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Campos e veredas

Áreas úmidas do Cerrado armazenam até oito vezes mais carbono do que a Amazônia

A expansão da agricultura, a drenagem de áreas úmidas e a retirada de água para irrigação contribuem para secar o solo, transformando matéria orgânica em dióxido de carbono e metano, gases responsáveis pelo aquecimento global

15/03/2026 - 14:35 Por Rafael Cardoso, Agência Brasil.

O estudo ‘Vastos depósitos de turfa e solos orgânicos negligenciados no Cerrado brasileiro: armazenamento, dinâmica e estabilidade do carbono’, publicado na revista científica New Phytologist, mostra que áreas úmidas do Cerrado podem armazenar cerca de 1.200 toneladas métricas de carbono por hectare, até oito vezes mais do que a densidade média na Amazônia.

O trabalho foi liderado pela pesquisadora Larissa Verona, em parceria com cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), do Cary Institute of Ecosystem Studies (Estados Unidos), do Instituto Max Planck (Alemanha) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

“É importante ressaltar que os estoques de carbono em áreas úmidas abertas do Cerrado são aproximadamente oito vezes maiores do que o carbono médio da biomassa viva acima do solo em florestas de várzea da Amazônia. Esses resultados confirmam que as veredas representam um dos reservatórios de carbono mais importantes não apenas dentro do Cerrado, mas também em escala nacional”, ressalta o estudo.

A ecóloga Larissa Verona lidera a pesquisa que descobriu grande estoque de carbono no Cerrado (Rafael Oliveira/Unicamp)

É a primeira avaliação detalhada dos estoques de carbono presentes nos solos dessas áreas do Cerrado, conhecidas como veredas e campos úmidos.

Pesquisadores coletaram amostras de solo de até quatro metros de profundidade. Estudos anteriores conseguiram analisar apenas camadas superficiais, de 20 centímetros a um metro de profundidade, o que produziu resultados que subestimaram o carbono total em até 95%.

A análise também mostrou que parte desse carbono é extremamente antiga. Testes de datação por radiocarbono indicam que o material orgânico presente nesses solos tem idade média de cerca de 11 mil anos, com registros que ultrapassam 20 mil anos.

“Esse carbono levou muito tempo para se acumular. Se ele for perdido, não podemos reconstruí-lo rapidamente, como ocorre com uma floresta que pode ser replantada”, afirma Larissa Verona.

O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, ocupando cerca de 26% do território brasileiro. Além de ser considerada a savana mais biodiversa do mundo, abriga as nascentes de aproximadamente dois terços das grandes bacias hidrográficas do país, incluindo sistemas que alimentam o rio Amazonas.

“As condições úmidas dos campos e veredas criam falta de oxigênio, o que desacelera a decomposição de plantas e outros resíduos. Como resultado, a matéria orgânica se acumula ao longo do tempo e permite que esses ambientes armazenem grandes quantidades de carbono”, explica a pesquisadora Amy Zanne, coautora do estudo.

Exemplos de Vereda e solos, e mapas mostrando a localização de Veredas em estudos anteriores e atuais. (a) Vista aérea do ecossistema de Vereda no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV) e (b) exemplo de perfil de solo orgânico entre 100 e 150 cm de profundidade no sítio RAJ. (c) Localização e distribuição do Cerrado na América do Sul e Veredas estudadas no presente estudo (círculos vermelhos) e em estudos anteriores (losangos coloridos). (d) Detalhe dos sítios amostrados no presente estudo. Créditos das fotos: (a) A. Dib; (b) L. Verona

Riscos climáticos

Segundo os pesquisadores, a importância do Cerrado para o clima global ainda é subestimada.

“O enorme estoque de carbono do Cerrado não costuma ser incluído nos cálculos climáticos porque, até recentemente, não sabíamos que ele estava ali”, afirma Zanne.

A expansão da agricultura, a drenagem de áreas úmidas e a retirada de água para irrigação estão entre as principais ameaças. Quando o solo seca, o material orgânico se decompõe rapidamente e se transforma em dióxido de carbono e metano, gases responsáveis pelo aquecimento global.

“Se começarmos a drenar essas turfeiras e liberar esse carbono acumulado, lançaremos bombas de carbono na atmosfera. É uma quantidade de carbono orgânico até então desconhecida, em uma grande extensão e em um bioma improvável”, alerta o professor da Unicamp, Rafael Oliveira.

Além disso, medições feitas pela equipe indicam que cerca de 70% das emissões anuais de gases de efeito estufa desses ambientes ocorrem durante a estação seca, período em que o solo perde umidade e a decomposição se acelera.

Com temperaturas mais altas e períodos secos mais longos, a tendência é que uma parcela maior do carbono armazenado no solo seja liberada nos próximos anos.

Criação de gado em Balsas, no Maranhão, onde grandes áreas do Cerrado vêm sendo convertidas para produção agrícola e pecuária, frequentemente com drenagem de áreas úmidas (Fernando Frazão/ABr)

Cerrado sob pressão

O bioma já enfrenta pressões crescentes de mudanças no uso do solo. Grandes áreas do Cerrado vêm sendo convertidas para produção agrícola e pecuária, frequentemente com drenagem de áreas úmidas.

Os autores defendem a ampliação da proteção das áreas úmidas e maior reconhecimento de seu papel climático. Embora a legislação brasileira já preveja proteção para esses ambientes, pesquisadores estimam que até metade dessas áreas já sofreu algum tipo de degradação.

“Chamamos o Cerrado de bioma de sacrifício, porque o Brasil quer proteger a Amazônia, mas também quer manter a agricultura. Então, o agronegócio acaba convertendo o Cerrado para a produção de commodities. O Cerrado também é fundamental por seus grandes estoques de carbono de longo prazo, e precisamos lutar para protegê-lo”, diz Larissa Verona.

Assinam o artigo os pesquisadores Larissa S. Verona, Amy E. Zanne, Susan Trumbore, Paulo N. Bernardino, Guilherme M. Alencar, Thalia Andreuccetti, David Herrera-Ramírez, João CF Cardoso, Demétrio Lira-Martins, Guilherme G. Mazzochini, Natasha Pilon, Rafael S. Oliveira.

Com informações da Agência Brasil.
@unicamp.oficial @ufmg @maxplanckgesellschaft @jardimbotanicorj @newphyt

Acesse o estudo ‘Vastos depósitos de turfa e solos orgânicos negligenciados no Cerrado brasileiro: armazenamento, dinâmica e estabilidade do carbono’>>


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