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#AUP

Consumo de alimentos ultraprocessados cresceu 130% desde os anos 80

Substâncias que melhoram a textura, o sabor e a aparência dos alimentos também aumentam em 25% o risco de diabetes, além de provocar depressão, sobrepeso e doença cardiovascular

30/11/2025 - 15:55 Por Wilson Lopes

Uma série de três artigos publicados na revista The Lancet acende uma luz vermelha sobre o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados (AUP) na alimentação humana.

Tanto que uma das mais prestigiadas publicações científicas sobre medicina do mundo, editada semanalmente desde 1823, dedicou um editorial sobre o assunto. No texto ‘Alimentos ultraprocessados: é hora de priorizar a saúde em vez do lucro’, a revista afirma que os AUP estão prejudicando a saúde pública, agravando doenças crônicas em todo o mundo e aprofundando as desigualdades em saúde.

Para enfrentar esse desafio, diz o editorial, é necessária uma resposta global unificada que confronte o poder corporativo e transforme os sistemas alimentares, promovendo dietas mais saudáveis e sustentáveis.

Os AUP são identificados pela presença de aditivos sensoriais que melhoram a textura, o sabor ou a aparência dos alimentos. O alto consumo de AUP está associado a um risco aumentado de obesidade, doenças cardiovasculares e outras condições. 

No entanto, o valor do conceito de AUP não é universalmente aceito, explica o texto da Lancet. Alguns críticos argumentam que agrupar alimentos que podem ter valor nutricional na categoria AUP, incluindo cereais matinais fortificados e iogurtes aromatizados, juntamente com produtos como carnes reconstituídas ou bebidas açucaradas, é contraproducente. 

A questão é que os AUP são raramente consumidos isoladamente. É o padrão alimentar geral de AUP, no qual alimentos integrais e minimamente processados são substituídos por alternativas processadas, e a interação entre múltiplos aditivos prejudiciais, que causa efeitos adversos à saúde.

“No cerne da indústria de alimentos ultraprocessados está o processamento em larga escala de commodities baratas, como milho, trigo, soja e óleo de palma, em uma ampla gama de substâncias e aditivos alimentares, controlado por um pequeno número de corporações transnacionais. Os alimentos ultraprocessados são agressivamente comercializados e projetados para serem hiperpalatáveis, impulsionando o consumo repetido e frequentemente substituindo alimentos tradicionais ricos em nutrientes”, adverte o editorial. 

O texto ressalta que, em muitos países de alta renda, os alimentos ultraprocessados representam cerca de 50% da ingestão alimentar das famílias, e o consumo está aumentando rapidamente em países de baixa e média renda. 

“Os danos se estendem à saúde do planeta. A produção industrial, o processamento e o transporte de commodities agrícolas são sistemas que consomem intensivamente combustíveis fósseis, e as embalagens plásticas são onipresentes nos alimentos ultraprocessados”. 

A Lancet observa que um pequeno grupo de fabricantes domina o mercado de AUP, incluindo Nestlé, PepsiCo, Unilever e Coca-Cola. Para enfrentar a questão, o texto sugere uma abordagem abrangente, liderada pelo governo, incluindo a adição de marcadores de alimentos ultraprocessados, como corantes, aromatizantes e adoçantes não açucarados, aos modelos de perfil nutricional usados para identificar alimentos não saudáveis; rótulos de advertência obrigatórios na parte frontal das embalagens; proibições de marketing direcionado a crianças; restrições a esses tipos de alimentos em instituições públicas; e impostos mais altos sobre alimentos ultraprocessados. 

“A indústria de alimentos ultraprocessados é emblemática de um sistema alimentar cada vez mais controlado por corporações transnacionais que priorizam o lucro corporativo em detrimento da saúde pública”, conclui o editorial. 

Os textos demonstram que a deterioração das dietas representa uma ameaça urgente à saúde pública

Aumento do consumo e associação com diversas doenças

A série de três artigos publicados na The Lancet analisa as evidências sobre o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados nas dietas em todo o mundo e destaca sua associação com diversas doenças não transmissíveis.

