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Insegurança alimentar

Brasil segue fora do Mapa da Fome, mas custo da alimentação saudável ainda desafia

Relatório da ONU mostra país com menos de 2,5% da população subnutrida e com 0,6% em situação de insegurança alimentar grave

12/08/2026 - 09:39 Por Wilson Lopes

O Brasil permanece fora do ‘Mapa da Fome’ da Organização das Nações Unidas (ONU), mas o novo relatório ‘The State of Food Security and Nutrition in the World 2026’ mostra que a segurança alimentar vai muito além de garantir calorias suficientes: o acesso econômico a uma alimentação saudável continua sendo um dos principais desafios globais

O estudo revela que 645 milhões de pessoas enfrentaram fome em 2025, enquanto 2,69 bilhões — 32,7% da população mundial — não tinham condições de pagar por uma dieta saudável. O relatório considera dados de 2025 e, no caso dos indicadores de fome e insegurança alimentar, trabalha principalmente com médias de três anos.

No Brasil, o indicador utilizado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para definir a permanência ou não no Mapa da Fome, a Prevalência de Subnutrição (PoU), ficou novamente abaixo de 2,5% no triênio 2023/2025. 

Na tabela estatística do relatório, o país aparece com menos de 2,5% da população subnutrida, contra 5,7% no período de referência de 2004/2006. A própria metodologia da FAO estabelece que valores abaixo de 2,5% não são considerados suficientemente precisos para serem divulgados como estimativa pontual, razão pela qual o país é classificado fora do Mapa da Fome.

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O avanço brasileiro também aparece de forma expressiva na insegurança alimentar grave. O indicador caiu de 0,7% para 0,6% da população entre os períodos comparados no relatório, enquanto a parcela submetida a insegurança alimentar moderada ou grave recuou de 13,3% para 9,6%. 

Na prática, o país apresentou uma melhora simultânea nos dois níveis de insegurança alimentar mais severos. O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social confirmou que os 0,6% representam o menor patamar da série histórica brasileira e que aproximadamente 16,7 milhões de pessoas deixaram a condição de insegurança alimentar severa.

O resultado coloca o Brasil em situação significativamente melhor que a média mundial. Em 2025, 7,8% da população mundial enfrentava fome, equivalente a uma estimativa central de 645 milhões de pessoas. Embora o número tenha recuado em relação a 2024, ainda está acima do registrado antes da pandemia e muito distante do objetivo de erradicar a fome até 2030. 

A FAO projeta que, mesmo com a continuidade da melhora, 510 milhões a 520 milhões de pessoas ainda poderão enfrentar fome em 2030, sendo 56% delas na África.

A geografia da fome mundial também mudou. Pela primeira vez, a África concentra o maior número absoluto de pessoas enfrentando fome: 309 milhões, contra 292 milhões na Ásia e 32 milhões na América Latina e Caribe. Em termos proporcionais, a fome atingia 20% da população africana em 2025, ante 6% na Ásia e 4,8% na América Latina e Caribe. O relatório aponta que a tendência de crescimento da fome na África deu sinais de interrupção, enquanto Ásia e América Latina e Caribe mantêm trajetória de melhora.

No Brasil, o custo estimado de uma dieta saudável passou de US$ 3,15 PPP por pessoa/dia em 2017 para US$ 3,97 em 2021 e US$ 4,89 em 2025 (Antônio Luiz Ferreira – Ascom/PMA)

Alerta está no custo de uma dieta saudável

O principal alerta do estudo, porém, está no custo de uma dieta saudável. Globalmente, o valor mínimo estimado para uma alimentação nutricionalmente adequada subiu de US$ 2,94 em paridade de poder de compra (PPP) por pessoa/dia em 2017 para US$ 3,44 em 2021 e US$ 4,28 em 2025. A América Latina e o Caribe apresentam a maior média mundial, de US$ 4,91 PPP por pessoa/dia, acima da África, com US$ 4,35, e da Ásia, com US$ 4,33. América do Norte, Europa e Oceania registram média de US$ 3,64.

