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Ciência & Cultura

Previsão do tempo: quem acerta mais, a tecnologia ou a tradição?

Instituto de Pesquisas Espaciais instala supercomputador para a prever o tempo, enquanto Quixadá, no sertão do Ceará, promove o Encontro dos Profetas da Chuva

22/02/2026 - 10:13 Por Wilson Lopes

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), unidade de ciência e tecnologia do governo federal para monitorar o espaço e o ambiente terrestre, atuando no monitoramento do clima, previsões meteorológicas e gestão ambiental, acaba de adquirir o Tupã, um novo supercomputador, instalado no Centro de Dados Científico do Instituto, em Cachoeira Paulista (SP). 

A nova máquina amplia significativamente a capacidade de previsão do tempo e de modelagem climática no país, em um momento em que cresce a demanda por informações precisas diante da intensificação de eventos extremos.

Com mais velocidade, resolução e sustentabilidade, o investimento reforça a capacidade nacional de antecipar riscos climáticos e gerar conhecimento científico estratégico para o país. 

Em relação ao sistema anterior, o Tupã (nome inspirado na mitologia tupi-guarani, que simboliza a força dos trovões e do clima e reflete a conexão entre ciência e cultura brasileira) tem capacidade de processamento de dados de 5 a 6 vezes maior e cerca de 24 vezes mais capacidade de armazenamento de dados, sendo o mais avançado equipamento de previsão de tempo e de clima do país.

A grade de previsão, que antes era de 20 km, passa a 10 km e poderá alcançar 3 km para previsões sobre a América do Sul, o que permite identificar fenômenos locais, como ondas de calor em áreas específicas de grandes cidades, tempestades intensas em regiões delimitadas e efeitos de serras e vales sobre o clima (SECOMINPE)

Para a compra, importação e transporte desta primeira máquina, o investimento foi de quase 30 milhões de reais. Ao final da execução do projeto, a capacidade computacional poderá alcançar pelo menos 8 Petaflops, o equivalente a 8 quatrilhões de operações matemáticas por segundo.

Para batizar a nova máquina, o INPE lançou uma campanha em duas etapas: após receber mais de cem sugestões de servidores, colaboradores e alunos, a escolha final será aberta à sociedade nas redes sociais, fortalecendo o elo entre ciência, cultura e participação pública nessa nova era da supercomputação nacional.

Os profetas da chuva são pessoas que, baseadas em sinais da natureza, como o comportamento dos animais, das plantas, dos ventos, das nuvens, das estrelas e da lua, conseguem antecipar se o ano será de chuva ou de seca na região (Secult/CE)

Profetas da Chuva

Distante 2.675 km de Cachoeira Paulista (SP), onde está instalado o Tupã do INPE, a cidade de Quixadá (88.846 pessoas/IBGE-25), no sertão central do Ceará, celebra a 30ª edição do ‘Encontro dos Profetas da Chuva’, uma iniciativa cultural criada para a preservação do conhecimento tradicional e da sabedoria popular que interpreta os sinais da natureza para prever a quadra invernosa na região.

A quadra invernosa marca o período do ano em que ocorrem as maiores chuvas, especialmente no Nordeste, marcando a transição do verão para o outono/inverno. Ela se concentra historicamente entre fevereiro e maio, sendo vital para a agricultura e o abastecimento hídrico do semiárido. E a precisão das previsões populares, muitas vezes surpreendente, reforça a importância deste conhecimento como um complemento valioso aos dados da meteorologia moderna.

O encontro é realizado pelo Instituto de Pesquisa de Violas e Poesia Cultural Popular do Sertão Central e já se consolidou como um marco no calendário cultural da região, simbolizando a esperança de um bom inverno e a resistência de um saber ancestral.

Segundo os organizadores, o Encontro dos Profetas da Chuva não é apenas uma reunião de fé e tradição, pois já se tornou um palco onde a observação milenar se encontra com a expectativa científica e social. 

“Os profetas participantes, vindos de todo o estado do Ceará, Piauí e Paraíba, utilizam métodos diversificados que misturam a observação do comportamento de aves migratórias, a interpretação de sinais celestiais, a leitura de plantas e até mesmo sonhos e visões, em uma rica tapeçaria de crenças indígenas e práticas religiosas”, explica Helder Cortez, um dos idealizadores do encontro.

A celebração dos 30 anos se estenderá até julho de 2026, com a inauguração de um monumento em homenagem, uma peça de teatro, um mural comemorativo e a publicação de um livro, perpetuando a memória e a importância do Encontro.

Livro ‘Os Profetas: Pelo observar da natureza e o desejo de chover’, com textos de Benedito Teixeira, Cláudia Albuquerque e Ethel de Paula, que conta a história dos profetas da chuva e de como homens e mulheres do sertão cearense dominaram o misticismo e os mistérios do semiárido para prever a chegada da água por meio de observações e experiências de fenômenos naturais (Prefeitura Quixadá/CE)

Tradição popular

Nos últimos anos, o Encontro dos Profetas da Chuva gerou importantes frutos para a região do Sertão Central. Além de promover o resgate e a valorização da cultura popular, o evento contribuiu para a criação da Lei 16.919, sancionada em 2019, que institui o segundo sábado de janeiro como o ‘Dia Estadual dos Profetas da Chuva’ no Calendário Oficial de Eventos do Ceará.

O Encontro inspirou, ainda, a criação de novos eventos em outras cidades do Ceará, como Tejuçuoca, Orós, Tauá, Maranguape, Aracoiaba e Crato. O evento também gerou a produção de duas peças teatrais, seis livros sobre o tema, várias teses acadêmicas – incluindo duas de doutorado nas universidades do Arizona e Columbia (EUA) –, e quatro filmes documentários.

Com informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE); Secretaria da Cultura do Ceará; Franzé Cavalcante, Prefeitura de Quixadá (CE)

@inpe.oficial @governodoceara @secultceara @prefeituracachoeirapaulista @prefeituradequixadace

 

 


 


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