Os textos demonstram que a deterioração das dietas representa uma ameaça urgente à saúde pública, que exige políticas coordenadas e ações de defesa para regulamentar e reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados e melhorar o acesso a alimentos frescos e minimamente processados. 

A série apresenta uma visão diferente para o sistema alimentar, com ênfase em produtores locais, na preservação das tradições alimentares culturais e nos benefícios econômicos para as comunidades.

Alimentos ultraprocessados e saúde humana

Em um dos três artigos, ‘Alimentos ultraprocessados e saúde humana: a tese principal e as evidências’, os pesquisadores estudaram, ao longo de 20 anos, as mudanças no abastecimento alimentar do Brasil relacionadas ao aumento da obesidade, e perceberam que a finalidade do processamento de alimentos havia mudado de preservar os alimentos para criar substitutos lucrativos usando substâncias e aditivos alimentares baratos. 

Essa percepção os levou a criar a classificação Nova (com seu quarto grupo de alimentos ultraprocessados) para capturar não apenas os nutrientes, mas também a extensão e o propósito do processamento de alimentos como um determinante fundamental da qualidade da dieta e do risco de problemas de saúde.

O padrão alimentar baseado em alimentos ultraprocessados está substituindo globalmente as dietas baseadas nos grupos Nova 1 a 3 e seu preparo como pratos e refeições.

Nova: a classificação de alimentos baseada na extensão e finalidade do processamento

  • 1. Alimentos não processados ou minimamente processados
  • 2. Ingredientes culinários processados
  • 3. Alimentos processados
  • 4. Alimentos ultraprocessados: produtos de marca feitos com substâncias e aditivos baratos derivados de alimentos, projetados e comercializados para substituir alimentos de verdade (grupos Nova 1–3) e refeições preparadas na hora, maximizando os lucros da indústria.

Os pesquisadores afirmam que a contribuição energética dos alimentos ultraprocessados para as dietas aumentou globalmente nas últimas décadas. O texto ressalta que, de 2007 a 2022, as vendas totais de alimentos ultraprocessados aumentaram em países de baixa e média renda, mas permaneceram estáveis em países de alta renda, onde o consumo já está consolidado.

“Nossa revisão sistemática de 104 estudos encontrou 92 que mostram uma associação entre o padrão alimentar baseado em alimentos ultraprocessados e o aumento do risco de uma ou mais doenças crônicas”, relatam. 

Nessa revisão, os pesquisadores encontraram associações estatisticamente significativas com condições adversas de saúde, incluindo:

• Diabete tipo 2: aumento de 25% no risco
• Depressão: aumento de 23% no risco
• Sobrepeso ou obesidade: aumento de 21% no risco
• Mortalidade por todas as causas: aumento de 18% no risco
• Doença cardiovascular ou mortalidade: aumento de 18% no risco

Para os pesquisadores, a totalidade das evidências mostra que o padrão alimentar ultraprocessado substituiu, e continua a substituir, padrões estabelecidos há muito tempo com base nos três primeiros grupos Nova e seu preparo como pratos e refeições. Vários mecanismos plausíveis explicam as associações com o aumento do risco de doenças crônicas, incluindo:

• Desequilíbrios nutricionais múltiplos
• Alimentação excessiva
• Aumento da ingestão de compostos tóxicos
• Exposição a aditivos e misturas de aditivos potencialmente prejudiciais

“Em conjunto, essas descobertas apoiam a tese de que o padrão alimentar ultraprocessado é um dos principais fatores que contribuem para o aumento global da carga de doenças crônicas relacionadas à alimentação. Políticas e ações de saúde pública são justificadas em todos os níveis para preservar, proteger e promover dietas baseadas em alimentos integrais e seu preparo como pratos e refeições”, alertam os pesquisadores.