O Brasil acompanha essa tendência de alta. O custo estimado de uma dieta saudável passou de US$ 3,15 PPP por pessoa/dia em 2017 para US$ 3,97 em 2021 e US$ 4,89 em 2025. O valor brasileiro é ligeiramente inferior à média da América do Sul, de US$ 4,94, e superior à média global de US$ 4,28. Em oito anos, portanto, o custo de referência de uma alimentação saudável no país aumentou aproximadamente 55% em termos de PPP.

Ao mesmo tempo, houve melhora na capacidade da população brasileira de pagar por essa alimentação. A proporção de brasileiros que não conseguem arcar com o custo de uma dieta saudável caiu de 31,2% em 2021 para 21,1% em 2025. Em números absolutos, a estimativa passou de 65,3 milhões para 44,8 milhões de pessoas no mesmo período. O dado revela uma aparente contradição central para compreender o relatório: a alimentação saudável ficou mais cara, mas a capacidade média de acesso melhorou ainda mais.

Ainda assim, 44,8 milhões de brasileiros sem condições de pagar por uma dieta saudável representam um contingente expressivo. E esse indicador não é sinônimo de fome. A FAO explica que a medida de acessibilidade considera a renda disponível depois da reserva necessária para outras necessidades básicas, como moradia, transporte e demais bens e serviços essenciais. Portanto, uma pessoa pode estar fora da condição de subnutrição que caracteriza o Mapa da Fome e, ainda assim, não conseguir comprar regularmente uma alimentação de qualidade.

O Brasil apresenta 21,1% da população sem condições de pagar por uma dieta saudável, percentual inferior ao registrado no Chile (36,8%), Colômbia (35,9%), Peru (34,8%), Uruguai (32%) e Equador (25,7%), mas superior ao Paraguai (22,3%), Suriname (23,7%) e Bolívia (10,5%). Já o custo de uma dieta saudável no Brasil, de US$ 4,89 em paridade de poder de compra (PPP) por pessoa/dia, fica abaixo de Chile (US$ 5,65), Suriname (US$ 5,94), Bolívia (US$ 5,38), Paraguai (US$ 5,31) e Colômbia (US$ 5,04), mas supera os valores de Peru (US$ 4,45) e Uruguai (US$ 4,54).

O relatório mostra que o problema não é simplesmente a quantidade de alimentos produzidos, mas quanto custa colocar alimentos nutritivos na mesa. Três grupos — alimentos de origem animal, verduras e frutas — respondem por quase 70% do custo de uma dieta saudável, enquanto os alimentos básicos ricos em amido representam cerca de 16% do custo, apesar de fornecerem aproximadamente metade das calorias da cesta de referência.

Essa característica ajuda a explicar uma particularidade latino-americana. A América Latina e o Caribe têm a dieta saudável mais cara entre as grandes regiões do mundo, e as verduras são especialmente responsáveis pelo encarecimento. Segundo o relatório, 65,5% dos países da região estão no tercil de maior custo para vegetais.

O estudo também demonstra que o preço não é uniforme dentro dos próprios países. Os exemplos analisados em Gana, Nigéria e Paquistão mostram diferenças importantes entre regiões, estados, áreas urbanas e rurais. Na Nigéria, por exemplo, o levantamento utiliza preços de 36 estados e do Território da Capital Federal, enquanto no Paquistão são considerados 35 distritos urbanos e 27 rurais, com resultados agregados por províncias como Punjab, Sindh, Khyber Pakhtunkhwa e Balochistan. Em algumas áreas da Nigéria, o preço dos vegetais chegou a ser mais de duas vezes superior ao observado na região da capital.

Há, portanto, uma dimensão territorial e municipal importante no diagnóstico. O relatório observa que a insegurança alimentar é, em geral, maior nas áreas rurais do que nas urbanas. Em 2025, a prevalência de insegurança alimentar moderada ou grave era cerca de cinco pontos percentuais menor nas áreas urbanas do que nas periurbanas e quatro pontos menor do que nas rurais.

