sábado, 12 de setembro de 2026
Logo Agência Cidades
sábado, 12 de setembro de 2026
Sáb, 12 de Setembro
(62) 99183-3766
Crise da moradia

Renda média não compra moradia de 50 m² em quase metade das cidades europeias

Europa vê acesso à casa própria encolher e 44% da população urbana vive onde salário médio compra apenas imóveis de pequeno porte

12/09/2026 - 15:32 Por Wilson Lopes

Um salário médio já não é suficiente para garantir a compra de uma moradia de 50 metros quadrados em grande parte das cidades europeias. Estudo publicado na revista científica Journal of Maps mostra que 44% da população urbana da Europa vive em cidades onde a renda média permite adquirir menos de 50 m², considerando um financiamento imobiliário de 30 anos com comprometimento de até um terço da renda. 

Em termos de mercado, um imóvel de 50 m² corresponde aproximadamente ao tamanho de um apartamento compacto de um quarto (T1), embora também possa ser configurado como um estúdio (T0), dependendo da planta e do país.

A pesquisa analisou cerca de 22 milhões de anúncios de imóveis em 31 países europeus e identificou as áreas metropolitanas de Paris, Berlim e Madri entre os principais focos de baixa acessibilidade habitacional.

O levantamento foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Técnica de Viena (TU Wien), na Áustria, com base em dados de venda e aluguel coletados entre março de 2024 e março de 2025. O objetivo foi calcular quantos metros quadrados uma pessoa com renda média regional consegue financiar ou alugar em diferentes municípios europeus, produzindo um mapa continental das desigualdades no acesso à moradia.

>>Siga a Agência Cidades no Instagram
>>Siga a Agência Cidades no Facebook

Os resultados indicam que a restrição não está concentrada apenas nas capitais. Mais de 70% da população europeia vive em regiões onde um financiamento de 30 anos permite comprar, no máximo, 75 m², revelando que a dificuldade de acesso à casa própria se espalhou por boa parte do continente. Nas áreas urbanas mais densamente povoadas, a pressão é ainda maior devido à combinação entre preços elevados dos imóveis e rendimentos que crescem em ritmo inferior ao valor da habitação.

Outro dado de impacto envolve o mercado de aluguel. Segundo os pesquisadores, 39% dos europeus vivem em regiões onde nem mesmo uma moradia de 50 m² pode ser alugada, destinando até um terço da renda média ao pagamento mensal. O indicador utiliza o mesmo parâmetro de comprometimento financeiro empregado em estudos internacionais de acessibilidade habitacional, permitindo comparar compra e locação sob uma metodologia semelhante.

A pesquisa também evidencia diferenças geográficas importantes. As regiões metropolitanas próximas de Paris, na França; Berlim, na Alemanha; e Madri, na Espanha, aparecem entre os territórios onde o desequilíbrio entre renda e preço dos imóveis é mais acentuado. Além das grandes capitais, áreas costeiras e destinos turísticos apresentam níveis elevados de inacessibilidade, impulsionados por mercados imobiliários pressionados pela valorização dos imóveis e pela demanda residencial.

Embora o estudo tenha abrangência continental, os autores alertam para limitações metodológicas. A análise utiliza preços de anúncios imobiliários, e não valores efetivamente registrados nas transações de compra e venda, além de trabalhar com dados agregados ao nível municipal, o que pode ocultar diferenças significativas entre bairros de uma mesma cidade. O levantamento também não incorpora outras barreiras financeiras relevantes, como o valor da entrada exigida para aquisição de um imóvel, impostos ou custos adicionais da compra, fatores que podem tornar o acesso à moradia ainda mais difícil do que o estimado pelos mapas.

O principal paradoxo revelado pela pesquisa é que a crise habitacional não significa ausência de imóveis, mas redução da capacidade de compra e aluguel diante da renda média. Em outras palavras, o estudo mede a quantidade de espaço habitável que um trabalhador médio consegue acessar em cada território, mostrando que, em dezenas de cidades europeias, a renda disponível passou a garantir apenas apartamentos compactos ou imóveis ainda menores, mesmo em um horizonte de financiamento de três décadas.

Pesquisa da Universidade Técnica de Viena, publicada no Journal of Maps, analisou 22 milhões de anúncios imobiliários em 31 países e mapeou as regiões onde comprar ou alugar uma moradia ficou fora do alcance da renda média (Magnific)

Contexto das cidades e países

A pesquisa analisou 31 países europeus, reunindo informações imobiliárias e financeiras em escala municipal para comparar diferentes realidades nacionais. Os maiores problemas de acessibilidade concentram-se especialmente em áreas metropolitanas e regiões de elevada densidade populacional, onde a valorização imobiliária supera a capacidade de compra da renda média. 

França, Alemanha e Espanha aparecem com destaque pelas situações observadas em Paris, Berlim e Madri, enquanto Portugal, Países Baixos e Suíça são citados em análises derivadas do estudo como mercados sistematicamente menos acessíveis para compradores de renda média.

O estudo Where Can You Still Afford to Live? – A Comparative Perspective on European Housing Affordability foi elaborado pelos pesquisadores Franziska Sielker e Selim Banabak, da Universidade Técnica de Viena (TU Wien), na Áustria, e publicado em setembro de 2026 no Journal of Maps.

Renda média europeia

O estudo não utiliza um valor único de “renda média europeia” para medir a capacidade de acesso à moradia. Os pesquisadores consideram a renda disponível per capita de cada região, ou seja, os recursos médios disponíveis para cada pessoa após impostos e transferências, e harmonizam os dados para 2024, combinando informações do Eurostat e, em alguns casos, da OCDE. 

A partir dessa renda regional, o levantamento estima quanto uma pessoa poderia comprometer com a moradia — até um terço da renda — e compara esse valor com os preços dos imóveis em cada localidade. Por isso, os 44% não representam europeus que recebem abaixo de determinado salário, mas a parcela da população urbana que vive em regiões onde a renda média local, diante dos preços dos imóveis e das condições de financiamento consideradas, permite comprar menos de 50 metros quadrados.

Segundo o Eurostat, com dado mais recente disponível para a União Europeia de 2024, o salário médio anual bruto ajustado para trabalhadores em tempo integral foi de € 39.800 (R$ 236.300), equivalente a aproximadamente € 3.317 (R$ 19.700) brutos por mês em 12 parcelas. O valor cresceu 5,2% em relação a 2023, quando era de € 37.800.

Os maiores salários médios anuais ajustados estavam em Luxemburgo (€ 83 mil), Dinamarca (€ 71,6 mil) e Irlanda (€ 61,1 mil). Os menores foram registrados na Bulgária (€ 15,4 mil), Grécia (€ 18 mil) e Hungria (€ 18,5 mil).

Com informações do Journal of Maps.
@paris_maville, @visit_berlin e @madrid

Acesse o estudo Where can you still afford to live? – a comparative perspective on European housing affordability

 

 

X



 


Deixe seu Comentário