As evidências científicas produzidas ao longo desse tempo apontam que dietas ricas em ultraprocessados estão associadas à ingestão excessiva de calorias

Lucros extraordinários

Carlos Monteiro, pesquisador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da Universidade de São Paulo (USP) liderou o trabalho no Brasil. Ele alerta que esse consumo crescente está reestruturando as dietas em todo o mundo, e não ocorre por acaso:

“Essa mudança na forma como as pessoas se alimentam é impulsionada por grandes corporações globais, que obtêm lucros extraordinários priorizando produtos ultraprocessados, apoiadas por fortes estratégias de marketing e lobby político que bloqueiam políticas públicas de promoção da alimentação adequada e saudável.”

O relatório lembra que esses produtos passaram a ser comuns em alguns países de alta renda após a Segunda Guerra Mundial, mas se tornaram um fenômeno global, e seu consumo se acelerou a partir da década de 80, com a globalização. Em paralelo, também cresceram as taxas globais de obesidade e de doenças como diabetes tipo 2, câncer colorretal e doença inflamatória intestinal.

As evidências científicas produzidas ao longo desse tempo apontam que dietas ricas em ultraprocessados estão associadas à ingestão excessiva de calorias, pior qualidade nutricional e maior exposição a aditivos e substâncias químicas nocivas. 

Carlos Monteiro também participou da criação da classificação Nova. Ele reforça que o objetivo é facilitar o entendimento sobre “como o processamento afeta a qualidade da dieta e a nossa saúde” e contribuir para a criação de diretrizes, como o Guia Alimentar da População Brasileira, criado pelo Nupens para o Ministério da Saúde, que incorporou a classificação na sua segunda edição.

Outra medida considerada essencial é a proibição desses produtos em instituições públicas, como escolas e hospitais. Nesse ponto, o Brasil é citado como exemplo, por causa do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) do Brasil, que vem reduzindo a oferta desses produtos e estabeleceu que 90% dos alimentos oferecidos nas escolas devem ser frescos ou minimamente processados, a partir de 2026. 

Fonte: Alimentos ultraprocessados e saúde humana: a tese principal e as evidências

93 países pesquisados

Os estudos analisaram dados de vendas de alimentos da Euromonitor International em 93 países. Segundo os dados, a contribuição energética dos alimentos ultraprocessados para o total das compras alimentares das famílias quase triplicou na Espanha ao longo de três décadas (de 11,0% para 31,7%), mais que dobrou no Canadá ao longo de oito décadas (de 24,4% para 54,9%) e aumentou de 10% para 23% no México e no Brasil ao longo de quatro décadas. 

Na Argentina, essa contribuição aumentou de 19% para 29% ao longo de três décadas. Na China (de 3,5% para 10,4%) e na Coreia do Sul (de 12,9% para 32,6%), a baixa participação dos AUP na dieta triplicou ao longo de três décadas. Nos EUA (60%) e no Reino Unido (50%), onde o consumo já era superior a 50%, houve apenas um ligeiro aumento ao longo de duas décadas, indicando que os padrões alimentares nesses países já estão bem estabelecidos. Todos os estudos relataram tendências de aumento estatisticamente significativas, exceto o estudo do Reino Unido.

Com informações da The Lancet e de Tâmara Freire, Agência Brasil.
@thelancetgroup @nupensusp

Acesse os artigos da revista The Lancet>>

Editorial - Alimentos ultraprocessados: é hora de priorizar a saúde em vez do lucro.
The Lancet

Alimentos ultraprocessados e saúde humana: a tese principal e as evidências
Carlos A. Monteiro, Maria L. C. Louzada, Eurídice Steele-Martinez, Geoffrey Cannon, Giovanna C Andrade, Phillip Baker e outros

Políticas para deter e reverter o aumento da produção, comercialização e consumo de alimentos ultraprocessados
Gyorgy Scrinis, Barry M Popkin, Camila Corvalan, Ana Clara Duran, Marion Nestle, Mark Lawrence e outros

Em direção a uma ação global unificada sobre alimentos ultraprocessados: compreendendo os determinantes comerciais, combatendo o poder corporativo e mobilizando uma resposta de saúde pública
Phillip Baker, Scott Slater, Mariel White, Benjamin Wood, Alejandra Contreras, Camila Corvalán e outros


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