Importância dos municípios na implementação de políticas de segurança alimentar

É justamente nesse ponto que o diagnóstico da ONU se aproxima da abordagem defendida pela Confederação Nacional de Municípios (CNM). Em sua comunicação sobre a permanência do Brasil fora do Mapa da Fome, a entidade enfatiza que o resultado nacional não elimina os desafios locais e destaca a importância dos municípios na implementação de políticas de segurança alimentar, no apoio à agricultura familiar, na manutenção de restaurantes populares, bancos de alimentos, cozinhas comunitárias, feiras e mercados municipais e no atendimento direto às famílias vulneráveis. A CNM também sustenta que o combate à fome depende de políticas adaptadas à realidade de cada território.

Essa conexão é particularmente relevante diante das conclusões do SOFI 2026. A FAO afirma que políticas uniformes não são suficientes: é necessário combinar aumento da oferta de alimentos nutritivos com redução dos custos estruturais ao longo da cadeia. Entre as medidas apontadas estão investimentos em pesquisa agrícola, irrigação, estradas, logística, armazenamento, cadeia de frio, processamento, redução de perdas e desperdícios, facilitação do comércio e revisão de subsídios.

O relatório chega a uma conclusão particularmente importante para as administrações públicas: 70% a 75% do que o consumidor paga por alimentos ocorre depois da porteira, e até 40% dos custos da cadeia podem se concentrar nas etapas de processamento, logística e atacado. Isso significa que reduzir o preço da alimentação saudável não depende apenas do produtor rural. Estradas, transporte, armazenamento, mercados, energia, conectividade e infraestrutura urbana também interferem diretamente no preço final dos alimentos.

Para o Brasil, a mensagem é dupla. O país consolidou uma importante vitória ao permanecer fora do Mapa da Fome e reduzir a insegurança alimentar grave, mas ainda tem o desafio de transformar essa conquista em acesso universal a uma alimentação saudável. O fato de 44,8 milhões de brasileiros ainda não conseguirem pagar regularmente por uma dieta saudável demonstra que a erradicação da fome e a garantia de alimentação adequada são etapas diferentes de uma mesma agenda.

O próprio perfil nutricional brasileiro reforça esse paradoxo. Ao mesmo tempo em que a subnutrição caiu para abaixo de 2,5%, a obesidade entre adultos subiu de 19,1% em 2012 para 30,1% em 2024, enquanto o excesso de peso entre crianças menores de cinco anos passou de 7,7% para 10,9%. O país, portanto, enfrenta simultaneamente problemas de acesso insuficiente a alimentos saudáveis e de expansão de padrões alimentares associados ao excesso de peso.

A queda da fome e da insegurança alimentar é real, porém insuficiente

No cenário mundial, a conclusão do estudo é clara: o combate à fome avançou, mas o mundo ainda está longe de cumprir o ODS 2 até 2030. A queda da fome e da insegurança alimentar é real, porém insuficiente, enquanto o custo de uma alimentação saudável continua elevado. O relatório defende que a próxima fronteira das políticas públicas não é apenas colocar comida suficiente à disposição da população, mas tornar frutas, verduras, legumes e alimentos nutritivos economicamente acessíveis, em todos os territórios.

No caso brasileiro, a principal conclusão é que sair do Mapa da Fome não significa encerrar a luta contra a insegurança alimentar. O desafio muda de natureza: passa da garantia mínima de calorias para a garantia de qualidade, diversidade e acessibilidade da alimentação. E, nesse processo, a atuação dos municípios ganha peso estratégico, exatamente como sustenta a CNM, porque é no território — nas cidades, bairros, comunidades rurais, mercados, escolas, equipamentos de assistência social e cadeias locais de produção e distribuição — que o custo e o acesso aos alimentos efetivamente se materializam.

O relatório informa que os dados utilizados foram coletados até 1º de abril de 2026 e que informações posteriores a essa data não foram incorporadas à edição. A produção é de responsabilidade da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (IFAD), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Programa Mundial de Alimentos (WFP) e Organização Mundial da Saúde (WHO). 

Com informações da Agência CNM de Notícias.
@fao @faobrasil @worldbank @bancomundialbrasil @portalcnm @mdsgovbr @mdagovbr @mapa_brasil

Acesse o relatório ‘The State of Food Security and Nutrition in the World 2026’

 

 


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