estudo da Universidade de Oxford publicado em 2026 na revista científica Sustainable Cities and Society. Manaus lidera entre as brasileiras, na 27.ª posição global, seguida por Goiânia, em 46.º, e Belo Horizonte, em 66.º.
O levantamento avaliou 205 cidades com mais de 1 milhão de habitantes e considerou, além da exposição ao calor, fatores sociais, econômicos e de infraestrutura que influenciam a capacidade da população de enfrentar temperaturas elevadas.
O estudo, intitulado Moving beyond exposure: a globally comparable framework for heat risk assessment in cities, procura superar uma limitação comum nas análises sobre calor urbano: considerar apenas a temperatura. Os pesquisadores Nethmi Jayaratne Kariyawasam, Jesus Lizana e Radhika Khosla combinaram três dimensões para construir um índice comparável entre cidades: exposição ao calor, vulnerabilidade da população e capacidade de enfrentamento.
Na prática, isso significa que duas cidades submetidas a condições térmicas semelhantes podem apresentar níveis diferentes de risco. A metodologia leva em conta características demográficas e socioeconômicas que aumentam a suscetibilidade a doenças e mortes relacionadas ao calor, além do acesso a estruturas de resfriamento, como ar-condicionado, e de fatores ambientais, como a cobertura de árvores.
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Posto de combustível flutuante para barcos encalhado na comunidade de Nossa Senhora de Fátima, devido ao nível baixo do rio Igarapé Tarumã-açu, na maior seca que Manaus sofreu em 2023 (Rafa Neddermeyer/ABr)Manaus lidera entre as brasileiras
Manaus, no Amazonas, aparece na 27ª posição mundial, com índice de risco de aproximadamente 0,66. A capital amazonense é também a terceira cidade da América Latina e do Caribe na classificação, atrás de Barranquilla, na Colômbia, e Porto Príncipe, no Haiti.
O resultado coloca a capital do Amazonas à frente de grandes metrópoles de países conhecidos por registrar temperaturas elevadas. A classificação, porém, não significa que Manaus seja necessariamente mais quente do que todas as cidades que aparecem abaixo dela. O índice mede o risco resultante da combinação entre calor, vulnerabilidade e capacidade de resposta.
Goiânia aparece em 46.º lugar, com índice aproximado de 0,61, sendo a segunda cidade brasileira na classificação. A capital de Goiás é seguida por Belo Horizonte, em 66º; Fortaleza, em 67º; São Paulo, em 77º; Rio de Janeiro, em 83º; Brasília, em 88º; Recife, em 89º; Salvador, em 93º; Curitiba, em 119º; e Porto Alegre, em 120º.
Goiânia aparece em 46.º lugar, com índice aproximado de 0,61, sendo a segunda cidade brasileira na classificação (Prefeitura Goiânia/GO)Nove brasileiras estão entre as 100 primeiras
A distribuição das cidades brasileiras chama atenção pela amplitude geográfica. Há representantes das cinco grandes regiões do país: Manaus, no Norte; Goiânia e Brasília, no Centro-Oeste; Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, no Sudeste; Fortaleza, Recife e Salvador, no Nordeste; e Curitiba e Porto Alegre, no Sul.
O dado mais expressivo é que nove das 11 cidades brasileiras estão entre as 100 primeiras posições do ranking global. Apenas Curitiba e Porto Alegre aparecem fora desse grupo, nas posições 119 e 120.
A distância entre as cidades brasileiras também é significativa: Manaus está na 27ª posição, enquanto Porto Alegre aparece na 120ª. São 93 posições de diferença dentro de um mesmo país, evidenciando que o risco urbano ao calor não é uniforme no território brasileiro.
Risco não depende apenas da temperatura
A metodologia de Oxford ajuda a explicar por que a posição de uma cidade não pode ser interpretada simplesmente como um ranking de temperaturas máximas.
O estudo utiliza um indicador de exposição baseado no Universal Thermal Climate Index (UTCI), associado aos chamados Cooling Degree Days, que procuram representar o estresse térmico acumulado. A esse componente são acrescentados indicadores de vulnerabilidade e de capacidade de enfrentamento.
Entre os fatores de vulnerabilidade estão aspectos demográficos e econômicos. Já a capacidade de enfrentamento considera condições de infraestrutura e acesso a mecanismos de resfriamento. A cobertura vegetal também entra na análise como um possível amortecedor ambiental.
Essa abordagem produz um paradoxo importante: uma cidade muito exposta ao calor não necessariamente aparece entre as de maior risco se tiver maior capacidade de proteção e adaptação. Oxford cita Bangkok, na Tailândia, e Jeddah, na Arábia Saudita, como exemplos de cidades com elevada exposição que apresentam posições inferiores às que poderiam ser esperadas quando se considera apenas o calor, devido à maior capacidade de enfrentamento.
Por outro lado, cidades com exposição moderada podem apresentar risco elevado quando combinam vulnerabilidade social e baixa capacidade de resposta. O estudo cita Karachi e Faisalabad, no Paquistão, e Kaduna, na Nigéria, nesse contexto.
Brasil aparece em um cenário global concentrado na Ásia e África
Embora 11 cidades brasileiras estejam entre as 205 analisadas, a maior concentração de cidades classificadas nos níveis mais elevados de risco está em outras regiões do planeta. Segundo Oxford, mais de 95% das cidades de maior risco estão localizadas no Sul e Sudeste da Ásia e na África Subsaariana. Índia, Paquistão, Nigéria e Gana concentram o maior número de cidades com pontuações elevadas.
A cidade de Al Basrah, no Iraque, ocupa a primeira posição global no índice. Entre os 50 primeiros também aparecem centros urbanos como Cairo, no Egito; Bangkok, na Tailândia; Hanói, no Vietnã; e Jaipur, na Índia.
O levantamento, portanto, não afirma que o Brasil esteja entre os países com maior número de cidades de alto risco. O dado específico é que 11 grandes cidades brasileiras estão entre as 205 avaliadas, e nove delas figuram no primeiro centenário da classificação.
O que o estudo não permite concluir
O ranking não deve ser usado para afirmar que uma cidade terá necessariamente mais ondas de calor, temperaturas máximas mais elevadas ou maior número de mortes relacionadas ao calor.
Os próprios pesquisadores destacam que o índice representa um conjunto de indicadores harmonizados para permitir comparações internacionais e não constitui uma avaliação exaustiva de todos os fatores que determinam o risco térmico urbano.
Outra limitação é o recorte populacional: o estudo considera cidades com mais de 1 milhão de habitantes. Portanto, municípios menores, inclusive brasileiros, não entram na comparação, ainda que possam enfrentar problemas relevantes de calor extremo.
Para as cidades brasileiras, o resultado reforça que políticas de adaptação não dependem apenas da redução da temperatura urbana. Arborização, infraestrutura, condições habitacionais, acesso a formas de resfriamento e proteção das populações mais vulneráveis fazem parte da equação de risco analisada pelos pesquisadores.
O estudo foi publicado em 21 de maio de 2026 e está associado à Universidade de Oxford, com DOI 10.1016/j.scs.2026.107535.
Com informações da Universidade de Oxford.
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Acesse o estudo “Moving beyond exposure: a globally comparable framework for heat risk assessment in cities”






